Padrinho Corrente

Manuel Corrente da Silva nasceu na cidade de correntes Piauí, em 29 de setembro de 1910, para uma vida de muitas batalhas, entre elas ajudar o padrinho Sebastião a cumprir sua missão. na mocidade, lutou entre jagunços, andou em lombo de burro pelas estradas poeirentas do sertão e tangeu muitas boiadas até embarcar para a Amazônia como soldado da borracha. Como ele mesmo contava :

“O Governo tava dando passagem pro povo ir para o Amazonas. Quem não quisesse , ia pra guerra. Na viagem que eu vim desde o Ceará até Manaus, fomos seguidos por um submarino alemão. Quase a gente foi para o fundo

Em Manaus peguemos um chatão pela Boca do Acre. Peguemos outra chatinha para Sena Madureira. Aí fomos para Bragança por terra, 18 horas a pé na lama e no escuro, com fome. Aí a coisa começou a ficar séria. Chegamos no seringal e não tinha nada. trabalhei cinco dias, tres sem comer

Iniciado no espiritismo pelo procurador do seringal, conheceu o Daime pelas mãos do Mestre Irineu. Gostava de lembrar que o Mestre, ao vê-lo exclamou :

– Êsse aí demorou, mas finalmente chegou!

Depois de participar da formação da Colonia Cinco mil, administrou o Rio do ouro após a saída do Padrinho Sebastião ao Mapiá. Tinha uma vocação especial como orientador, não poupava ninguém quando se tratava de dizer a verdade, mas sabia dar estímulo e consolação àqueles que precisavam. Depois de muito sofrer adoentado, sem reclamar, numa bela manhã de Sábado, 23 de março de 1996, abriu a janela do quarto e exclamou:

– “Que belo dia para eu ir embora!”

Ao som do hino Caboclo guerreiro que dá nome a seu hinário e sintetiza sua própria personalidade, soltou seu último suspiro, aos 86 anos de idade e hoje se encontra sepultado juntinho ao padrinho Sebastião, na capela em frente à Igreja Céu do Mapiá.

O irmão Antoine Yan Monory, na revista Flor das Águas :

ele chegou ao daime depois de seu filho, o Chico corrente, começando dessa forma no Alto santo com o Mestre Irineu em vida. ele contava que tinha até um certo medo do mestre, e do daime, naquele tempo. depois que o Mestre se foi, sai para acompanhar o Padrinho Sebastião e fundar a Colônia Cinco mil.

Um caráter próprio das pessoas iluminadas ou realizadas espiritualmente é de terem, muitas vêzes, na idade avançada principalmente, uma energia de crianças, na pureza, na soltura e na inocência. e assim era ele, embora sabia também muito bem dar umas boas disciplinas quando precisasse, sendo por outro lado bem sério, e com muitos conhecimentos. Trazia com ele forte poder de cura e de limpeza que se manifestava de modo geral só pela a sua presença, além de, por vezes, de formas inesperadas ou incomuns, com muita simplicidade.

Era uma pessoa, justamente, muito simples, e muito lúcida no seu tempo, que ensinava a humildade pelo seu próprio comportamenteo. Ele tinha os lábios leporinos, e tinha que prestar atenção quando ele falava, porém se entendia “quase tudo”, e ele falava coisas grandes e pequenas, muitas vezes mensagens que só anos mais tarde iríamos lembrar e entender, e era um ser muito querido e fino, uma flor de pessoa.

Foi pai de uma grande e importante família. com filhos e filhas especiais como : Francisca Corrente. Francisco corrente, este “Chico” médium forte e sábio.

Ele perdeu o seu pai cedo, com onze anos, estava um dia em casa quando chegou por lá alguns “cpangas” do famoso Lampião. Perguntaram se tinha comida, e ele respondeu que não, não tinha….aí, eles pegaram ele e puseram uma pistola em cada orelha…, vendo a morte de perto como contava…Mas não aconteceu nada com ele, porém botaram o seu companheiro, mais adulto, para correr atrás dos cavalos.

Ele era uma pessoa de disciplina, que não gostava de ver as pessoas brincar com a espiritualidade, sendo que ele era um esteio espiritual importante da Corrente de Luz da qual participava. Temos uma lembrança querida deste nosso velho, sendo que foi ele, quando das primeiras vezes que nos deparamos com o Sagrado Feitio do Daime, que nos ensinou a cuidar das folhas da Rainha, com todo carinho e atenção “como há de ser”. Era lavando, várias lavagens, fiscalizando de alguma forma a catação das mulheres, na força das águas doces, sob a luz do Sol ou do luar, e a luz do Divino Mestre… Foi ele quem zelou mesmo das folhas, durante muitos anos, pondo-as aconchegadas nas folhas de bananeira, as regando sempre, por vezes escondidas em recantos discretos sob a sombra fresca da verde e amorosa floresta. Isto há de ser lembrado!…

Ele falava uma coisa muito boa para nós lembrarmos agora, sendo quase um hai-kai taoísta (uma frase ou idéia curta, de caráter enigmático, tendo um significado espiritual para destrinchar), de que:

– QUEM ESTÁ CERTO ESTÁ ERRADO, E QUEM ESTÁ ERRADO ESTÁ CERTO.

Podemos relacionar isto com a temática das normas de ritual, ou das formas “certas” ou apropriadas de agir de modo geral, e assim às vezes uma pessoa parece estar “errada” mas está certa porque está seguindo o seu coração, a sua intuição, o seu próprio destino…

Nos últimos tempos da sua vida, estando doente materialmente, ele pode visitar e receber ajuda da casa da Irmã de Caridade Francisca Gabriel, como é chamada, e assim comprovando o valor de uns para com os outros… Ele gostou de lá, e falou que o Mestre era único!

Este humilde “Mestre”, na sua Linha, estava justamente lutando para a sua saúde, e ele não queria e não achava que era o momento de partir ainda, até pouco tempo antes do seu desencarnar. Eram desta forma sempre realizados muitos trabalhos de cura e atendimentos para ele. Porém, dentro desta luta, ele chegou num ponto em que decidiu ir mesmo… Foi antes do São José de 1996, e ele foi chamando as pessoas, uma por uma, falando que era para parar de rezar para ele ficar, que era a sua hora… Mas não foi neste dia ainda, de São José, e ele até teve uma melhora. Passou alguns dias ele recolhido, como sempre bem lúcido em todos estes tempos, comunicando as suas últimas diretrizes e mensagens de Luz.

Chegou o dia de Sábado, ele olhou para a luz do dia e falou: – “Que dia bonito, eu quero ir é hoje!…”, e estava dando um céu azul especial, bonito mesmo. Ele ficou olhando o tempo todo pela janela. Chegou uma pessoa próxima, se atuou, começou a cantar, e ele começou a cantar também os seus hinos. Cantou o “Caboclo Guerreiro”, e ele foi assim mesmo, cantando com força e com fé, na sua passagem de Mestre (se fala que na mesma hora alguém soltou um foguete na vila…). Esta é digna de ser comparada às passagens dos Mestres orientais, que desencarnam de forma consciente, em “sámadhi”, ou êxtase místico… sendo no caso do Daime, este mesmo “sámadhi” alcançado através dos hinos. Esta passagem é própria também dos “homens de poder”, como os anciãos, os velhos xamãs das tribos norte-americanas, por exemplo, os quais sabem e podem escolher o melhor dia para atender o chamado do “mundo dos espíritos”.

Este nobre homem nasceu o dia de São Miguel, em 1911, e desencarnou num Sábado, dia também de São Miguel na semana, o dia 23 de Março, dentro do período da Quaresma

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