Entrevistas – Pai Jamil Rachid

No início dos anos 70, quando eu tinha 16 anos, conheci o Pai Jamil Rachid. Na época acompanhava meu pai, o médium de Umbanda Léo A. Artése, meu padrinho Cidão de Xangô e meu tio, o cambono Wanderlei Botossi;  nas gravações do primeiro programa de Umbanda da TV Brasileira: Umbanda no Universo  TV Gazeta. Trinta e cinco anos após, aproveitando o ano que será celebrado o Centenário da Umbanda fui com Cidão de Xangô e Fany até a União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, (fundada em 1955) na Rua Alves Guimarães, 940  Pinheiros  São Paulo para entrevistar Pai Jamil. O tempo passou, mas o carisma  a simpatia, os velhos olhos azuis e o axé ainda estão lá. Léo Artese

Entrevista de 2018

*Jamil Rachid ou Jamil de Omolu, industrial brasileiro, cresceu em família Ortodoxa, pois sua mãe era da Igreja Maior Ortodoxa Maronita, médium de incorporação na Umbanda desde 1948, por motivo de saúde foi iniciado no Candomblé por Tata Fomotinho em 1959.*

Pai Jamil é presidente da União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil e representante mundial da Umbanda, representou a Umbanda e as religiões afro-brasileiras na Conferência de Cúpula da Paz Mundial para o Milênio, realizada em 28 de agosto de 2000, na sede da ONU, em Nova Iorque.

Leo – Como o sr. começou? Quando percebeu, que tinha esse dom?

PJ : É muito difícil explicar numa entrevista, pois agora em 2.008 estão fazendo 58 anos. Nós iniciamos lá na Ponte Rasa em São Miguel Paulista, construímos um prédio e depois  deixei o Edécio, meu irmão de Santo tomando conta, passei para ele continuar a missão e depois , e depois  fui para a Teodoro Sampaio em Pinheiros.

E lá  na Teodoro 714,  fui crescendo, aumentava o número de pessoas, quando passei a assumir a presidência da União de Tendas de Umbanda do Estado de São Paulo.

Depois, devido a morte do Dr. Luis Moura Acioli, assumiu a sua esposa  Dna. Ermelinda, que estava muito doente e a me disse:

– Olha Jamil, o único que está com uma organização na mão é você, então nós vamos lhe passar o Brasil.

Assim, em 1957, assumi a presidência da União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, abrangendo todo o país,  com vários filiados no Brasil. Continuamos crescendo, e cumprindo o compromisso  de continuar a Festa de São Jorge. Fizemos para a São Jorge a promessa de levar o povo acompanhando o Grande Guerreiro por 50 anos. E, no ano passado,  eu cumpri a promessa de 50 anos feita à São Jorge.  Levamos 15.000 pessoas no  Ibirapuera com cavalaria, batedores, corpo de bombeiros, da forma que prometemos à São Jorge. Uma festa internacional. Nós temos sede na Argentina, Uruguai, Paraguai. Em Portugal nós temos 5 templos de Umbanda, e veio uma comissão muito grande de médiuns portugueses. Então nós encerramos essa festividade no ano passado com muito êxito e 50 anos de trabalho.

Leo – Na época em que o sr. começou existia muito preconceito com relação a Umbanda e Candomblé. Éramos chamados de  macumbeiros. Como era e como está hoje?

PJ: Você tem razão houve muito preconceito! Bom…hoje o governo federal, estadual e municipal está dentro da religião. A Umbanda é uma religião, não é mais uma seita ou culto. Depois que estivemos na ONU em 2.000 , com uma semana de reunião com 1250 dirigentes espirituais sob responsabilidade do indiano Abda Ajin, onde reuniu  religiosos do Ocidente e Oriente, tivemos a oportunidade de transformar a Umbanda de culto para religião.

Participamos de muitos congressos, simpósios em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas gerais, Rio grande do Sul. Hoje a Umbanda, graças à Deus, está muito bem orientada, os alicerces muito bem feitos. O que sentimos hoje é a necessidade de trabalharmos mais a Umbanda no sentido político, ou seja, termos mais vereadores, deputados, senadores umbandistas, assim como tem o Rio de Janeiro, para que o governo olhe mais para a Umbanda, pois a umbanda atualmente é uma religião muito grande.

A Umbanda é uma religião que cresce muito no povo, veja como certos evangélicos nos atacam e ficam querendo pegar nossos adeptos. É porque ela cresce muito mesmo. Umbanda é povo, é que nem o Corinthians. (risos)

Vamos continuar nossos congressos e espero que a Umbanda cresce a cada dia mais, pois o alicerce nos já fizemos. Agora é só concluir a construção.

Em 1961 criamos uma cúpula, inaugurada pelo general Nelson Braga Moreira que foi o nosso presidente. Naquele tempo nós tínhamos 14 federações. Era uma Cúpula formada por presidentes de federações de Umbanda e Candomblé. Atualmente está o Tenente Milton Aguirre, nosso amigo, como presidente. Então veja que foi um trabalho muito grande desde 1950.

Esse é o nosso trabalho Léo, que você conheceu quando ainda era pequeno lembra?  Quando nós levamos ao ar o programa Umbanda no universo, pela TV Gazeta, depois Mensageiros de Aruanda,  foram bons esses programas. E assim nós fomos trabalhando, levando o conhecimento mediúnico que é importante, fizemos o governo federal ver que a Umbanda é uma porta aberta à caridade. Não tem fila, não tem emprego, não paga nada, é gratuita para o povo. É um atendimento espiritual. Fizemos o governo federal ver essa parte.

Atualmente, quando se fala de Umbanda no governo ele já conhece. Está entendendo? Tanto o governo federal, estadual, municipal, já conhece.  Isso é nossa luta! Agora, são tantas coisas para falar….

Por exemplo a Argentina no inicio recebeu muito mal a Umbanda. Fizemos lá o congresso: A Umbanda e suas Raízes,  num dos melhores hotéis de Buenos Aires. Olha…nessa semana do Congresso  o próprio governo argentino reconheceu a Umbanda como religião, que era combatida até pela televisão.

Eu fui convidado como presidente de honra do Congresso e levamos representantes de vários estados brasileiros. Foi um sucesso. No Uruguai a mesma coisa. Antes os militares haviam fechado 3 ou 4 centros. Ligaram aqui para São Paulo, pedindo ajuda, e nós formamos uma comissão e fomos até lá. Partimos pra cima do comandante militar, e nem mesmo ele sabia que os soldados tinham invadido os terreiros de lá.  Pediram desculpas e realizamos lá um simpósio. Os militares é que estavam tomando conta do país, como era aqui no Brasil naquela época. Nós não podíamos fazer assim abertamente a reunião, então fizemos nossa reunião lá num templo.

No Paraguai, um país com uma  população bem menor do que o Estádio de São Paulo,  fomos lá e organizamos direitinho, deixamos uma pessoa trabalhando,  e levamos o ritual de caridade da Umbanda. Levamos para lá o ritual sem esse negócio de cachaça, de bebida alcoólica. Levamos a Umbanda Pura. O pessoal trabalhando direitinho… está entendendo? Os médiuns todos vestidos de branco, defumação, incenso para abrir o local, e tudo ficou funcionando perfeitamente.

Acredito que fizemos um trabalho muito bom na América do Sul. E em Portugal eles estão seguindo o nosso ritual. Temos terreiros até na Ilha da Madeira. Então, a umbanda é Universal.

O que é Umbanda?  Uma religião!  Não tem muito que responder.  Se você é médium,  nem precisa de muitos instrumentos, de templos, é  só de você colocar a mão que pode curar uma pessoa. Nem tem as vezes necessidade de fazer uma corrente para chamar o guia, basta você colocar a mão que a mediunidade transmite.

Há muitos anos promovemos aulas para os chefes de terreiros, para os pais e mães espirituais e isso deu muita ajuda. Consagramos o casamento, o batismo, rituais fúnebres…tudo na umbanda.  Só a consagração do casamento nós levamos 15 anos estudando. Hoje, Graças a Deus é oficial.  É uma síntese dos trabalhos que temos feitos.

Leo – E a origem da palavra Umbanda ?

PJ: Vem do dialeto quimbundo. Umbanda é a arte de curar. Quimbanda: arte dos trabalhos de magia-negra.

Antigamente, Omoloco (prática do ritual dos negros escravizados), trouxe da África um ritual que permitia, a incorporação de espíritos desencarnados.  Mas Omoloco que trouxe a palavra e a origem da Umbanda para o Brasil. Agora, queira ou não, a Umbanda é uma religião brasileira. Porque a filosofia da Umbanda é nossa, são os pretos velhos que viveram e morreram aqui, os nossos caboclos, nossos pajés,

Leo – A Umbanda é cristã!

PJ:  Claro ! A Umbanda é cristã. Nós adoramos Cristo. É o nosso maior Mestre. Cristo nos deu o maior exemplo, como Oxaguiã.  Ele foi e é o primeiro médium curador que apareceu neste planeta. É importante é frisar que a Umbanda nasceu aqui.  Uma religião brasileira. Por isso na Argentina, Paraguai, Uruguai, quando eles cantam os hinos de Umbanda, eles o fazem em português.

Leo – O sr. também é presidente dos cultos de Candomblé. Mas a sua linha principal é a Umbanda?

PJ: Eu nasci na Umbanda, mas tenho 48 anos de axé no Candomblé também. Deixei uma família grande em Teixeira de São Felix.  Até  hoje  a casas ainda está lá. São africanos legítimos que vieram.

Leo – Agora.. já o Candomblé não conseguiu se firmar ainda como religião.

PJ: É que o candomblé é de origem africana. Mas não deixa de ser uma religião. E assim como todos os cultos afros: Gege, Gege Marim, Congo, Angola… Eles pertencem a países africanos e por isso são cantados em africano em ketu, ijexá. Eu estudei nesses países africanos. Estudei no Egito, nas pirâmides, lá no Cairo. Estudei muito, minha família, meus tios são todos do Líbano, estudei muito para hoje poder dar aula.

Hoje temos uma faculdade de teologia umbandista, é a primeira faculdade de Umbanda do Brasil, reconhecida pelo MEC. Presidida pelo nosso irmão Ribas. É uma maravilha. Damos aula lá hoje.  A Umbanda tem se desenvolvido muito. Valeu a pena nossa luta.

Leo -Como se processa o desenvolvimento mediúnico na umbanda?

PJ: Basta ter mediunidade que vamos aperfeiçoando o médium. As vezes a pessoa tem a mediunidade, mas não é um médium perfeito. Nós é que vamos trabalhar ele. Com os banhos de ervas, vamos preparando o seu desenvolvimento, deixando a entidade incorporar bem. Ele tem que apreender as obrigações, os compromissos.  O mais importante é ele continuar as obrigações.  É a busca da perfeição. O desenvolvimento do médium está na busca da perfeição.

Leo – Um médium evoluído é também aquele que sabe controlar o momento de incorporar ou não?

PJ: Não precisa! Basta o médium estar bem preparado que a entidade é quem dirige tudo na harmonia.  Ele pode controlar a hora da incorporação dele. A hora que ele acha que o guia está chegando, solta o corpo para a entidade entrar.

Leo – Então ele pode controlar a entrada do guia. Não é?

PJ: A entrada do guia pode, mas depois que o guia entra é o guia quem toma conta. Aí o aparelho não manda mais. É o chefe que manda.

Leo – Existem atuações agressivas, aparentemente descontroladas, que causam desarmonia!

PJ: Certo!  Isso geralmente acontece quando o médium está em fase de preparação. Na fase de preparação o médium sofre muito. São evoluções. Ele tem que preparar o perespírito para que a vibração do guia possa comandar o seu corpo. Só através da perfeição, da evolução e da preparação.

Leo – E daí ele aprende a aparelhar serenamente. Não é?

PJ: Claro, claro. Por isso cada Templo de Umbanda tem que saber instruir muito bem os médiuns. Nós já fazemos isso há muitos anos, tem que saber preparar os médiuns.

Leo – O sr poderia falar algo sobre as linhas de Umbanda para os leitores do Portal do Xamanismo?

PJ: Oxalá, Ogum, Xangô, Oxossi, Yemanjá, Omolu, Almas…tem ainda as legiões. Ogum tem 7 legiões, Ogum Rompe Mato, Ogum de Naruê, Ogum de Malê, Ogum Beira-Mar…. São legiões que trabalham na cura nos terreiros….

Na verdade as linhas são infinitas. Veja por exemplo a linha dos ciganos. Uma linha que entrou na Umbanda e hoje tem terreiros de ciganos lindos. Nós, lá no Vale dos Orixás em Juquitiba, recebemos em outubro uma federação que faz a Festa dos Ciganos. A coisa mais linda!  A Umbanda é uma religião universal. Não se pode falar mais nada.

Incorporam-se entidades da linha do oriente, linha dos Baianos, Pretos velhos.. Até dos índios americanos, os Apaches por exemplo. Quer dizer … é universal!

É assim meu irmão, hoje estamos rapidamente dando um toque, mas a Umbanda é muito profunda.

Leo – Há também uma diferença no sincretismo dos Orixás, na Bahia e no Rio de Janeiro. Não é?

PJ: Não é que há diferenças! No tempo da escravidão, na senzala, os escravos tinham habilidades de escultores, eles esculpiam, por exemplo, uma imagem de Santo Antônio, mas colocavam os ariaxés deles. A noite eles ficavam cantando e dançando e daí os chefes das fazendas mandavam os capatazes verem o que estava acontecendo e eles respondiam:

– Eles estão com a imagem de Santo Antonio cantando e dançando,

Então, Ogum na Bahia é sincretizado como Santo Antonio e para nós é São Jorge. Mas naquela época eles tinham que fazer alguma coisa diferente para poder cultuar os Orixás deles de acordo com o dono da fazenda.  Isso faz da Umbanda uma riqueza.

Na verdade a Umbanda usa o nome dos orixás africanos em homenagem a eles, porque foram eles que trouxeram os ariaxés para o Brasil, mas os Santos são nossos.

O Brasil é a terra mais sagrada que tem no mundo. Igual ao Brasil não existe.

Leo – A concepção de Exú na umbanda é bem deferente da do candomblé!

PJ: Atualmente até Exu opera as pessoas!

Mas de fato…é diferente! No Candomblé o Exu é considerado um Orixá Quequerê, um pequeno orixá que é mensageiro de cada santo. Que não incorpora em médium nenhum.

Na Umbanda não, ele é a linha de frente em casos que é ele que resolve. Ele é o policial da Terra. Ele que prende aquele espírito sofredor, os quiumba, e leva pra São Miguel Arcanjo.

Aliás, tenho que dizer que esta é uma época difícil, a quaresma.  É na quaresma que São Miguel solta todos esses espíritos para evoluir. Pode ver que nessa época é período de bastante perturbação. As moças que caem no serviço, na vida, e a gente vê  espíritos que têm que trabalhar para evoluir, ai temos que preparar essa pessoa. É na quaresma que São Miguel solta todos esses espíritos para evolução.

Leo – Pai Jamil, dentro dessa linha que o sr. explorou, gostaria que o senhor falasse um pouco da entidade: Tranca Ruas.

PJ: Olha… (gargalhadas)

Tranca Ruas é uma grande entidade de Luz, que tornou-se uma legião grande.  Você entendeu? É uma falange muito grande. Não tem um Exu Tranca Ruas, tem uma falange de exus… mas com luz. Eles vêm para resolver os problemas contra inimigos, contra desastres, de espíritos que estão perturbando. Ele é o Exu da Umbanda!  O Sr. Tranca Ruas tem o Sr. Tiriri, Veludo…Mas não tem nada a ver com o Candomblé que é o Exu das Almas.

—++++ E tem cuidados especiais para tratá-lo?

*PJ:* A responsabilidade está dentro de cada pessoa, pois não se coloca Exu pra dentro de casa. Exu é bom pro terreiro. Agora se vai precisar dele vai no terreiro, leva a vela e acende lá. E deixe-o lá.  Tem a morada dele! A tronqueira (porta) é dele. E para pedir numa hora de uma aflição, na hora de perigo ou qualquer coisa, chama ele nos assaltos por exemplo. A gente se pega com Exu para ele nos livrar dessas horas.

Cidão de Xangô: Ele cuida da gente 90% os outros 10% a gente mesmo é quem ter que cuidar.

PJ: É isso ai !

Leo – Agora a pessoa que cuida dele tem que saber o que está fazendo. Não é Pai Jamil?

PJ: Tem que saber! Tem que saber acender no dia certo dele uma velinha, uma bebida pra ele. Tá entendendo?

Também não vamos ser muito fanático com Exu.  Está entendendo?

Nos cultos africanos, Exu tem a casa dele e basta. Tem o dia certo dele pra cuidar. Exu de Ogum é um dia , Exu de Xangô é outro dia. Então tem o dia certo. E vai lá faz os padês (farofa) dele e oferece tudo direitinho.

Então esse negócio de Exu é muito complicado. A gente mesmo não tem a ideia de, até que ponto, chega a legião do Exu, a não ser o esquema de trabalho, pois a coisa é grande.

Leo – O Exu também é evocado para o mal?

PJ: O Exu não se  interessa fazer mal à ninguém porque ele tem luz.  Agora na quimbanda é diferente.

Leo – Podemos dizer que mexer com Exu não é para quem está começando?

*PJ:* É verdade!  Na Bahia, em casa antiga de santo, não se fala de santo assim à toa. Não se fala de Exu para qualquer coisa… Ah Exu…não, não…tudo fechado. Tudo é a base de segredo. Não adianta que ninguém entra no roncó. Não vai saber nada de ariaxé de santo. O negócio é sempre procurar andar direito.

Leo – Para lidar com uma entidade como essa é preciso primeiro passar por uma preparação?

PJ: Claro…claro, a começar com uma preparação de 21 dias recolhido. Trinta dias de quelê (iniciação), três meses de quelê, depois 1 ano, 3 anos e depois de sete anos tem a emancipação . É complicado!

Leo – Para quem não passa por tudo isso, qual é a sua recomendação?

PJ: Não é recomendação ! É preciso ver o grau da pessoa que está lidando com ele. Se ele tem conhecimento ou se é curioso. Tem muitas pessoas curiosas que querem que Exu faça isso, que Exu faça aquilo, uns querem até machucar seu vizinho,…Exu não faz…ele tem luz. Ele como espírito de luz não quer prejudicar ninguém.

Fany: Por exemplo as vezes as pessoas estão passando mal e dizem que é por causa do Tranca Ruas, algo difícil ou inesperado acontece eles acham que é o Tranca Ruas…

PJ: Essa concepção que você está falando é de pessoas que não entendem. As pessoas precisam entender que o Exu tem Luz.  Ele é a policia da Terra. Nós temos milhares de terreiros de umbanda em todo o território nacional, estou tirando os de candomblé fora, não existe uma casa que não tenha a tronqueira do Exu.

Leo – Fica na parte de fora do Templo!

PJ: É! E quando são seis horas, antes de começar os trabalhos, ele recebe a vela dele,  a bebida, recebe o padê para tomar conta.  Enquanto os caboclos e pretos velhos praticam a caridade, eles se incubem dos espíritos obsessores. Ele tranca a rua. E tranca mesmo…não se pode brincar com ele.. São pessoas que não entendem. Você está entendendo?  Hoje você falar em Orixá, falar em Egun, que é espírito desencarnado é preciso saber. O caboclo é egun, o preto velho é egun, que são espíritos de luz.  Para dirigir uma casa é preciso entender.  Há 50 anos nós fazemos reuniões de desenvolvimento espiritual somente para presidentes de centros. Não entram médiuns nesse dia.  Eles tem aulas de magia, aula das erva, como preparar um amaci, etc.

Leo – São cursos abertos?

PJ: Não, somente para os nossos filiados.

Leo – Qualquer pessoa pode se filiar a União?

PJ: Não! Tem que ter mediunidade. Temos que conhecer o grupo que vai iniciar o centro, vamos vendo bem quem é o responsável pela parte espiritual do centro. Aí sim nós fazemos a reunião do conselho e vamos autorizar o departamento jurídico para preparar os estatutos para que ele seja filiado.

Leo – Os Pretos-Velhos tem relação com Exu?

PJ: Tem. Eles tem muita força e sofreram muito. Houve uma época em que esses espíritos passaram por uma evolução muito grande.  Nos centros de Umbanda sempre tem um Preto velho que dirige a casa. Aqui na nossa é o Pai Benedito.

O templo estava fechado por todo esse tempo (final de dezembro a 7 de março ) Estávamos no Vale dos Orixás e fizemos um amaci para 1800 médiuns. Fizemos o ritual embaixo de um temporal e a abertura do ano.

Mas é assim meu irmão, é muito complexo. Precisamos saber se o médium tem uma missão a cumprir. As pessoas falam : Ah eu quero ser médium! Como que eu faço? Eu respondo: Não é comigo que você tem que falar! Eu sou o que menos posso falar sobre isso. Você tem que vir aqui e fazer um teste.

Se tem mediunidade é claro que a entidade dá sinal que ele pode incorporar. Ele não é médium, mas pode incorporar. Aí sim levamos para a preparação para ser médium, banhos de ervas, passa por umas aulas específicas para médiuns iniciantes e assim vamos aperfeiçoando e conhecendo.

Nós não vamos pegar médium que tem crimes nas costas. Ué!!! Que mediunidade é essa? O médium geralmente traz um karma bem leve!Está entendendo? Então ai é que nós vamos explorando e aperfeiçoando, porque sem perfeição, não adianta ser preparado.

Temos muitos médiuns antigos na casa, 30 anos, 40 anos de casa.  Existem vários tipos de mediunidade, clarividência, vidência, intuitiva…então, se a pessoa tem mediunidade para desenvolver não se incomode que a entidade traz.

Leo – O sr,. mesmo que faz os testes de mediunidade aqui Pai Jamil?

PJ: Temos a terceira terça-feira e sexta feira do mês só para médiuns e para pessoas de fora para fazerem o teste.  Nessas épocas não há trabalhos normais, só para médiuns e para os testes.

Leo -No que consiste esse teste?

PJ: Deixamos o médium sobre a influência da entidade e vamos acompanhando. Apenas vamos fazendo a imantação do médium. Depois separamos os médiuns para encaminhar para a iniciação.

Leo – Como o sr. vê num momento que se fala dos direitos dos animais, os sacrifícios?

PJ: Nos cultos afros, todos utilizam sacrifícios. São animais que em todos os lugares são vendidos.  Para o candomblé é sagrado. Tem uma preparação do animal com todo o respeito. A pessoa que vai sacrificar (Ogã) tem que ter pelo menos 14 anos de preparação.  Para a força dos ariaxés usa-se o sacrifício.é muito complicado isso.  Mas isso é só no candomblé.

Na Umbanda não fazemos sacrifícios.

Leo – E sobre os despachos nas ruas, praças, praias? Como, por exemplo, jogar garrafas de champagne e vela nas praias e etc? Além de não serem observados cuidados com o meio ambiente, muitas despachos com  frangos, etc, chocam crianças que não fazem parte da religião. Como o senhor vê isso?

PJ: Você sabe que hoje até que melhorou. Antigamente a sujeirada era demais. Nós temos instruído o pessoal de acordo com os cuidados do meio ambiente . Em Santos nos tivemos agora no segundo domingo de dezembro a Festa de Yemanjá. Levamos 30 mil pessoas. A União de Tendas se organiza todos os anos. Levamos médicos, temos o nosso próprio consultório para atender emergências e nos casos mais graves temos ambulâncias à disposição. O que mais atendemos ali é queda de pressão!

Antigamente deixava-se muitas garrafas na praias, hoje você não vê mais. (nos centros da união). Porque você não vê mais? Porque nós orientamos : Use o líquido, mas guarde a garrafa. Traga a garrafa, pois ela pode provocar acidentes, ferimentos, poluição, etc. Você também não vê isso mais em praças, nas encruzilhadas de ruas. Agora as vezes vimos nessas encruzilhadas de terra, uma farofa vela, caixa de fósforo…mas está melhorando.

Agora a nossa orientação é de cuidar do meio ambiente. Hoje é outra coisa.

Leo – Temos tido a notícia de grupos religiosos que por intolerância, invadem templos, criticam severamente a Umbanda em seus rituais. Como anda a situação, e o que o movimento está fazendo para garantir seu direito de liberdade religiosa.

PJ: O que soube é que o Bispo X (líder de uma grande Congregação de Igrejas neo-pentecostais) teve que pagar uma alta indenização para uma mãe-de-santo que foi ofendida por ele.  De uma forma geral os evangélicos atacam a Umbanda porque nós temos o povo.  Têm católicos que vão à missa e depois vão para os terreiros, tomar seus passes.  Tem terreiros em São Paulo que você não entra de tanta gente que tem lá. A umbanda é povo.

Há anos  tivemos um problema no Rio de Janeiro quando esse bispo, mandou seus pastores atacarem terreiros que tinham mulheres na presidência. Aí fizemos um simpósio aqui, reunimos todas as federações, e saímos daqui para Brasília com o ministro da Justiça.  Explicamos para o ministro que os templos de umbanda estavam sendo invadidos por grupos evangélicos, principalmente onde mulheres dirigiam. O ministro pegou o telefone e ligou para o Rio de Janeiro para a policia federal. E à partir daí a coisa foi melhorando.

Esse bispo é famoso, mas a turma não o conhece. Ele frequentava Umbanda e Candomblé, e se encontrou com um dos maiores comerciantes aqui de Pinheiros, o Zé Fogueteiro, e falou: Ah! Vocês da Umbanda não ganham dinheiro, não entra dinheiro. Eu vou abrir uma religião para ganhar dinheiro. E abriu !  Na Praça Mauá ele pegou um lugar que vendia caixões de defunto, esvaziou um dos salões e começou ali.

Uma vez ele foi preso aqui em Pinheiros, porque estavam invadindo os terreiros por aqui. Nós acabamos com ele. Depois ligou para gente para ir até lá, dizendo que a coisa  não era bem assim. E tem muitos processos que estão em cima dele que vai responder agora, já estão nas mãos dos juízes.

Tudo o que ele falou da Umbanda agora irá gastar um dinheirão por nos ofender.  Tanto que ele parou porque viu que a pressão começou a aumentar.

Nosso departamento jurídico aqui da casa prendeu um pastor porque ele soltou rapazes em Santos, vestidos de branco, na festa de Yemanjá, distribuindo um panfletos falando horrores de Yemanjá. Dava vontade de pegar eles e afogá-los no mar.  Isso já faz 4 anos. Ai um dos diretores, disse: Pai Jamil corre lá que tem uns rapazes vestidos de branco distribuindo panfletos, falando coisas de Yemanjá.  Imediatamente fizemos um cerco pegamos esses rapazes, pegamos uma policia móvel que estava na praia, fizemos um BO, levamos para a delegacia, e fomos atrás do pastor e o acionamos. Acabou!  Nunca mais eles nos amolaram.  O pastor foi multado e obrigado a dar não sei quantas cestas básicas .

A questão é que eles querem massa, onde tem massa de pessoas, eles vão lá  para fazer a cabeça das pessoas, usando o nome de Jesus. A base da caridade da Umbanda está baseada em Cristo, que pé o nosso grande Mentor.

Então sinto que essas religiões são uma doença. Eu conheço todos eles. Já fui em algumas reuniões de outras igrejas , budistas, católicas, etc. e nunca aconteceu nada.  Todas as nossas reuniões ecumênicas são uma maravilha.  Mas você pega por ai cada um…ai Meu Deus do Céu…é doença mesmo.

Eles recebem uma lavagem cerebral, mas se eles encostarem perto de nós da Umbanda a doenças passa pra eles.  Eles se dizem filhos de Deus e que nós não somos. É um povo que não tem instrução espiritual nenhuma. É fácil de fazer lavagem cerebral neles.

Na festa de 50 anos de São Jorge no Ibirapuera. (eu sou muito conhecido de todos por lá…são muitos anos), me veio a seguinte notícia.:

O Jamil você não acredita que um grupo evangélicos fez antes aqui. Eles pegavam a Bíblia e batiam com ela na cabeça de pessoas que estavam em cadeira de roda pedindo para elas levantarem.

E eu perguntei:

Mas levantou alguém?

Ele respondeu:

Que nada, o pior é que machucavam as pessoas.

O fanatismo é tão grande que os pastores querem fazer aquilo que só Cristo fez. Isso foi um dos diretores do Ibirapuera que me contou.

Um dos motivos que essas religiões cresce é que no discursos desse pastor, ouvem o seguinte :
Se você der R$ 1.000,00 para cristo ele te devolve 2.000,00.  Falou isso na televisão!  Isso te entra na cabeça?  Você dá 1000,00 para a Igreja e Cristo de devolve 2.000? Entra na sua cabeça?

Nessa proporção quem pode dar 10.000 espera ganhar 20.0000. Pra que fazer investimentos, jogar na loteria? (risos)

Leo – Como se faz um bom amaci? Quais são as ervas?

PJ: Ele quer saber?(risos) Eu levo 50 anos para aprender e ele quer que eu ensine agora? (gargalhadas)

Ah, nós temos rituais sagrados . São várias ervas de acordo com o dia…a colônia por exemplo. São colhidas antes das 6 da tarde, são rezadas, água de mina…tem muito fundamento.  Quando eu for fazer aqui vou lhe chamar Léo.  Para fazermos juntos, mas sem tirar fotografia e sem gravar. (risos)

Leo – Aceito o convite!

Dê uma mensagem final para o povo do xamanismo.

PJ: Vocês nossos irmãos de batalha, do xamanismo, espero que Deus dê uma oportunidade de lhes fazer uma visita. Não entendo muito, mas gostaria de trocar umas idéias. Um abraços à todos e que os Orixás dêem muito axé, para vocês e para toda a família, pois o mais importante hoje é a família.

Leo – Muito obrigado Pai Jamil! Saravá Umbanda!

*A União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, dirigida pelo Pai Jamil Rachid, fica na rua Alves Guimarães, 940 – Pinheiros – cep 05410-001 – São paulo – Brasil (próximo à Estação Sumaré do Metrô)*

fones : (11) 3085-0738 / 3064-1446 / 3062-7450
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AXÉ !

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