Parto com a Ayahuasca

ADELISE, Médica pediatra, conta o nascimento de João Miguel (Porto Alegre/RS)*

“É legítimo reconhecer a maturidade de um ser que vive sobre os valores do Si-Mesmo, que os leva à prática em sua marcha de evolução”. C.G.Jung

Descrição do Trabalho de Parto

O trabalho de parto domiciliar é criação que vai sendo construída durante a toda gestação. Primeiro, pelos pais, especialmente pela mãe, e, depois, é agregada a figura do profissional, no meu caso, médica.

A história deste parto teve inicio com as primeiras conversas informais que tive com o casal em casa do um amigo em comum. Eles queriam um outro tipo de atendimento que não o hospitalar, pois na primeira gravidez a experiência do hospital, tinha sido muito traumática. Sua primeira gestação transcorreu bem, o trabalho de parto foi rápido, em torno de 6 horas. Porém, no período expulsivo, por sentir muita dor, recebeu analgesia peridural, o que levou a uma sucessão de intercorrências médicas: extração com fórceps, recém-nascido com circular de cordão umbilical muito apertada, depressão respiratória, necessitando de assistência em UTI Neonatal nas primeiras horas de nascimento. Depois de quatro dias, o bebê apresentou quadro de icterícia neonatal e foi de novo internado para tratamento com fototerapia.

Desta vez, com 35 semanas de gestação, o casal fez a primeira consulta para avaliar a possibilidade do parto em casa. E nas semanas seguintes mantivemos uma comunicação constante a fim de preparar todos os detalhes para o trabalho de parto.

Segunda gestação, gravidez à termo: 39 semanas. 
Parto normal, domiciliar.
RN de Sâmara Gonzaga e Marcelo 
Data de nascimento: 14/08/2004
Hora: 00:17min
Peso: 3220 gramas
Comprimento: – 51 cm
PC: 35,5 cm
PT: 33 cm
Apgar no primeiro minuto: 4
Apgar no quinto minuto: 8
Ao primeiro exame normal, reflexos neurológicos do RN preservados.
Médica: Adelise Noal Monteiro
Auxiliar de enfermagem: Claudete Borges

A partir das 17h do dia 13/08/2004, as contrações anunciam o trabalho de parto. A casa é preparada. Às 21h, três contrações em cada 10 minutos configuram o trabalho de parto efetivo, que se caracteriza pelo apagamento e dilatação do colo uterino, dependente das contrações que devem ser, freqüentes, fortes, contínuas, regulares, com bom relaxamento entre elas.

Durante todo trabalho de parto, houve a monitoração dos batimentos fetais, sempre dentro dos níveis normais.

No primeiro período do trabalho de parto, foi utilizada acupuntura na região lombar, nos pontos dolorosos. Isso que permitiu um alívio da dor durante as contrações. Neste período, também foi utilizada massagem com digito-pressão, durante as contrações. A acupuntura e a massagem são técnicas antálgicas** muito efetivas no primeiro período do trabalho de parto.Também foi usado um fitoterápico de uso tradicional feito a partir de duas plantas (Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis) que atua diminuindo a tensão emocional e possibilitando uma melhor disposição da parturiente frente ao trabalho conjunto que se processa no corpo e deve ser acompanhado por seu psiquismo como um todo. Ela é uma totalidade psico-física.

Estudos clínicos já comprovaram que o medo e a insegurança, com tensão acentuada, frente à situação desconhecida, aumentam a dor no trabalho de parto. O relaxamento da parturiente diminui sua sensibilidade à dor. O alívio da dor, o toque, a atenção constante, a possibilidade de liberdade de movimentação, o ambiente familiar, são todos fatores que contribuem para dar à parturiente a mesma sensação de segurança que instintivamente todos os animais buscam. E devemos lembrar que o nascimento é o momento em que a via instintiva é acionada na sua forma mais intensa.

Em torno de 23h30, começa o segundo período do trabalho de parto: o período expulsivo. Aqui se chega ao pico máximo de tensão, quando a concentração de todos os que participam daquele momento é imperativa. A natureza está próxima de se revelar. No primeiro período tudo é envolto em mistério, só os sinais externos nos dão indicadores do processo. No período expulsivo já se pode ver e sentir, através do toque no canal do parto. A cada contração, uma rotação: a vida se mostra. O incentivo constante e as manobras para atenuar a dor e prevenir lacerações, como compressas de água morna no períneo, são de grande ajuda. No instante em que começa a aparecer a cabeça do bebê, a magia se faz presente. Todo ambiente é tomado de uma aura de emoção que se pode traduzir em cores: o dourado foi a cor deste nascimento.

Às 00:17minutos do dia 14/08, nasce João Miguel.

Lento trajeto descendente no túnel escuro, em direção a uma nova expressão de vida. Uma circular de cordão umbilical muito apertada dificultava a saída. Com cuidado, fazendo a manobra de liberação (passa-se o cordão por cima da cabeça ainda antes de passar pelo canal do parto, assim se evita o estrangulamento) e, num instante de tempo, se rompe o cordão, abrindo a passagem. João Miguel “jorra” com estrondos de fogos. Nasce com depressão respiratória, caracterizando o sofrimento fetal, pela circular de cordão. Apgar 4, no primeiro minuto. Com as manobras habituais de liberação das vias aéreas (aspiração, com pêra de aspiração, da orofaringe e narinas, deixando a cabeça mais baixa que o resto do corpo, também foi feito manipulação no tórax para reanimação) e aquecimento, foi recuperando a vitalidade. Apgar 8, nos 5 minutos de vida. Desfaz-se a tensão inicial.

João Miguel no colo, envolto em agasalhos responde ao acontecido com os olhos bem abertos e um leve sussurro, como um filhote humano tão cedo contando sua história e já apto para iniciar a amamentação. Sinal derradeiro do triunfo da vida.

O terceiro período do parto – a expulsão da placenta – transcorre rápido, sem alterações, finalizando o trabalho com a sutura das pequenas lacerações ocorridas. O passo seguinte é a higiene da mãe, do recém-nascido, remoção e limpeza do material utilizado. Realização do primeiro exame do recém-nascido.

Tudo pronto para a comemoração do milagre da vida. João Miguel acolhido nos braços da mãe, junto ao pai, na sua casa, no seu quarto, na sua nova vida. Não é possível relatar um acontecimento arquetípico, como é um nascimento somente descrevendo tecnicamente o processo. Ele está envolto de uma atmosfera mágica, típica do arquétipo. Carregado energeticamente de um conteúdo afetivo-emocional. É preciso ser acompanhado da linguagem poética, mítica, que toca o coração. Toca uma estrutura mais profunda do ser que o poeta chama de alma. O universo da alma humana que cria no nível abstrato, ao mesmo tempo em que a vida se estrutura no nível orgânico.

Nesta medida, da criação poética da vida, tomemos as palavras da personagem principal do acontecido.

O que viu e sentiu Samara

Adelise: Como foi tua experiência com o parto domiciliar e qual a diferença do parto hospitalar anterior?

Sâmara: O hospital é extremamente impessoal, os médicos e as enfermeiras fazem o trabalho deles e não te dão explicação, não se envolvem. Enquanto que em casa, tu estás no teu ambiente, segura, está com uma pessoa do teu lado que vai te ajudar, que te conforta também e vai te explicando passo a passo o que está acontecendo de uma maneira bem mais clara e pessoal.

No hospital eles mal te falam e te explicam as coisas. Meu primeiro parto, foi com fórceps e demoraram 8 horas para me devolverem o nenê. Sem me dar explicação do que estava acontecendo, simplesmente o nenê sumiu e apareceu mais tarde. No parto do João Miguel, que foi em casa, a gente teve o mesmo problema de circular de cordão, mas a maneira como foi resolvido, com a gente ajudando, cuidando e orando junto ali, me deixou mais tranqüila e segura de que a coisa estava sendo resolvida, eu estava visualizando e participando do que estava acontecendo.

A gente conseguiu deixar a natureza trabalhar junto com a assistência espiritual. Depois desta segunda experiência com certeza não faria mais parto no hospital e sim em casa. Em casa, quando tudo termina, já está dentro do teu ambiente, o nenê também está junto contigo o tempo todo, sem sumir, sempre ali do teu ladinho, bem melhor, bem mais tranqüilo.

O hospital assusta a gente com esta coisa de eles fazerem sem te questionar, sem te dar satisfação de nada. No parto do João Miguel, tu me ajudaste, fazendo massagem, acupuntura, isto dá muito alívio. No hospital, eles mandavam eu virar de lado, e eu não conseguia. Eles te mandam fazer coisas que nem sabem se tu estás te sentido bem para fazer, é uma coisa muito padrão. Em casa não, a pessoa está ali para te ajudar, ela tem essa sensibilidade maior de te confortar, conforme o que está acontecendo.

Adelise: No parto anterior, tu tiveste um obstetra durante todo o tempo, o mesmo que vez o pré-natal ou foi o médico plantonista?

Sâmara: Na primeira gravidez a obstetra era minha ginecologista há dez anos. Fiz todo pré-natal com ela. Durante o pré-natal ela nunca me falou sobre a analgesia no parto, por exemplo.

Logo que cheguei ao hospital ela foi chamada e chegou em seguida, mas, dizer que ela ficou junto comigo, todo o tempo, é difícil, pois mesmo estando no hospital, o obstetra entra e sai. Vai lá, te examina e sai; são as enfermeiras que ficam por ali. O médico só fica contigo mesmo, no período expulsivo. Quando eu estava com 9 cm de dilatação, ela me perguntou se eu queria fazer uma analgesia para dor. E eu como era a primeira vez que sentia aquilo, quis fazer na mesma hora. E não gostei do resultado, acho que deveria ter sido falado comigo antes, não naquela hora, pois ali tu não tem um raciocínio, não tem discernimento de muita coisa. O Francisco teve circular de cordão umbilical e foi tirado com fórceps, pois os batimentos cardíacos estavam muitos baixos. Ele tomou muitos remédios para ser reanimado.

Com o João Miguel, o trabalho de parto foi muito parecido, com o mesmo problema do cordão. Só o processo foi completamente diferente, por ser em casa, por não ter tomado analgesia e, conseqüentemente, não foi tirado com fórceps. No hospital, sai o nenê, o obstetra faz o trabalho dele e não quer mais saber de nada. O nenê passa para o pediatra, o hospital toma conta e o obstetra some da tua vida.

A idéia de fazer o parto em casa surgiu deste problema que deu no hospital que foi bem traumatizante para mim e para o Marcelo. Então a gente começou a pesquisar, a pensar em fazer parto natural, que na minha cabeça é sem analgesia e daí a idéia de fazer o parto em casa. Fazer o parto em casa, com tudo que aconteceu, foi a melhor coisa que a gente poderia ter feito, a gente não se arrepende, ao contrário.

Adelise: Pode descrever a visão que tu tiveste durante o parto?

Sâmara: A visão que eu tive foi com a Nossa Senhora. Ela apareceu durante o período de expulsão. Eu a vi na minha frente, de pé, no espaço. Toda vez que fazia força, eu sentia que ela me segurava pelas mãos, como se ela me puxasse, me ajudando na força de expulsão. Logo depois da expulsão, quando o João Miguel nasceu deprimido e estava sendo reanimado por ti e a gente rezou e fez bastante força para ajudar eu vi a Nossa Senhora numa mesa semicircular com outros seres ao redor, de frente para mim. Em cima do que estava acontecendo. A sensação que eu tinha é que eles estavam cuidando para que desse tudo certo. A Nossa Senhora no meio e os outros seres ao lado dela envolvendo a gente. Ela não falou comigo, era só a sua presença. A sensação que eu tenho agora, pensando, é como se ela estivesse cuidando para ver se tudo transcorria como ela queria. Como se estivesse fiscalizando. Na hora da sutura, eu estava bem sensível com um pouco de dor, foi uma força de pensamento que me veio. Jesus na cruz e eu ali sofrendo por meia dúzia de pontos. Então, foi um pensamento forte que me ajudou muito a suportar tudo. Deu-me coragem e força para relaxar até o fim.

Adelise: O que tu sentiste depois que tudo acabou, no quarto com a luz apagada, bem quietinha?

Sâmara: Aquele momento ali foi um momento de paz, de tranqüilidade, onde eu relaxei totalmente, com o João Miguel no colo, descansando. Trabalhamos bastante e estávamos descansando. A sensação era de estar flutuando. Sabia que tudo estava resolvido, tinha tido a assistência necessária. Coisa que jamais teria tido no hospital.

* Adelise Noal Monteiro é médica pediatra, atende partos domiciliares e reside em Porto Alegre (RS).

** Antálgico: contra a dor, para alivio da dor

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