Terapia xamânica e fator de autocura

Terapia xamânica e fator de autocura

Carminha Levy

Trabalho apresentado no II Congresso de Terapias Alternativas, e que consta nos Anais do referido Congresso. Data: 01 a 04 de Setembro de 1988 – São Paulo – SP

Do paleolítico datam as primeiras manifestações do Xamanismo. As pinturas rupestres (rituais de caça e de cura) nos atestam esta presença. Fenômeno universal, dominou a Ásia Central e Setentrional e as regiões árticas. Hoje é mais atuante nas Américas e na África.

O MITO – miticamente nos primórdios da Humanidade, os homens encontravam-se num caos, tanto exterior como interior, dizimados pelo “demônios da doença”, da fome e da morte. No seu desamparo, pediram ajuda ao Ser Supremo. A águia é enviada por Ele. Inicialmente rejeitada – era apenas um pássaro – volta investida de um poder supremo que teria de ser dado ao primeiro Ser que encontrasse. Este é uma bela mulher com quem copula, gerando assim o primeiro xamã – filho do Conhecimento e de uma Energia Feminina – indicação de que a cura e a proteção devem vír do próprio ser humano e de sua capacidade de ampliar a consciência. Trabalho do instintual (nossa condição de animal humano) e da consciência egóica.

O FATO – Arquétipo Vivo, o xamã pode ser pesquisado nas figuras dos nossos curandeiros e pajés, ou através do brilhante trabalho de Mírcea Elíade “Xamanismo – Técnicas Arcaicas de Êxtases”, entre outros. Atualmente Michael Harner, antropólogo americano, vem se dedicando à difusão das técnicas xamânicas de cura, por meio de workshops, nos quais ele realiza a passagem do mundo xamânico para uma linguagem acessível ao homem dito civilizado. O xamã surge na tribo como um Ser diferenciado que, ao manifestar comportamentos bizarros, declara sua condição de “iniciado”. A vocação mística se manifesta por um isolamento do clã, por falar sozinho, ter visões e adoecer. É a doença iniciática a qual o xamã mede a precariedade da alma humana. Em êxtase, entra nu, “coma iniciático”, e é levado para a caverna dos xamãs ancestrais onde sua cabeça é retirada do corpo e os seus olhos lavados, para que possa “ver” sua própria morte, desmembramento e renascimento. Seu esqueleto é desmontado, sua carne é cortada em pedaços e jogada nos quatro cantos do mundo para ser comida pelo “demônio da doença” – o que lhe outorga posteriormente, o poder de conhecer todas as doenças e sua cura. Seu corpo é refeito, mas sempre faltará um ossinho indicativo da imperfeição humana. O desmembramento consolida o direito de curar. Ainda em êxtase, e em companhia do seu animal tutelar (aliado, de poder), que o preteje e completa, desce aos infernos para conhecer o Senhor dos Mundos Profundos, com quem irá se confrontar todas as vezes que levar as almas dos mortos à sua morada e, nessa iniciação por fim, num clima de euforia, sobe aos Céus, conhece o Ser Supremo e, numa epifania, usufrui de todos os prazeres sagrados e profanos. A iniciação se dá num universo interior, mas confirma-se com uma cerimônia externa da qual todo o clã participa com intensa alegria. Eles, seus pares, não mais estão sós, um dos seus participa do mistério do desconhecido, da doença e da cura. Investido dos seus trajes xamânicos e acompanhado pelo ritmo dos tambores, que é seu meio de transporte, o xamã entra num estado alterado de consciência, canta, dança, enquanto sobe a uma grande árvore previamente plantada (a Árvore do Mundo), na qual foram feitos nove cortes correspondente aos nove céus que ía alcançar. A volta à sua tribo é a grande apoteose, na qual dramatiza intensamente as aventuras da subida e a partilha com o clã, entre cantos e danças. Ao desvendar os mistérios do desconhecido (doença, morte, ressurreição), o xamã deu ordem ao caos interior, estabeleceu com sua viagem em estado alterado de consciência, uma geografia do mundo dos mortos e fez surgir de sua euforia pós extática a poesia e a literatura épica, o teatro e a dança.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – do Mito e do Fato xamã, pajé, curandeiro, vamos buscar as possibilidades auto-curativas, que repousam do inconsciente coletivo, representadas pela potencialidades inatas do comportamento humano – os Arquétipos – equivalente psíquicos do instinto. Numa situação típica e recorrente, por exemplo mãe e filho, homem e mulher, doente e curado, o ser humano reage arquetipicamente. Os arquétipos são sempre ativados por uma complementaridade: a criança desperta na mãe o comportamento materno. Há na psique de cada mulher a potencialidade desta resposta como que significando que o filho já estaria contido na mãe. Isto posto, também o doente conteria em si, o complementar do curador, por haver em sua psique a potencialidade arquetípica da cura. A iniciação do xamã nos mostra que aquele que contém a doença, também tem em si a cura. A polaridade doença-cura, é regida pelo curador internalizado, que possui a força instintual do Arquétipo do xamã (a personalidade maná, para Jung). Encontramos essa polaridade em várias culturas: na Grécia no mito de Kiron, o médico ferido; na índia Kali, é a deusa da morte e da cura, e no culto do Candomblé, Umulú é o orixá da doença e da cura e é venerado como o “médico dos pobres”. Na fase do cotidiano: “ele conseguiu vencer a morte”, encontramos as forças curativas do médico interiorizado em pleno funcionamento. O médico externo, chamado a intervir no processo de cura, vai “constelar”, polarizar o médico interno – o fator curador intra-psíquico – a única possibilidade real de cura. Aceitar a existência de um xamã interiorizado, da personalidade maná como Arquétipo de cura, traz a esperança da cura de todas as doenças. Fazendo parte da nossa herança genética, o xamã repousa no inconsciente coletivo, reserva natural dos Arquétipos reestruturante. Ao contatar o inconsciente coletivo na terapia xamânica, o paciente entra no caudal curativo, criativo e religioso (de re-ligare) do primitivo. Resgatar este mundo primitivo, que foi cindido pela cultura judaico-cristã, significa contatar enormes cargas energéticas, oriundas do Self, e como tal, reorganizadoras. Pela técnica da terapia xamânica, é possível o contato direto com as imagens. As imagens são intensas representações psíquicas, mais próximas da percepção interna, fluxo e refluxo da criatividade, representação da fantasia, visão que surge no uso da linguagem poética. E por ser uma fase prévia da idéia, sua terra mater, o contato direto com a imagem ajuda a registrar, sem a censura do verbal, o inverossímil e o contraditório, que existem em nós: o paradoxo humano. Paradoxo esse que necessitará sempre do símbolo “máquinas transformadoras de energias psíquicas”, para fazer as sínteses dos opostos. A natureza do símbolo não é racional, nem irracional. Um dos seus aspectos é acessível à razão; outros provém de uma percepção tanto interna, como externa. O contato que se dá com o mundo animal, na terapia xamânica, é a nível do simbólico. O animal de poder, um aspecto positivo da nossa sombra, é o detentor da energia vital que alimenta o animal humano. Confrontar a sombra equivale a confrontar o guardião do umbral (este sempre aparece nos mitos e contos de fada) e é condição primordial para chegar ao tesouro, o Self, centro organizador na psique total. O confronto consciente e inconsciente faz surgir a ponte para o contato com o Self, que se torna atuante no ego, através deste re-ligare. Tal conquista é realizada com o auxílio do Arquétipo da personalidade maná, o xamã, o feiticeiro que nos leva a conhecer nossa força primitiva. E que, por ser filho da Águia, que trouxe o poder de proteção e cura, e de uma bela mulher, pode ser considerado o Arquétipo da auto-cura, o que só se realiza quando um indivíduo assume a tarefa de ser o artífice de sua própria proteção e cura.

TÉCNICA DA TERAPIA XAMÂNICA – O xamã se diferencia dos demais curandeiros por só trabalhar no estado alterado de consciência: o êxtase ou SSC (Shamanic State of Consciousness, para Michael Harner). Neste, uma memória xamânica arquetípica nos leva a vivenciar poderes de cura mineral, vegetal e animal. No SSC o xamã se mantém lúcido, com o completo domínio do Ego. Diferencia-se também por ter sempre um animal tutelar protetor (ou muitos) a seu serviço. E com o qual, viajando no tambor, desce aos Mundos Profundos , ou sobe aos Mundos Superiores. É neste estado alterado de consciência que leva a um contato direto com o inconsciente coletivo, que se dá a terapia xamânica. Os recursos terapêuticos são: externos – tambor e terapeuta, e internos: animal tutelar e túnel xamânico. Individual ou grupalmente, o “xamã terapeuta”, em ambiente calmo e escuro, leva o paciente, através das batidas suaves e rítmicas de um tambor, a penetrar no SSC. A experiência ocorre como um sonho, mas o paciente tem completo controle de suas ações e pode, se quiser, direcionar sua viagem. A viagem aos Mundos Profundos ou Superiores tem sempre um propósito, a cura e um objetivo claro e específico, que pode ser de conhecimento, restauração de forças (revitalização), busca da parte perdida da alma, redenção do Ego e ampliação da consciência. O início da terapia ocorre com o encontro do animal tutelar e do túnel xamânico que é a passagem para os Mundos Profundos. Aqui já temos material para várias sessões, pois este primeiro contato vai mobilizar as resistências, defesas e angústias básicas do paciente, como em qualquer terapia. Após a descoberta do seu animal tutelar (função superior) e de dançar a sua dança já no O.S.C. (Ordinary State of Consciousness), o Ego, regendo o processo, confronta-se com a bi-polaridade do animal e suas características de personalidade, correspondente à sombra animal. No seu aspecto positivo, esta possui intensa carga de energia criativa-curativa, por reger a energia vital do animal humano. Segue-se o encontro com os animais auxiliares (funções auxiliares), e inicia-se a longa Jornada do Herói, na qual ele receberá seu nome secreto xamânico, suas vestes e seus objetos de poder. A personalidade maná é constelada (o feiticeiro em nós) e o paciente se defronta com o Poder. Aprende a Canção da Força e o Passo do Poder, com os quais protegerá na longa Jornada do auto-conhecimento. Esta o levará ao animal sábio, o equivalente do velho sábio, com quem irá buscar conhecimento, sabedoria, equilíbrio e harmonia. E finalmente, o animal de cura será procurado nos Mundos Profundos ou nos Mundos Superiores, entre os quatro elementos: terra, água, fogo e ar, simbolismo do Self. Centro ordenador da psique total, o Self é fonte primordial de vida, de onde viemos e para onde vamos e, como tal, detentora do poder da Eterna Juventude, e é o real fator de cura e sem a qual não há significado.

Porém, onde mais se detém o trabalho terapêutico é na busca da parte perdida da alma. O terapeuta e o paciente viajam para recupera-las. Esta parte refere-se sempre à grande luta do herói (Ego) com seus complexos pessoais que serão analisados no estado O.S.C.. O trabalho de retirada das camadas dos complexos corresponderá a novas percepções e modificações de atitudes – conceito final de cura para Jung.

CONCLUSÃO – Por ser uma terapia na qual o paciente é levado a mergulhar no inconsciente coletivo, onde repousam os arquétipos reestruturantes, o fator de auto-cura é mobilizado em sua fonte na figura do xamã, Curador Primordial. A vivência simbólica xamânica refaz a ligação consciente-inconsciente e surge um novo centro ordenador de consciência: o Self, que irá reger o processo do casamento do instintual com a consciência egóica. O paciente, regido pelo arquétipo do xamã, transforma-se no artífice de sua própria cura.

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