Farmacologia, Botânica, Química, Cipó Banisteriopsis – Cipó Mariri

Farmacologia, Botânica, Química 

 Cipó Banisteriopsis – Cipó Mariri

Pedro Fernandes Leite da Luz

 

Entre as inúmeras plantas utilizadas como enteógenos nas Américas destaca-se aquela que será aqui estudada: o cipó Banisteriopsis (cipó mariri) caapi da família Malpighiaceae, cuja descrição em Pio Corrêa (1926:351) é a seguinte: “Arbusto de ramos estriados e folhas bi-glanduloso-pecioladas, ovadas ou ovado-lanceoladas, agudo-cuspidadas, fuscecentes, glabras; flores dispostas em amplas panículas pyramidaes constituídas por corymbos umbelliformes, fructo samara alada, pilosa.”

Richard Spruce, jovem botânico inglês, foi o primeiro a descrever a planta, que conheceu em 1852, na localidade de Urubú-coára. Apesar das referências prévias ao uso indígena desta espécie feitas por missionários, Chantre no final do século XVII, Magnin em 1740, e por inúmeros viajantes estrangeiros (ver Schultes 1986), foi Spruce quem primeiro coletou e fez a identificação botânica da planta em questão. Encontrando-se naquela localidade acima referida, durante uma festa de Dabacuri, foi convidado a ingerir a bebida elaborada a partir do Banisteriopsis caapi. Indagando sobre a origem de tal beberagem, teve a sorte de ser apresentado à planta em flor e contendo já alguns frutos, fato este que possibilitou sua correta identificação. A partir de então a ciência ocidental passou a se interessar e a estudar aquela que de há muito já era utilizada pelos povos do noroeste amazônico.

Em recente revisão da matéria, Gates (ver Ott 1994:15-16) relaciona as seguintes espécies da família Malpighiaceae como sendo base de bebida de caráter enteógeno: Banisteriopsis caapi, Banisteriopsis longialata, Banisteriopsis lutea, Banisteriopsis martiniana var. subenervia, Banisteriopsis muricata, Callaeum antifebrile, Lophantera lactescens, Tetrapterys mucronata, Tetrapterys methystica. De longe a mais usada e apreciada é a Banisteriopsis caapi, sendo as outras espécies do gênero consideradas substitutos quando esta não está disponível. A espécie Callaeum antifebrile é considerada mais como uma planta aditiva do que como base da bebida . Quanto à Lophantera lactescens, os indícios de seu uso são tênues (Schultes 1986:10-39), ao passo que a Tetrapterys methystica é usada exclusivamente pelos índios Maku (Schultes 1986:10-39) e a espécie Tetrapterys mucronata parece ter seu uso restrito aos índios Karapanã (Ott 1994:16). À parte o uso como enteógeno, outras espécies do mesmo gênero têm uso cultural: na etnomedicina, a Banisteriopsis argyrophilla, usada para tratar “doenças de crianças” no Brasil; e na magia, a Banisteriopsis lucida, usada em encantações para atrair a pesca na Venezuela. Aquelas espécies usadas com o fito de alterar a consciência possuem todas alcalóides do tipo Beta-carbolinas.

O estudo fitoquímico da Banisteriopis caapi (Cipó Mariri) teve início no começo deste século, quando, em 1905, o farmacêutico Colombiano Rafael Zerda Bayon isolou, a partir de uma amostra de Yagé, um alcalóide por ele chamado de Telepatina, devido às propriedades supostamente telepáticas da bebida. Em 1924, H. Seil e E. Putt apresentaram trabalho dizendo terem encontrado três alcalóides em amostras de Banisteriopsis caapi (na época chamada Banisteria caapi). Em 1925, A. M. Barriga Villalba, químico colombiano, reportou a presença de dois alcalóides por ele chamados de Yajeína e Yajenina, também mencionados em trabalho do químico da Colômbia L. Albarracin, no mesmo ano. Em 1927, E. Perrot e Raymond-Hanet reportaram a equivalência entre a Telepatina e a Yajeína. No entanto, no ano seguinte, Louis Lewin descreve o alcalóide por ele chamado de Banisterina em amostras de Banisteriospsis caapi. Em 1928, a confusão começa a ser desfeita quando K. Rumpf e O. Wolfes demonstram a identidade dos alcalóides chamados Yajeína, Telepatina e Banisterina com a já conhecida Harmina.

Finalmente, em 1939, os químicos A.L. e K.K. Chen demonstraram definitivamente a identidade da Telepatina, Yajeína e Banisterina com o alcalóide já conhecido desde 1847, a partir do trabalho de J. Fritzche, como Harmina. Este último foi isolado pela primeira vez a partir das sementes do arbusto Peganum harmala, uma Zigophilliacea. Esta última planta é considerada por alguns autores como sendo a “sarça ardente” que teria provocado a visão de Moisés, e ainda como sendo o Soma dos hindus (Flattery e Schwartz 1989 citados em Ott 1993:202-204).

O principal efeito deste alcalóide é inibir a ação da Monoamina-oxidase (MAO), uma enzima que ocorre naturalmente no corpo humano, em vários tecidos como o fígado, cérebro, intestino, plasma sangüíneo, coração e garganta, e que tem por função inativar as monoaminas produzidas endogenamente, como a Serotonina, a Dopamina e a Norepinefrina, todas neurotransmissores (McKenna 1984:203-204).

Embora os alcalóides presentes na Banisteriopsis caapi sejam psicoativos sozinhos, em todas as amostras da bebida pronta até hoje testadas nunca se verificou a dose mínima (500 mg) necessária para tal (McKenna 1984:207, Ott 1994:41); devendo os efeitos da bebida serem antes creditados aos alcalóides das principais plantas aditivas: Diplopteris cabrerana e Psychotria viridis, notadamente a N,N-Dimethyltriptamina, cuja estrutura química é muito semelhante à Serotonina, o que caracteriza esse alcalóide como neurobloqueador, ativando os receptores da Serotonina e desencadeando os efeitos típicos da N,N-DMT.

Sabe-se que a N,N-Dimethyltriptamina é inativa oralmente devido à ação da MAO; sendo a Harmina e a Harmalina, bem como os outros alcalóides do tipo Beta-carbolinas, inibidores da MAO, é extremamente feliz a combinação desses alcalóides. De fato verificam-se que bastam 120 mg de Harmina para tornarem ativos oralmente 30 mg da N,N-DMT, suficientes para desencadear o efeito enteógeno destas substâncias. A média verificada em 16 diferentes amostras de uma dose típica da bebida preparada, 75 ml, é de 158 mg para a Harmina e 29 mg para a N,N-DMT (McKenna 1984:207, Ott 1994:40-41). Ressaltamos no entanto que a Banisteriopsis caapi é usada também sozinha em infusões frias, como enema, sendo ainda mascada, inalada e fumada (Ott 1994:17-19).

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