Sonhar de Castañeda

Na linha do pensamento tolteca, venho compartilhar artigo sobre os ensinamentos de Carlos Castañeda, no que se refere a arte de sonhar acordado:

“Reina o império do racional. Sombrios guardiães escondem-se por trás de cada ser humano, personificados na forma da razão. Escravos servis, a ela nos dedicamos sem nunca questioná-la. Pequenas fugas nos são permitidas através de sistemas místicos que pobremente procuram explicar a abrangência do universo como um todo. E a razão, tendo a ciência como principal assessora, vai ampliando seus domínios, sempre em busca de descobertas que lhe tragam a verdade – conhecimento palpável e definitivo. Qualquer acontecimento ou existência que fuja aos seus esquemas remete-se imediatamente ao mundo da imaginação, do irreal.

Só, que é possível negar tudo, mesmo porque, ela diariamente esbarra em fatos incontestáveis para os quais não tem a menor explicação. A vida e a morte, o universo e o tempo, e até a sua própria existência fazem com que sinta vontade de se sentar e chorar diante de sua total incapacidade. Resta então ao homens a angústia da leve percepção de todo um mundo que a razão não explica, a arte vislumbra e as religiões postulam.

Os povos primitivos, “selvagens” foram certamente muito mais felizes do que nós em busca da globalidade. Entre povos como esses, remanescentes dos índios mexicanos, o antropólogo norte-americano Carlos Castañeda foi iniciado em um universo de explicações e respostas desconhecidas. Um universo uno e ao mesmo tempo duplo, porque partido em dois : o tonal e o nagual. O tonal representa tudo aquilo que nossa percepção está acostumada a captar diariamente: o mundo dos homens; o nagual aquilo que existe mas raramente conseguimos perceber: o reino do desconhecido. este último não pode ser concebido racionalmente, e qualquer tentativa de explicação nesse sentido é vã. Sensação pura, ele foge aos limites do império da razão, tornando irrelevantes os questionamentos acerca de sua veracidade.

Com isso, lança-se um desafio: como entrar em contato com o nagual, se somente somos capazes de pensar e perceber mediados pela razão? Estamos por demais vinculados à ordem racional para conseguirmos abandona-la de uma hora para outra – seria o mesmo que tirar o chão sob nossos pés. Foi exatamente essa sensação que Castañeda conta ter tido em seus primeiros contatos com o outro lado da existência, estabelecidos através do sonhar.

Sonhar, para Castañeda, constitui toda uma arte, da qual recebeu ensinamentos durante seu aprendizado com o índio Juan Machos. Sonhar é transpor os limites da percepção diária, atravessar parede nebulosa entre o tonal e o nagual, viajar deixando que o corpo permaneça parado.

Juan machas dizia que a essência do ser é o ato de perceber, e a magia do ser, o ato da consciência. percepção e consciência formam uma unidade que possui dois domínios: a primeira e a segunda atenção. A primeira atenção consiste na capacidade que todos têm (mas pouco utilizam) de organizar o mundo não-comum.

Para sonhar é preciso desenvolver a segunda atenção, e apenas sonhando essa capacidade se desenvolve. Não existem fórmulas para se chegar à segunda atenção, do mesmo modo que não foi através delas que alcançamos a primeira. Os passos necessários vão sendo encontrados no caminho de quem a busca.

Algumas sugestões são dadas, como por exemplo, desenvolver a contemplação, que envolve o ato de fixar a primeira atenção em um detalhe qualquer, durante um prolongado período de tempo. Outra dica; procurar detalhes em sonhos, buscando aprendê-los ao Maximo, para que possam ser lembrados depois de acordar. todo o sonho do qual nos lembramos não é mais sonho, é um sonho. Embora os processos do sonhar não sejam exatamente iguais para todos os sonhadores, Castañeda arrisca um sistema classificatório dos seus diferentes estágios : vigília repousante, vigília dinâmica, presenciar passivamente, iniciação dinâmica.

O primeiro estágio ele chama de vigília repousante : com os sentidos adoremecidos, permanecemos conscientes, invadidos pela sensação de derramamento de uma luz vermelha, como aquela que vemos olhando para o Sol com os olhos bem fechados. O segundo, de vigília dinâmica: com o desaparecimento da luz avermelhada, a pessoa se vê olhando para uma cena estática como uma quadro em três dimensões onde só pode perceber fragmentos, uma parter de cada coisa.

Presenciar passivamente é o terceiro estágio, em que os sentidos auditivo e visual dominam a percepção: os fragmentos se unem para dar ao sonhador a possibilidade de presenciar um acontecimento. No quarto e último estágio, o da iniciativa dinâmica, a ação se concentra: a pessoa é levada a se aventurar, a dar passos na busca do melhor aproveitamento de seu tempo.

A atenção de que o homem necessita para sonhar provém da região da boca e do estômago. A energia para se mover em sonho deriva de uma região entre três e seis centímetros abaixo do umbigo e chama-se vontade ou poder de selecionar e de acumular. Nas mulheres, tanto a atenção como a vontade localizam-se no ventre, o centro de toda a sua energia. A madrugada é o melhor horário para sonhar, pois no momento em que a atenção está adormecida, e não quando nos isolamos dos outros, conseguimos, por um breve espaço de tempo, nos submeter às suas interferências.

A prática da “arte de sonhar” nos ensina a sonhar acordados, ou seja, nos possibilita passar de uma atenção a outra como quem passa por uma porta. Ou, ainda, em um minuto estar no mundo do tonal e, no instante seguinte, no universo nagual.

na realidade, esses dois mundos existem paralelamente, ao mesmo tempo e no mesmo espaço. Nós estamos constantemente percebendo os dois planos, só que selecionamos um para nos lembrarmos. Ver o mundo nagual significa enxergar a energia vital que se esconde por trás de tudo. A “percepção nagual” nos permite observar as linhas energ´´eticas da terra, os pontos de maior poder. Através dela, as pessoas são vistas com os ovos luminosos, de aproximadamente dois metros e meio de altura, que constituem os corpos divididos em dois: o lado direito, o tonal, e o lado esquerdo, o nagual.

Tendo em mente essa dicotomia, podemos dizer que a experiência se divide entre estados de cosncientização normal – onde mantemos a primeira atenção, do lado direito – e estados de elevada conscientização – onde somos possuídos pela segunda atenção do lado esquerdo.

A percepção do nagual, que Castañeda denominava intensidade, se dá num só bloco, constituindo uma massa de detalhes que não podem ser separados, e cria uma verdadeira parede ao redor das experiências. a dificuldade de alcançar a memória da percepção intensa numa base linear impede a lembrança dessa mesma pecepção.

Lembrar seria juntar os lados direito e esquerdo englobando duas formas distintas de percepção num todo uno. Reorganizar a intensidade numa sequência linear implicaria, portanto, consolidar a totalidade do eu.

Se for possível reorganizar a intensidade de forma linear, a vida ganhará a duração de milênios, já que na experiência intensa o tempo inexiste. Ela se dá instantaneamente e nós a vivenciamos com o corpo e não com o intelecto.

O nagual está em nós e em todo o universo, podendo sr percebido de diferentes maneiras. Um artifício muito antigo para se chegar a esse tipo de percepção é o uso de enteógenos, talvez a única forma de contato do homem ocidental com seu ladfo esquerdo.

Através das alterações químicas que produz em nosso organismo, essas substâncias, possibilitam a passagem para a segunda atenção, modificando a nossa forma de percepção. Dependendo do tipo, essa passagem se dá com maior ou menor força. As leves – canabis e haxixe – apenas aguçam a nossa percepção do tonal, enquanto que as psicodélicas de experiências de um outro plano – o plano do nagual.

Os feiticeiros índios do México fazem uso da mescalina (peiote) como forma de desenvolver a segunda atenção. Castñeda conta que Don Juan lhe deu peiote porque ele era um homem aferrado à sua racionalidade, à sua primeira atenção. Mesmo assim, ele não aconselha o uso para aqueles que não entendem do assunto.

Os seres humanos são dotados de um poder pessoal – a energia representada na forma dos ovov luminosos, que precisa ser alimentada com mais energia constantemente. As atitudes de cada ser humano, durante toda a sua vida, aumentam ou diminuem esse poder. A fixação exagerada na primeira atenção diminue o poder pessoal, e certamente por isso a maioria dos seres humanos é vazia.

Os feiticeiros são os seres com maior poder pessoal, capazes de lidar com os dois lados da existência, conhecedores da totalidade; em suma, pessoas que conseguem um domínio maior dos diversos aspectos do mundo em sua volta.

Um mundo povoado de seres estranhos, feiticeiros e entidades deconhecidas constitui visão perturbadora para o homem médio civilizado. esses senhores, não muito raramente, costumam soltar brilhantes exclamações do tipo “bobagem, onde já se viu um homem poder voar”, depois é claro, de uma minunciosa leitura da obra de Castañeda.

Supondo-se agredidos em sua segurança, esboçam como primeira reação o desprezo. Assim conseguem conservar a sua ordem de mundo, apegando-se à racionalidade sem nem ao menos procurare, entender a proposta de Castañeda.

A leitura de sua obra é, no mínimo, proveitosa para um balanço de nossos valores. fazendo com que paremos para pensar em nossas relações com o mundo, ele sugeriu que as explicações racionais talvez não sejam suficientes.

E não se trata de abandonarmos a capacidade de organizar o mundo, que Castañeda por sinal considera assombrosa, através do raciocínio. Trata-se, ao contrário, de abrirmos um leque de possibilidades de percepção diferentes mas tão validas e importantes como o pensamento racional.

O próprio Castañeda alertou par a dificuldade de se ter contato com o nagual : um encontro que depende de muita energia pessoal, a qual só podemos desenvolver com muito trabalho. A realização desse encontro certamente viria modificar por completo nossas vidas, trazendo remédios para angústias antigas e situando-nos muito melhor no universo que nos rodeia. No entanto, levando em conta os obstáculos, seria bom se pelo menos pudéssemos entender que a razão não é uma ordem inerente ao universo, mas simplesmente a maneira que encontrarmos de organizar o universo caótico da percepção.

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