Poder da dança- Dança sagrada nos rituais xamânicos

Poder da dança

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O iniciado não só baila na Terra. Em nossa realidade, entrando em transe ele baila em outro mundo, em outro estado de consciência. Nestas festividades, aprendem-se canções que o traz de volta a Terra, as canções expressam seu poder xamânico e mediante a elas se transporta novamente àquilo que experimentou na iniciação.

As danças e canções dos festivais são de uma ordem existencial diferente das canções e danças correntes. Aqui a própria vida se experimenta como uma exaltação eterna, como uma dança e um ritmo eterno, um som que ecoa sem cessar.

Para o iniciado a vida é uma melodia vibrante, sincronizada em harmonia. O xamã trabalha com este sentimento de compartilhar o ritmo da dança cósmica dos campos de energia que constituem a fonte, a matriz de toda a matéria.

Em essência, este processo de compartilhar é o que converte o xamã no que é. O baile , a canção e o movimento é igual ao ar. É uma maneira antiga de troca física e psíquica e de abrir a vivência para novos reinos de existência, mediante um processo de liberação. Apesar de tão antigos, são forças eficazes e aplicáveis para hoje.

Em nossa civilização, o baile e a canção ocupam um papel menor, não são feitos com êxtase. Carecem de uma intensidade e concentração para quem deseja explorar mundos profundos.

Segundo Alix de Montal :

A dança xamânica faz rebentar os vínculos da razão e do corpo. É uma dança de poder que organiza o espaço e ritma o tempo de modo que a alma, após o corpo, se ponha em movimento.

Dizer da dança sagrada que ela induz a uma alteração do estado de consciência implica uma evidência inexplicável. Quer se pense nos dervixes sufis, na dança de Shiva dos iogues, no Tchod Tibetano, na Dança dos Fantasmas dos Sioux e mesmo no delírio dionisíaco das bacantes da Grécia Antiga, todas constituem a expressão de uma sublimação. No pensamento arcaico, os movimentos rítmicos, o caminhar em círculo, a dança de roda eram uma réplica da abóbada circular do céu e do ciclo das existências. A dança assinalou a comunhão sagrada do homem com os demiurgos, a marcha para o ponto onde se junta o céu e a terra.

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A princípio, a dança xamânica é a revelação dolorosa do corpo, uma dança “a extracorpos: longe dos movimentos rituais e harmoniosos que se poderiam esperar, ela é “quebrada”, convulsiva, como se cada um de seus movimentos não tivesse outra finalidade senão deslocar o corpo. O dançarino está totalmente imerso durante no instante, e pouco a pouco o ritmo que ele impõe torna-se irreversível e determinante. a vontade perde parcialmente o domínio dos membros e, no momento em que a dança poderia existir tão somente por ela mesma, o corpo se esquece e desaparece.

Essa dança corresponde à definição dos “espasmos clônicos”, isto é, violentos estados de contração e descontração dos músculos que podem vergar o corpo e jogá-lo brutalmente ao chão. Em transe, o xamã pode ainda ver e saber o que se passa à sua volta, mas seu corpo inerte está desprovido de sensações.

Só o tambor continua a ressoar, para levar ainda mais longe um viajante pelo qual ninguém mais responde. e, é então que tem início o grande momento religioso da sessão.

Prosseguindo com Alix de Montal :

“Quem sabe a dança, vive em Deus”, dizia o grande poeta sufista Rumi. Para a dança, parece não haver outra receita senão a de ver : a dança extática só leva em conta a idade do xamã no tocante ao peso de sua roupa : ela tem um caráter espontâneo, individual, livre de qualquer coreografia premeditada, e assemelha-se mais a um “não fazer” do corpo do que a um balé artístico.

Dançando, o xamã esgota sua resistência muscular e nervosa até que, não comandando mais nada, o espírito se liberta do corpo. É provável que alguns movimentos violentos e as contorções que cortam a respiração acelerem a oscilação numa outra forma de atenção. Por diversas vezes, Castañeda recebe de Dom Juan um golpe, dado com o lado da mão, entre os omoplatas : e de cada vez esse choque doloroso modifica-lhe instantaneamente a visão do mundo. Não se trata aqui de um verdadeiro transe, mas antes uma experiência de destruição da realidade muito semelhante àquela provocada por enteógenos.

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Entre as faculdades “fora do comum” dos xamãs, mencionamos sua memória : sua capacidade de memorizar perfeitamente não apenas o que pertence à consciência ordinária mas também suas experiências extáticas. essa memória extra-sensorial poderia permitir-lhe recriar a cada vez as condições do transe e seus sintomas, por uma espécie de condicionamento de estimulação física. Nesse caso quanto mais freqüente fosse a experiência de estado alterado de consciência, mais ela se revelaria familiar e necessária. Algo como imagens – ou melhor, sensações – percebidas sobre efeitos de enteógenos pode ressurgir depois na realidade ordinária e impor-se à consciência, mas de maneira incontrolada.

Desencadear à vontade o transe extático, a grande viagem da alma, é muito mais simples de dizer do que conceber…salvo se o entendermos como a superação total do si mesmo e se virmos na dança o meio de “varrer a ilha do tonal “. Pode-se, enfim, imaginar a dança como descrevendo a vida do guerreiro, cujo movimento é um poder suplementar adquirido sobre o mundo. Se o guerreiro dança realmente bem, ele pode reter a morte por um breve momento. Vejam abaixo trechos que Dom Juan falou para Castañeda em A Viagem à Ixtlan :

“Cada guerreiro possui uma forma especial, uma posição particular de poder, que ele desenvolveu através de sua vida. É uma espécie de dança, um movimento que ele realizou sob a influência do poder. Se um guerreiro agonizante tem poder limitado, sua dança é curta, mas aquele que tem um poder considerável executa uma dança magnífica. pouco importa, contudo, que ela seja curta ou grandiosa : a morte tem de parar para assistir ao espetáculo da última dança do guerreiro. A morte não pode arrebatar um guerreiro que recapitula pela última vez os fatos de sua vida enquanto ele não tiver terminado sua dança. …Assim, você vai dançar sua morte sobre esta colina no fim do dia. E no curso da sua última dança vai contar seu combate, as batalhas que você ganhou e aquelas que perdeu; vai falar de suas alegrias e de seu pasmo quando encontrou o poder pessoal. Sua dança há de expressar os segredos e as maravilhas que você armazenou. E aqui sentada, a morte ficará assistindo. O pôr-do-sol há de iluminar você sem queimá-lo, tal como fêz hoje. O vento há de ser suave e brando, e sua colina estremecerá. Quando você acabar sua dança, olhará para o sol, pois nunca mais, desperto ou sonhando, há de revê-lo. E então sua morte mostrará o sul, a imensidão.”

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