Nossos Índios – Kamayurás do XIngu

Caminhando com os Kamayurás

O primeiro contato com os Kumayurás foi realizado por Karl Von den Stein, etnógrafo alemão, em 1886, em companhia do seu patrício Paul Ehreinreich.

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Eles visitaram toda a região da galhada formadora do Xingu, contatando com 4 aldeias Kamayurás que lá existiam. Neste momento, eles se encontravam em fase histórica da migração para assentar-se na Lagoa de Ipavú. Mas foi a partir da expedição Roncador-Xingu, nos anos 50, que se sucedeu os contatos mais estreitos com os Kamayurás.

A aldeia era formada por uma série de casas chamadas “malocas”, dispostas circularmente em torno do centro desta aldeia. Cada uma delas possuía um “dono”, o “hokayat”, que presidia sua construção. Em cada maloca morava uma família com todos os seus parentes. A duração de uma casa era de 10 anos e a disposição do povoado mudava a cada 30 anos. Quando um homem procedente de outra aldeia se casava, tinha que viver com a família da mulher e, deveria trabalhar para seu sogro durante vários anos.

As relações intertribais entre os grupos indígenas do Alto Xingu era embasada nos intercâmbios comerciais e nos casamentos. Os “Aweti” são a aldeia que havia se especializado na produção do sal. Os “Aruák” produziam e intercambiavam cerâmicas e os “Kalapálo” confeccionavam os tão apreciados colares e conchas de caramujos, um molusco que era o dinheiro oficial no Alto Xingú.

O sal era obtido de diversas plantas aquáticas, principalmente da “uapa”, considerada um produto precioso. Para sua obtenção deve-se proceder a secagem da planta, depois sua queima e filtragem das cinzas. Os Kamayurás são também conhecidos pelos seus arcos de cor negra.

A base da alimentação deste povo é a mandioca, o pescado do rio, entre eles a crimata, corumbatas, tucumaré, tec. A dieta é complementada ocasionalmente com banana, milho, mamão, frutos silvestres.

A vida cerimonial Kamayurá circunscrevia ao centro social da aldeia e tinha relação direta com o mundo dos espíritos.

Mitos e ancestrais

A palavra Kamayurá Moroneta designa o conjunto de explicações verbais e visuais para explicar o nascimento de uma cultura, já que eles não possuem língua escrita.

Mavutsinim, foi o primeiro homem (pai de todos os homens) criador das pessoas, dos povos, do mundo, da serpente, do fogo e da água. Equivale a figura do Deus que habitava o Morená, um lugar mítico. Parte da história ancestral dos Kamayurá são comuns aos Yawalapiti e os Aruák, que chamam Wamuté (língua Aruák) ou Kwamuati (entre os Yawalapoti) a Mavutsinim.

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Mavutsinim, criou a mulher a partir de um tronco chamado “mawu”, passando uma folha denominada “anemob” sobre o tronco e rezando. Depois pegou um mosquito e colocou suas asas no nariz da mulher, que espirrou e despertou. Ao ver Mawustinim que a mulher não tinha cabelo, colocou-lhe então um cabelo comprido. O primeiro filho desta mulher chamou-se “Ianama”e a primeira filha “Tanumakalo”.

Mavutsinim criou primeiro o peixe e soltou-o na água. Depois falou com Kwat e Jal, o Sol e a Lua, filhos da Onça, para que pescassem somente quando estivessem crescidos. Dando continuidade a sua criação Mavutsinim criou mais água e o lago de Morená. Os irmãos, Sol e Lua, desejavam mais pessoas e então, Mawustinim criou mais 20 homens entre eles: Kamiyat, Kuarup, Mabu e Kuayakaup. A partir destes troncos, se formaram as nações índias do Xingu. Deste modo, foram criados ainda, os: Aurák, Kuikúro, Nafukuá, Kalapálo, Machipú, Yaealapiti, Trumáe, etc., e os enviou para povoar o mundo.

Foi também Mavutsinim quem criou o arco convencional dos índios, o arco negro para os Kamayurá, muito valorizado em todo o Xingu, por sua dureza e resistência e foi quem curiosamente forneceu as armas de fogo ao homem branco. Conta-se que tomando quatro pedaços de barro, resolveu criar as tribos Kamayurá, Kuikúro, Waurá e Txukaha mãe. Criou também as panelas de barro, a “borduna” (arma de madeira indígena), os arcos brancos e negros e a espingarda.

Mavutsinim resolveu colocar os brancos em cidades bem distantes das aldeias dos índios, pois padeciam de muitas enfermidades e tinham armas de fogo.

Posteriormente, fundiram-se outros elementos à mitologia Kamayurá, logo depois do primeiro do primeiro contato com o explorador alemão Von den Steinen. Na mitologia, todavia permanecem em Morená um homem branco e um Kamayurá que estão sentados embaixo da água e não caminham.

Mavutsinim criou o cavalo para o branco e também três homens brancos, dois dos quais emigraram, enquanto o terceiro habita o Morená montando o cavalo. Conta-se que quando um índio tem a visão deste homem branco montado no cavalo, é com certeza que morrerá em três dias.

“Kuarup”, A festa dos mortos

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O primeiro Kuarup (Mavutsinim)

Mavutsinim, desejava fazer com que os mortos voltassem à vida.

Foi então no mato, cortou dois troncos e deu-lhes a forma de um homem e de uma mulher, pintando-os e adornando-os com colares, penachos e braçadeiras de plumas. Cravou-os no centro da aldeia. Preparou então uma festa e distribuiu alimentos a todos os índios, para que esta não fosse interrompida. Pediu aos membros da tribo que cobrissem seus corpos com uma pintura que expressasse apenas alegria, pois aquela seria uma cerimônia em que, ao som do canto dos maracá-êp, os mortos iriam reviver: os Kuarups criariam vida.

No outro dia a festa continuava; os índios deveriam cantar e dançar, embora proibidos pelos pajés de olharem para os troncos. Aguardariam de olhos cerrados a grande transformação.

Naquela mesma noite, as toras começaram a mover-se, as penas mexiam-se como se estivessem sendo sacudidas pelo vento, tentando sair das covas onde foram colocadas. Ao amanhecer já eram metade humanos, modificando-se constantemente. Mavutsinim pediu então aos índios que se aproximassem dos Kuarups sem parar de festejar, cantando, rindo e dançando. Apenas os que haviam passado a noite com mulheres não poderiam se integrar à cerimônia, permanecendo afastados do local. Um destes, porém, com irresistível curiosidade, desobedeceu às ordens do pajé e aproximou-se, quebrando o encanto do ritual. E os Kuarups voltaram à sua forma original de troncos.

Contrariado, Mavutsinim declarou que, a partir daquele instante, os mortos não mais reviveriam no ritual do Kuarup! Haveria somente a festa. Ordenou que os troncos fossem retirados da terra e lançados ao fundo das águas, onde permaneceriam para sempre.

O Kuarup é portanto, uma cerimônia de homenagem aos mortos, que é celebrada um ano depois do falecimento do indivíduo. Corresponde a festa de finados do homem branco. O nome deste cerimonial procede e um tipo de árvore, cujos troncos representam o espírito dos mortos.

Os Kamayarás pintam a pele e o cabelo um com corante vermelho chamado “urucum” e outro verde, conhecido como “jenipapo”, que aplicados a pele, ali permanecem por 10 dias.

Durante o Kuarup, necessita-se pescar grandes quantidades de peixes para reparti-los na aldeia.

Vários meses antes, se celebra a cerimônia de abertura do Kuarup. Para tanto, a família do morto vai pescar por vários dias e em seu regresso, entrega todo o pescado obtido, depositando-o no lugar onde está enterrado o corpo, geralmente no centro da aldeia. Na noite anterior a chegada dos pescadores, todos os homens do povoado se pintam com urucum e jenipapo, tocam flauta “jakuí” (instrumento de quase 2 metros, formado de tubos), bebem mingau, cantam e fumam, enquanto permanecem a espera toda a noite sem dormir. As mulheres não participam destas reuniões.

O Kuarup é uma festa alegre e exuberante, onde homens e mulheres cantam e dançam. Na visão dos índios, os mortos não querem ver os vivos tristes ou feios. Kuarup é um dia de alegria.

Depois da cerimônia do Kuarup, os espíritos estão liberados para irem ao mundo dos mortos.

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Pajelança, a encantaria amazônica

O pajé é o xamã, o médico, o curandeiro e o guia espiritual da aldeia. O ritual de cura de um pajé exige uma iluminação prévia e uma viagem ao mundo dos espíritos, para ver claramente a origem da enfermidade e poder conversar com estas entidades. Elas, podem ter contato com o pajé em sonhos ou através da alteração do estado de consciência oportunizado pela ingestão de algumas ervas ou raízes recolhidas na floresta.

Durante o ritual terapêutico, o pajé reza e fuma ao mesmo tempo, baforando a fumaça do tabaco sobre o corpo do doente. Enquanto isto sustenta em uma das mãos o maracá, cujo ruído assinala a aproximação do espírito. O pajé pode alcançar o transe fumando e hiperventilando continuamente, o que lhe provoca visões que lhe direcionam para compreender os atos estranhos que se sucedem na aldeia, ou para predizer sucessos e insucessos.

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O pagamento do pajé vai depender do prestígio que ele possui na comunidade da qual faz parte. Habitualmente recebe como paga um colar de conchas de caramujos muito valorizado, considerado como pedra preciosa entre os índios do Xingu. Mas, normalmente, é elevado o preço dos tratamentos praticados pelos pajés mais afamados, ficando totalmente inacessível para os índios mais pobres, que procuram então, a medicina branca gratuita para curar seus males.

A pajelança é um ato-ritual de cura, levada á cabo por vários pajés. Nestas ocasiões eles se reúnem para fins curativos ou cuidar da realização de um feitiço que beneficie todas as comunidades participantes do evento.

A crença da pajelança é assentada na figura do encantamento, ou seja, é um culto á encantaria. Encantados são os seres invisíveis que habitam as florestas, o mundo subterrâneo e aquático, regiões conhecidas como “encantes”. Os pajés servem de instrumentos para a ação dos encantados. Para tornar-se pajé, o indivíduo precisar ter um dom de nascença ou “de agrado” (adquirido).

Os pajés Kamayurá estabeleceram um sistema de saúde baseado na magia, transmitido oralmente e na utilização de plantas tradicionais.

O velho pajé Sapaim é o pajé mais conhecido dos kamaiyrás. Ficou famoso em 1986 por tratar do naturalista Augusto Ruschi. Hoje ele mora em Brasília e sua família é mantida pela FUNAI.

Nossos índios, eternos itinerantes

Nosso índio era dono deste pindorama imenso, ele dispunha a seu talante das águas dos rios, da caça das matas, das praias de areia alvíssimas, onde alegremente colhia a pitanga, o caju e o cardo. Ele que, enfim, na busca da alimentação para a sua sobrevivência, ou na guerra continuada com tribos vizinhas, sentia-se livre e feliz, agora cabisbaixo e triste, caminha quilômetros e quilômetros, para reclamar, seja por intermédio da imprensa ou das autoridades competentes, terras e subsídios com os quais possa obter, com o suor do rosto, o pão de cada dia. Hoje, o campeador de outrora, encontra-se despojado de suas terras e já não tem palmo de chão para lavrar.

O indígena que aproximou-se do homem branco, atraído por seus utensílios e instrumentos que lhe facilitavam o trabalho na luta pela vida, vê-se agora nas garras da fome, numa agonia intérmina, sem ter ninguém para protegê-lo.

Resistir é existir…

Em contato com o branco, o índio levou uma formidável queda moral. Seus sentimentos mais sublimes descambaram para o instinto de sobrevivência e tiveram que lutar bravamente contra os invasores de seus rincões. Pouco a pouco, foram compreendendo que era inútil lutar… Acabaram entregando-se aos lusitanos, como boi que procura, voluntariamente, a canga da pesada viatura. Outros, entretanto, campearam pela liberdade, enfrentaram então, a selva intrincada com todos os seus demônios e deuses e, quando não morriam na áspera viagem, foram se organizando em novos aldeamentos no âmago do sertão. Estes indígenas, que viveram longe da civilização, mantiveram intactas todas as qualidades de bravura, agilidade e independência.

O homem branco, em nome do progresso e da civilização, tem cometido um certo etnocídio somado a uma irreversível devastação dos ecosistemas.

O sonho não acabou…

Depois de longos ciclos de amarga humilhação e exploração desapiedada é compreensível que surjam correntes que consagram uma apologia ingênua das coisas indígenas antes da chegada dos conquistadores portugueses. Hoje, estamos conscientes que há uma necessidade de se reconhecer a realidade inexorável de uma sociedade multinacional e pluricultural associada à bondade dos valores universais. O caminho promissor é aceitar a diversidade dentro de uma unidade. A senda presente poderia ser descrita como tolerar-se e respeitar-se, assim como entender o todo. Pelo menos se deseja que acabe a pretensão de se impor a força à civilização dos brancos aos índios.

Rosane Volpatto

Bibliografia

AGOSTINHO, Pedro. 1974. Kwarìp: Mito e Ritual no Alto Xingu. São Paulo: EPU e EDUSP.

AGOSTINHO, Pedro. 1974. Mitos e outras narrativas Kamayurá. Salvador (UFBA (Coleção Ciência e Homem).

BASTOS, Rafael José de Menezes. 1983. “Sistemas políticos, de comunicação e articulação social no Alto-Xingu”. Anuário Antropológico/81: 43-58.

SAMAIN, Etienne. 1991. Mononeta Kamayurá: mitos e aspectos da realidade social dos índios Kamayurá (alto Xingu). Rio de Janeiro: Lidador.

VIERTLER, Renate Brigitte. 1969. Os Kamayurá e o alto Xingu: análise do processo de integração de uma tribo numa área de integração intertribal. São Paulo: USP (Publicação do Instituto de Estudos Brasileiros, 10).

VILAS BOAS, Orlando & Cláudio VILAS BOAS. 1970. Xingu: os índios, seus mitos. Rio de Janeiro: Zahar.

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