Ritos de passagem e iniciação entre os índios brasileiros

Ritos de passagem e iniciação entre os índios brasileiros: Tupinambás e Kaiapós

Rosane Volpatto

O maior dom do amor é trazer à vida o amor oculto dentro de nós. Isso nos torna independentes. Somos então capazes de nos aproximar do outro não por necessidade, mas devido à genuína intimidade, afinidade e vinculação. Isso é liberdade e é o amor que nos torna livres. Não haverá deste modo, razão para imitação do outro, nem de se estabelecer defensivas ou atitudes protetoras ante sua presença.

Quando se vive em uma fazenda, compreende-se que o espaço é vital, principalmente quando estamos semeando algo, pois o que cresce precisa de espaço. O ideal é haver espaço para que a diversidade encontre ritmo e contorno, pois é exatamente as diferenças que torna um indivíduo atraente para o outro.

Assim são nossos índios brasileiros, liberto em sua sexualidade, mas iniciado miticamente na arte de amar.

O amor para os indígenas era uma arte e o processo para seu aprendizado dividia-se em duas partes: o domínio da teoria e posteriormente o domínio da prática. O domínio da teoria era concretizado mediante os cerimoniais de iniciação.

Rito de passagem: Iniciação dos jovens púberes índios tupinambás

A iniciação das meninas púberes tupinambás inicia-se a partir do primeiro fluxo menstrual, designado como “nhemõdigara”. As jovens revelavam grande temor antes de se submeterem aos rituais sagrados, mas depois suportavam com relativa firmeza as provações estipuladas pela tradição tribal. “Porque, escreve Thevet, além de lhes cortarem os cabelos com pentes de peixe, colocavam-nas sobre uma pedra lisa e lhes retalhavam a pele com a metade de um dente de animal, das espáduas as nádegas, fazendo uma cruz oblíqua ao longo das costas, com certos talhos, a uma mais, a outra menos, de acordo com a robustez, a sensibilidade ou insensibilidade delas; de modo que o sangue corre de todas as partes”.

Esses procedimentos eram dolorosos e incutiam medo previsível nas jovens a serem iniciadas. Em seguida, seus corpos eram cobertos com uma substância cinzenta. Então, ligavam o braço e o corpo com fios de algodão e colocavam em seu colo dentes de capivara. Tal ritual tinha finalidades mágicas, visando tornar os dentes da jovem índia, suficientemente fortes para que ela pudesse mastigar com eficiência as raízes do caium. Acreditavam também, que não obedecessem estes ritos, o ventre da moça se constrangeria, dificultando a concepção. Depois disso se fazia necessária a reclusão.

A iniciada deitava-se numa rede velha, permanecendo nela por três dias, nos quais, guardava completo jejum. Os guaranis lhe davam algum alimento: “os bocadinhos só dão-lhe de comer cada dia, e assim tratam-na durante dois ou três dias”. Após este período, a jovem descia da rede, pisando na mesma pedra em que fora preparada, não pisando diretamente na terra. Se tivesse premência de satisfazer qualquer necessidade fisiológica, a mãe ou a avó, levava-a para fora, com um carvão acesso e um algodão. Tantas precauções tinham finalidades mágicas, que impediam que qualquer coisa má (Mae) entrasse no corpo da iniciada. Voltavam imediatamente para o seu leito e recebia aos poucos certos alimentos, como farinha ou raízes fervidas. Permaneceriam assim, até a segunda menstruação, quando passava a ser designada com o nome de “Jeporeroipoca”. Neste período o peito e o ventre eram escarificados. No mês seguinte a abstinência era abolida, contudo as iniciadas não podiam conversar com suas companheiras e deviam conservar-se na rede, desfiando e tecendo algodão. No terceiro mês, depois de serem pintadas com jenipapo, já podiam dedicar-se a outros trabalhos. Nesta fase eram intensificados o adestramento da jovem que era entregue às mulheres adultas, as quais as obrigavam a trabalhar até o extenuamento. Transformavam-se em exímias donas de casa e aí se dizia: “agora sim está bem, pode ser dado a um homem”.

Esta iniciação implicava pois, na observância de ritos de morte e de renascimento. Nas fases iniciais das cerimônias, as jovens índigenas eram tratadas como mortas para depois, serem encaradas como um ente novo, dotado de qualidades e capacidades especiais. Ou seja, a iniciada perdia os atributos antigos e adquiria outros novos, que lhe favoreceria para o reconhecimento social da sua maturidade biológica e pela atribuição de um “status” diferente na comunidade. A importância deste acontecimento é verificada na celebração com uma cauinagem especial. Depois da iniciação, as jovens podiam entreter aventuras amorosas e contrair matrimônio.

O isolamento das jovens indigenas por conseqüência da puberdade era semelhante aos d os homens. Durante este período de solidão forçada as iniciadas conseguem um contato mais próximo com as forças instintivas dentro de si. Hoje em dia a mulher perdeu o contato com este valor e é possível que suas inabilidades possam estar relacionadas com este período. No decurso da menstruação, a natureza feminina instintiva movimenta-se dentro dela e, como uma maré enchente, subjuga pelo menos parte de sua consciência. O isolamento prescrito nesta época, era devido a uma necessidade interior que clama pela introversão, o afastar das exigências da vida externa para viver por certo tempo nos lugares secretos de seu próprio coração, permitindo-se estabelecer contato com a parte mais profunda de sua natureza. Este é o valor encontrado através do retorno aos costumes da mulher indígena.

Os cerimoniais do jovem tupinambá se processava bem mais tarde, com aproximadamente 25 anos, quando passavam a usar os “karacóbes”, estojos penianos de pano. Anteriormente eram feitos de folha de palmeira. Passavam também a serem conhecidos como “Aua”, que significa “homem”, podendo então participar das expedições guerreiras, na qualidade de guerreiro. Esta categoria compreendia homens cuja idade variava de 25 a 40 anos. Estes jovens eram adestrados pelos pais e pelos homens associados ao seu grupo. O homem tupinambá só poderia ter relações sexuais com mulheres fecundas após ter ritualmente executado um inimigo.

Deste modo, verifica-se que a diferença média entre as idades dos cônjuges variava de 10 a 15 anos. Esta explanação mostra até que ponto o matrimônio representava uma solução pouco satisfatória para os jovens do sexo masculino, pois só podiam contraí-lo tardiamente. O grupo opunha obstáculos tanto ao casamento como às relações sexuais livres com moças em idade núbil. Mas os homens tinham necessidade absoluta de uma mulher que provesse o seu lar de alimentos e de lenha, que lhe preparasse as refeições e mantivesse aceso o fogo durante a noite. Em virtude da proibição de parceiras jovens eles tinham que se contentar com as velhas, que eram estéreis. Só posteriormente, a companheira velha poderia ser substituída por outra nova.

Rituais de iniciação entre os Kayapó – Ritos de passagem 

Me-i-tük(re) é o nome da cerimônia de iniciação. A própria interpretação da palavra nos direciona para este sentido: me-i – corpo humano, tükre – preto, significando morte. Os jovens deviam pintar-se de preto para este cerimonial, pois tal cor se integra na idéia de obtenção de força, necessária para sua integração ao novo grupo. Esta expressão, “morte do corpo”, associa-se ao significado do ritual, morrer o homem velho para dar lugar à ressurreição de uma vida plena para um novo homem guerreiro. Assinala também, a maturidade sexual do homem.

Entretanto, este rito não é condição “sine quo non” para o ingresso em uma classe mais elevada, nem para estabelecer relações sexuais. Entretanto, uma mãe, pode exigir que sua filha se case com um jovem que tenha passado pela me-i-tük.

Para o ritual, o pai do iniciante deve conseguir um “krom-dyo” para seu filho, ou seja, um padrinho legítimo que pode ser de mesmo sangue, como um irmão do pai. Durante a cerimônia de iniciação, ele se tornará guia e mestre do jovem, devendo todo o período que se estender o rito, viver exclusivamente para o seu tutelado.

A Casa dos Homens, “ngob”, constitui o centro de vida e da comunidade masculina. Nela os jovens guerreiros são educados a partir dos sete anos de idade e aí continuam morando os já iniciados até casarem. Este também é o local das deliberações dos grandes chefes, que são assistidos pelos conselheiros.

O correspondente da casa dos homens para o universo feminino são as casas familiais ou casas dos clãs. Antigamente estava aqui centralizado todo poder matriarcal.

Na Amazônia, no princípio, imperou o matriarcado, mas as mulheres perderam o poder e o “Filho do Sol”, instituiu novas leis sociais. Então as mulheres passaram a condição de inferioridade. Não conformes com estes ditames, teriam tentado diversas vezes retomar o seu poder. Sem alcançar seu objetivo e sob forte pressão feita pelos homens, fugiram matando todos os filhos homens.

As lendas das Amazonas, ainda é vívida na cultura Kayapó, onde mulheres anualmente celebram o “Mebióki”, o ritual das Amazonas. Durante o período de uma lua, estas abandonam suas casas e num ato de rebeldia se apossam da “Casa dos Homens”, uma instituição totalmente vedada às mulheres. Lá reunidas confabulam para a organização de uma grande festa. Os homens, neste período, assumem seus afazeres domésticos e o cuidado dos filhos. Seus papéis tornam-se completamente invertidos. É como se voltasse no tempo e como por encanto, ressuscitasse o matriarcado.

Esta tradição demonstra o descontentamento das mulheres, caso os homens não as tratem com amor ou desrespeitem a igualdade social adquirida até a presente data, cabendo a elas, diante de tal ocorrência, rebelar-se novamente e voltarem a isolar-se na floresta.

Sociedades matriarcais puras são atualmente muito raras, mas existem ainda algumas sociedades onde a “regra da mãe” ainda persiste, embora os homens tenham atingido um poder evidente.

A mulher Kayapó ao ser iniciada, permanece por três semanas sem ver a luz do dia. Também, durante este isolamento deve se submeter a escarificações com dentes de piranha para renovar seu sangue. Após todos estes ritos, é apresentada à sociedade como uma “nova debutante” com direito à toques de trombetas uruás e dança. Depois deste cerimonial, a jovem torna-se apta e livre para praticar atividades sexuais com quem quiser.

Para evitar filhos indesejáveis antes do matrimônio, as adolescentes aprendiam a manipular plantas como “mehrã-kendiô”, que tem a mesma finalidade do anticoncepcional e as tornavam estéreis por um período de quase um ano.

Os relacionamentos sexuais entre os Kayapó, são totalmente liberados. Relatos de pesquisadores nos informam que inclusive a troca de parceiros entre casais amigos era freqüente, sem qualquer desabono para as partes envolvidas. Mas isto não é regra para demais tribos. Entretanto, a infidelidade, no verdadeiro sentido da palavra, era proibitiva, mas quando constatada, não era aplicada aos amantes grandes sanções.

Entre as tribos do Xingu, as meninas púberes também devem passar por ritos que lhe impõem a reclusão por um período que pode variar de seis meses a um ano. Devem permanecer em total escuridão e seus cabelos são cortados bem curtos.

Por ocasião da primeira menstruação, elas são levadas diante de uma fogueira e devem permanecer sentadas junto à terra. Este ritual tinha como objetivo ofertar o primeiro sangue feminino, imbuído de todo seu poder, para a Mãe-Terra, provedora de toda a fertilidade. Em contrapartida, o poder residente na terra é emprestado à fêmea humana, levando em conta a similaridade entre as duas naturezas.

As mulheres se tornam guerreiras e os homens atendem suas vontades” João Américo Peret. Você, como eu, deve estar se perguntando, que lugar é este? Pois saiba, que esta é a combinação usada pela maioria das sociedades indígenas brasileiras. Longes da vida urbana e dos olhos maldosos do homem branco, vivem nossos índios felizes e “as mulheres se igualam aos homens, em todos os sentidos”.

Considerações Finais sobre os ritos de passagem e iniciação entre os indígenas brasileiros 

Quando o homem e a mulher procuram um relacionamento mais íntimo, fica evidente suas diferenças e valores relativos que atribuem à vida. Essas discrepâncias são essenciais, são opostos que se atraem. Mas tão grande é a divergência de seus objetivos que inevitavelmente podem surgir conflitos entre eles, quando estão vivenciando uma associação mais íntima. Este conflito pode, por vezes, parecer insolúvel e a necessidade que um tem do outro pode se tornar uma carga intolerável. A maneira convencional de se lidar com esse antigo problema é permanecer tão inconsciente quanto possível em relação aos efeitos subjetivos profundos do contato com o outro sexo.

O homem não está a serviço da mulher e nem esta dele. Todos os dois estão a serviço da Criação e da complementação eficiente do masculino e feminino. O que realmente importa é se estabelecer uma verdadeira relação que satisfaça suas necessidades internas.

Qualquer tipo de medo ou subjugo prejudica a relação entre o homem e da mulher. Quando o medo é inexistente, nem há exercício de poder, toda e qualquer mulher é capaz de estabelecer uma relação satisfatória e criativa de companheirismo e cooperação, assegurando a complementação de um com o outro. O homem desta forma, deixa de ser um inimigo e não há motivos, nem necessidade de defender-se ou tentar dominá-lo.

Hoje a mulher indígena é livre para viver sua sexualidade como melhor lhe aprouver, inclusive sofrendo poucas sanções em caso de adultério. Já é uma grande conquista!

Rosane Volpatto

Bibliografia consultada

Geografia Universal – “A Guerra dos Sexos”, autoria de João Américo Peret, pág 50-63. Jan/1995.

Mito e Vida dos Índios Caiapós – Anton Lukesch

A Organização Social dos Tupinambás – Florestan Fernandes

Lendas dos índios do Brasil – Herbert Baldus

As Amazonas – Fernando G. Sampaio

Les Rites de Passage – Arnold Van Gennep

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