Mircea Eliade

Desde o início do século, os etnólogos se habituaram a utilizar como sinônimos os termos xamã, medicine man, feiticeiro e mago para designar certos indivíduos dotados de prestígio mágico-religioso encontrados em todas as sociedades primitivas. Por extensão, aplicou-se a mesma terminologia ao estudo da história religiosa dos povos civilizados e falou-se, por exemplo, em xamanismo indiano, iraniano, germânico, chinês e até babilônico para referir-se aos elementos “primitivos” encontrados nas respectivas religiões. Por várias vezes, tal confusão só pode prejudicar a compreensão do fenômeno xamânico em si. Se por “xamã” se entender qualquer mago, feiticeiro, medicine man ou extático encontrado ao longo da história das religiões e da etnologia religiosa, chegar-se-á a uma noção ao mesmo tempo complexa e imprecisa, cuja utilidade é difícil de perceber, visto já dispormos dos termos “mago” e “feiticeiro” para exprimir noções tão díspares quanto aproximativas, como as de magia ou mística primitiva.

Consideramos útil limitar o uso de vocábulos “xamã” e “xamanismo”, justamente para evitar equívocos e enxergar com maior clareza a própria história da magia e da feitiçaria. Pois – é preciso deixar claro – o xamã é, ele também, um mago e um medicine man: a ele se atribui a competência de curar, como aos médicos, assim como o de operar milagres extraordinários, como ocorre com todos os magos, primitivos e modernos. Mas, além disso, ele é um psicopompo e pode ainda ser sacerdote, místico e poeta. Na massa indiferenciada e “confusionista” da vida mágico-religiosa das sociedades arcaicas considerada em seu conjunto, o xamanismo – tomado em seu sentido estrito e preciso – já apresenta uma estrutura própria e revela uma “história” que é da maior utilidade esclarecer.

O xamanismo stricto sensu é, por excelência, um fenômeno religioso siberiano e centro-asiático. A palavra chegou até nós atravérs do russo, do tungue ‘saman’. O xamã é sempre uma figura dominante, pois, onde a experiência extática é considerada a experiência religiosa por excelência, é o xamã, o grande mestre do êxtase. Uma primeira definição desse fenômeno complexo, e possivelmente a menos arriscada, será: xamanismo = técnica do êxtase.

Se tomarmos o cuidado de diferenciar o xamã de outros magos, o xamanismo aponta para uma “especialidade mágica” específica: o “domínio do fogo”, o vôo mágico, o especialista em um transe quando a alma deixa o corpo para realizar ascensões celestes ou descensões infernais. Distinção do mesmo gênero se faz necessária para especificar a relação do xamã com os seres “espíritos” (espíritos da natureza, mortos, animais, etc.).

Teremos a oportunidade de encontrar o xamanismo no interior de um número considerável de religiões, pois ele é sempre uma técnica do êxtase à disposição de certa elite e constitui de algum modo a mística da religião em questão.

O xamã é o grande especialista da alma humana, pois conhece a sua forma e o seu destino. É sempre útil lembrar, quando se estuda o xamanismo, que este contempla certo número de elementos religiosos particulares e até “privados” e que, simultaneamente, está longe de esgotar a totalidade da vida religiosa do restante da comunidade. O xamã inicia sua nova vida, a verdadeira, com uma “separação”, com uma crise espiritual que certamente não está desprovida de grandeza trágica nem de beleza.

O xamanismo é precisamente uma das técnicas arcaicas do êxtase, ao mesmo tempo mística, magia e religião, no sentido amplo do termo.

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