Pajés, rituais e espíritos da cultura indígena Yanomami

Pajés, rituais e espíritos da cultura indígena Yanomami

Colaboração Palloma Carolline

Encontro de Xamãs, maloca do Demini, T. I. Yanomami.

Encontro de pajés, maloca do Demini, T. I. Yanomami.

O Xamanismo é, juntamente com seu sistema ritual funerário e guerreiro, um dos pilares culturais da sociedade yanomami. As sessões xamânicas, individuais ou coletivas, constituem uma atividade ao mesmo tempo regular e espetacular e a maior parte das casas coletivas (aldeias) conta com vários Xamãs.

Os Yanomami costumam dizer que um futuro pajé é, desde a infância, habitado por estranhos sonhos induzidos pelos espíritos que fixam seu olhar sobre ele. Ao tornar-se adulto ele deverá, então, aprender a vê-los e a chamá-los. A iniciação dos pajés yanomami é ao mesmo tempo dolorosa e extática. Assim, inalam durante várias semanas, dia após dia, um potente alucinógeno, o pó yãkoana . Durante esse transe, seu corpo é desmembrado, lavado e ornamentado pelos espíritos , antes de ser invertido e recomposto. Conduzido pelos anciãos aprendem, portanto, a responder aos cantos dos espíritos e a recrutá-los como seus auxiliares. Esses espíritos são denominados xapiripë (ou hekurapë).

Os xapiripë se apresentam sob a forma de miniaturas humanóides cobertos de ornamentos cerimoniais extremamente coloridos e brilhantes. Suas danças de apresentação, acompanhadas de cantos e clamores, são comparadas à ruidosa e alegre chegada de grupos de convidados nas grandes festas intercomunitárias, reahu (cerimônia de aliança e, ao mesmo tempo, rituais funerários). Esses espíritos são, em grande parte, imagens (utupë) de seres ancestrais animais (yaroripë) do tempo das origens (e não uma réplica dos animais de hoje).

Assim, a maior parte das imagens-espíritos xapiripë são de mamíferos, pássaros, répteis, batráquios, peixes, crustáceos ou insetos. Além dessas, existem imagens-espíritos de árvores, folhas, cipós, mel selvagem, águas, pedras e corredeiras. Os xamãs invocam ainda imagens-espíritos de diversos personagens míticos (animais ou não) e de entidades cósmicas (sol, lua, tempestade, trovão, raio) sem esquecer de alguns humildes xapiripë, domésticos, como o do cachorro, do fogo ou da cerâmica de cozinha. Finalmente, existem os ancestrais dos brancos que possuem igualmente imagens-espíritos (napënapëripë), assim como seus animais de criação (galinha, porco, vaca e cavalo).

Os xamãs dizem que sob o efeito do pó yãkoana – “alimento dos espíritos xapiripë” – seus olhos “morrem”. Entram, então, em um estado de transe visionário durante o qual chamam , fazem descer e fazem dançar as imagens-espíritos xapiripë que adquiriram durante sua iniciação. Nesse momento se estabelece um processo de identificação entre os espíritos e seu pai, o xamã. Esse último incorpora, sucessivamente, cada um daqueles que convoca imitando seu canto e sua coreografia (mais uma vez, os espíritos dos ancestrais animais têm aqui um lugar privilegiado). Em Yanomami designam-se assim, os xamãs pela expressão xapiri thëpë que significa “as pessoas espíritos” e a condução de uma sessão xamânica pelo verbo xapirimu “agir/comportar-se como espírito”.

Após a iniciação, os espíritos auxiliares de um pajé (seus filhos) passam a residir em uma casa coletiva fixada no “peito do céu”, acima dele . É de lá que ele os chama e os faz descer, em função do uso de suas armas e de seus poderes, durante as sessões xamânicas que conduz . Aliás, a cada nome de imagem-espírito que os xamãs fazem dançar corresponde uma miríade de seus avatares, infinitas imagens umas dentro das outras como inúmeros espelhos.

Esse poder de convocar a incorporar imagens ancestrais como espíritos auxiliares dá aos pajés um papel central na proteção de sua comunidade. Defensores contra os poderes patogênicos das alteridades humanas e não-humanas que ameaçam seus membros, são incansáveis guerreiros e negociadores do invisível, dedicados a regular ou combater a ação das entidades e das forças cosmológicas que podem afetar o bom andamento do universo e da segurança dos humanos. Desse modo eles controlam o furor dos trovões e das tempestades, a regularidade e a alternância dos dias e das estações, a abundância da caça, a fertilidade das plantações e das florestas. Eles sustentam o céu para prevenir sua queda, afastam ou combatem os predadores sobrenaturais, resistem às incursos dos espíritos xamânicos inimigos e, finalmente e, sobretudo, curam os doentes, vítimas da maleficência humana (bruxaria, xamanismo guerreiro, agressões dos duplos animais) ou não-humana (predação de espíritos maléficos).

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