Ayahuasca, vinho da alma: Minha iniciação na Ayahuasca dos shipibos.

Ayahuasca, vinho da alma:

 Minha iniciação na Ayahuasca dos shipibos.

por Léo Artése (diário de Viagem Peru)

A Bebida Sacramental Ayahuasca, é fruto da decocção do cipó Banisteriopsis Caapi e a folha Psycotria Viridis. É também conhecida por Yagé, Caapi, Nixi Honi Xuma,Oasca,Vegetal, Santo Daime, etc.

Seu nome mais conhecido, AYAHUASCA é de origem quechua, que significa “Liana ´(Cipó) dos Espíritos ” . É chamada também de ” O Vinho da Alma ” ou “Pequena Morte”. Era utilizada pelos povos pré colombianos, incas, e muito utilizada pelos índios da amazônia. É o Sacramento dos rituais do Santo Daime, da União do Vegetal , da Barquinha.

Fui ao Perú em 1992 encontrar meu irmão espiritual , Agustin , para a realização de diversos trabalhos xamânicos. Nesta oportunidade Agustin apresentou-me o xamã Mateo Arevolo, um nativo da tribo Shipibo, homem de conhecimento na utilização da Ayahuasca. Minha passagem com Mateo muito lembrou a de Castañeda com Dom Juan.

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Mateo foi um grande professor. Nós ficamos juntos na mesma cabana, o que possibilitou muitas conversas e entendimentos. Mateo falava muito de seu povo na floresta e sobre a história da Ayahuasca, das curas, das experiências espirituais, e, de outras Plantas de Poder tais como o Pinhão Colorado, o Tabaco, o Toe ( Datura).

Para o início dos trabalhos, juntou-se a nós um grupo de norte-americanos, que também vinham em busca de experiências xamânicas. No primeiro trabalho realizado, houve uma reunião de instruções. O trabalho iniciou-se por volta das 22:00 hs.

Mateo veio paramentado com seu traje de poder, la pipa (cachimbo), perfumes e um litro de Ayahuasca (vinho das almas). Começou pedindo aos participantes para que cada um rezasse do jeito que sabia, para si mesmo. Na hora rezei o Pai Nosso e a Ave Maria, e me firmei no meu animal guardião.

Antes de servir Ayahuasca, Mateo cantou um Icaro (canção de poder), soprando a fumaça do tabaco no bocal da garrafa e deu início ao despacho .

A bebida estava bem concentrada, com a consistência de um mel.

Em poucos minutos já começava a sentir a manifestação. O Céu estava lindo, repleto de estrelas, era como se eu pudesse pegá- las com as mãos. A força da Ayahuasca, chamada entre os xamãs peruanos de La Mariacion, aumentava cada vez mais, já não podia sentir mais meu corpo, a respiração tornava-se difícil, senti a sensação de que meu crânio se despedaçaria como um quebra cabeças, até que Mateo chegou junto a mim e perguntou :

- Hey Léo ! Como está lá Mariacion ? E respondí :

- Muy fuerte, Xamã, pero és buena ! Mateo exclamou :

- Si fuerte, ufa, ufa, ufa !  E saiu sorrindo.

Naquele momento achei tão engraçado o gesto e o bom humor de Mateo, que comecei, discretamente a dar risadas, e ao parar, percebi que tinha me harmonizado com aquela força.

Se Mateo tentasse naquele momento me dar algum conselho, provavelmente, eu não sairia daquele estado de tensão. Ele mostrou sua sabedoria, usando apenas o bom humor. Fez com que eu relaxasse minhas couraças, trouxesse alegria para o meu ser, desencadeando outra química corporal. Levantando o meu astral. Daquele momento em diante eu entendi como sorrir é um grande remédio para nossa alma. A partir daí, uma visão magnífica:

Olhando para o Céu, uma bola dourada rasgava a escuridão, vindo em minha direção. Daí a figura de um enorme leão, com uma juba imensa que balançava para frente e para trás na velocidade do voo, chegando e parando na minha frente como se quisesse se apresentar.

Olhava para mim fixamente, eu não sentia medo, e sim deslumbramento . Mais tarde com Mateo , pude testar o entendimento da visão.

Ele me disse :

A Ayahuasca, vinho da alma,  abriu seu mundo. Seu mundo é dos leões.

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Você sabe o que está por trás de seu nome Léo ?

Léo é leão.

Você de agora em diante, deve passar a trabalhar mais com ele. A águia em muitas doutrinas xamânicas é considerada o Leão Alado.

Num momento do ritual, Mateo acendeu “la pipa” (cachimbo), e começou a cantar um ícaro. Nesse momento senti a necessidade de usar o cachimbo.

Após encerrar o canto, cheguei a ele :

– Hey xamã ! La pipa não pode ser compartilhada ? Ele respondeu :

– Escuta. La pipa faz parte do ritual. Ela é passada de xamã para xamã. Outros já usaram antes de mim. Para usá-la é preciso conhecer seus fundamentos. Se você quiser fumar use um cigarro qualquer.

A resposta caiu na minha cabeça como uma bomba. Sentia-me estupido. Pensei em explicar que também tinha um trabalho espiritual com o cachimbo, mas, preferi calar-me, lamentando não ter ficado de boca fechada. Simplesmente respondi :

– Desculpe-me eu não quis ofendê-lo ! Só estou aqui para aprender.

Passado uns 10 minutos. Mateo, volta a sentar-se ao meu lado e pergunta :

– Hey Léo ! Você tem uma pipa ? E respondi :

– Aqui não xamã. Você sabe como posso conseguir uma ? Exclamou Mateo :

– Depois, com tempo, eu vou ver !

Não toquei mais no assunto da pipa, deixando o pedido no astral. No terceiro trabalho de Ayahuasca nas matas de Puerto Maldonado, interior da Amazônia Peruana, Mateo veio até a mim e disse:

– Hey Léo ! Podes me fazer um favor ? Gostaria que você pegasse a pipa e soprasse fumaça em minha cabeça e no meu peito.

É um movimento ritual, que visa nivelar e harmonizar as energias do corpo. É preciso muita confiança para deixar alguém trabalhar na sua cabeça. Me senti recompensado pela paciência.

Outra passagem no meio de tantas, que quero destacar, foi num trabalho, onde em plena força da Ayahuasca, Mateo me falava de uma planta chamada Pinhão Colorado. Dizia ele que que o pinhão trazia La Purga, ou seja fazia muitos processos de limpeza (vômitos/diarreia) e que também levava a visões muito fortes. Foi nesse momento que Mateo chegou até a mim e disse :

– Léo. Se eu trouxer agora um copo de Pinhão colorado, você toma ?

A pegunta deixou-me arrepiado. Estava num momento muito forte do trabalho, para tomar uma planta que eu nem conhecia, já sabendo que as manifestações no corpo físico não eram muito agradáveis. Respirei fundo, fui até o meu coração, e respondi :

– Xamã ! Qualquer coisa que o sr. trouxer para eu tomar, eu tomo. Tomo porque confio no senhor e sei que estou em boas mãos. Sei que o sr. só quer o que é bom para mim !

Neste momento Mateo saiu, dando uma gostosa gargalhada. Eu fiquei numa expectativa por alguns momentos, porém ele não trouxe a bebida, e assim pude respirar aliviado.

Mateo e eu ficamos amigos. Tudo a partir dessa amizade ficou mais fácil. Eu o ajudava na limpeza (defumação), cantava canções de poder, tocava tambor, ajudava-o no atendimento aos outros e aprendia, aprendia, aprendia.

Mateo, então, iniciou-me na magia de seu povo. Trabalhou no meu corpo espiritual, passando-me uma “Arcana Medicinal”, um escudo de proteção para ser usado nos trabalhos. Passou um icaro na minha cabeça e no peito, para poder dosar melhor as energias da mariacion e disse:

– Eu te passo meu ícaro, para que quando tu estiveres com seu povo no Brasil, fazendo trabalhos com a Ayahuasca, tu vais escutar meu canto, e eu estarei contigo.

Ao despedir-se de Mateo no Peru, ele me deu um colar de proteção feito com sementes e uma garrafinha de um preparado com base de tabaco para proteger “La Corona” (chakra coronário).

O Canto da Ayahuasca (vinho da alma)

(Tradução do ìcaro passado por Mateo)

Para regulação e nivelação de energia

Meu formoso canto, Meu formoso canto

Emana sua energia até o Céu,
Até o mar ou rio
Até a Terra.

Meu formoso canto
Da energia da Ayahuasca
E da Chacrona

Emana sua energia para regular
E nivelar suas energias
De saúde e bem estar entre as mulheres
E homens desta mariação

Na Grande Mesa da Mariação
Da Ayahuasca
Saímos com o corpo, alma, espírito e mente
Livrando-nos da mariacão louca.

Chegando assim ao Mundo Maravilhoso de Deus
Onde há e emanam as fragrâncias
Das flores maravilhosas do Universo

Que ao impregnarem-se em um,
Dá-nos as energias de conhecimento
E saber,
Abrindo-nos as portas
Do mundo medicinal da Ayahuasca
Onde tudo é felicidade, paz e amor.

Dois anos após, quando Mateo veio ao Brasil, deu-me uma pipa incrustada com a medicina shipibo. Até hoje sinto-me muito ligado ao Mateo e Agustin, mesmo estando longe fisicamente, nas “mariacions” sinto-os presentes.

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