Rádio Cipó | Tocando agora:
comprar cd

Nicole Roitberg, antropóloga e co-fundadora da Floresta dos Unicórnios

Nicole Roitberg é formada em antropologia pela Bryn Mawr College, nos Estados Unidos, tendo parte de sua formação em Zimbábue, África.Adquiriu especialização em projetos sócio-ambientais nas áreas de eco-design, bioarquitetura e educação holística. Passou os últimos anos mapeando e documentando projetos em desenvolvimento sustentável, viajando pela Índia, África, Estados Unidos, Leste Europeu e América do Sul. É fotógrafa e escritora freelance para revistas ecológicas e mídia alternativa.

É co-fundadora da Floresta dos Unicórnios: Localizada na Granja Viana, um espaço conservacionista, licenciado pelo IBAMA, para receber animais apreendidos pelo tráfico ilegal.

Além disso um “amor de pessoa”, super-cozinheira, simpática, inteligente e guerreira. Uma pessoa que encanta! Sem dúvida está na genética (filha de Michael Haradom)

Saudações Nicole

Léo: Conte um pouco sobre vc, suas informações pessoais.

Nicole : Desde que me lembro por pequena, era uma sonhadora- mor. Ficava olhando pela janela horas a fio avistando o horizonte (mesmo quando este era o corredor de salas de aula), contemplando a amplitude da vida, as possibilidades humanas, o que faria de mim “quando crescer” e como poderia realizar algo que me deixasse em plena alegria e que pudesse contribuir para o bem das pessoas e do planeta.

Me entediava rapidamente com a mesmice das salas de aula, usava chapéus coloridos, entrava nas aulas com os livros didáticos errados (isso junto as minhas miradas de janela constantes me deu o prêmio de excêntrica na escola). No entanto, nas aulas que eu sentia profundo valor, ficava atenta e presente. Gostava de fazer projetos movidos pela minha paixão de vida, da beleza e da qualidade colocada em qualquer trabalho. Lembro que em pouco tempo ninguém queria fazer projetos comigo – só os japoneses. wink

Tinha uma mãe muito cuidadora e presente, e um pai maluco que nos levava a viagens mirabolantes e experiências pouco comuns, como dormir numa pousada embaixo do mar, ou estudar a biologia e comunicação de golfinhos. Nossas viagens eram assim. Minha família não me deu uma educação religiosa, mas a abertura e acolhimento de meus pais me elevaram o olhar para a espiritualidade como um caminho possível, que continha ensinamentos de cuidado e amorosidade com a comunidade e com a terra.

Quando penso em minha infância e juventude, não posso deixar de falar de minha avó Wilma, mãe de minha mãe. Minha vó era espírita, artista, sonhadora, humorosa e de gênio inigualável. Me colocava desde pequena para brincar em jardins e plantar na horta. Me ensinou a pintar desde os 6 anos com tinta a óleo e espátula, contava histórias de florestas de esmeraldas e bichos falantes na hora de dormir. Era uma eximia narradora, como se tivesse vindo pessoalmente daqueles mundos fantásticos que contava. O espaço dela era um lugar borbulhante de cores e magias. Fortaleceu bastante minha expansão criativa, minha espontaneidade e alegria, e a capacidade de olhar para o mundo de diversas formas.

Léo: Como foi sua experiência vivendo nos EUA?

Nicole: Fui para lá estudar Antropologia Cultural. Dou risada até hoje quando penso que a antropologia simplesmente formalizou o que eu já fazia e adorava fazer: conhecer a condição humana, as culturas, seus costumes, como elas se refaziam a partir da compreensão que elas tinham de sua inserção no cosmos… Era o que eu fazia antes com minhas viagens e peregrinações, mas antes me chamavam de hippie e perdida. Agora com o diploma, posso continuar fazendo o mesmo, mas sou chamada de antropóloga. Vai entender… Tem um relato que gostaria de dar que foi marcante em minha vida. Sempre sonhei em fazer um “road trip” – uma viagem pelas estradas, quem sabe entusiasmada pela textura das andanças de Kerouac. Após minha formatura nos Estados Unidos, fiquei seis meses nas estradas, de carro emprestado. Dormia em paradas de caminhoneiro, em albergues, ou acampava em parques. Essa história responde aquela tua pergunta sobre minha crise pessoal. A crise foi abençoada, pois para mim as crises indicam emergências espirituais, ou então campainhas te chamando para a hora de mudança radical: daquelas que faz você revisar todas as suas estruturas e crenças internas.

As crises são ótimas oportunidades de crescimento, transformação e evolução. Lástima que as pessoas e a sociedade contemporânea vêem a crise e fazem exatamente o contrário que ela pede: fecham os olhos, fingem que não é com eles e correm para a direção oposta.

Em uma de minhas peregrinações no deserto, tive um profundo sentimento de conexão com todo o universo. Olhei para minha fragilidade e brevidade como humana, diante do tempo e da força das rochas e cânions que estavam lá. Vi horizontes largos e senti a curva da terra, a beleza de tudo que via e sentia, a vida em sua plenitude. Fui preenchida de uma alegria difícil de descrever, e um sentido de que eu tivesse sido ampliada como ser, Como acontece nos momentos de realização espiritual. Fiquei inspirada pela magnitude do espaço. Lá, eu finalmente iniciei a ordenar meus caminhos internos. Até então, estava ainda com dúvidas em relação a espaços de trabalho e profissão. Naquele momento, ficou claro que tudo que eu fosse fazer teria que contribuir para a saúde de toda a comunidade da vida, que deveria envolver facilitar o caminho de realização das pessoas. Para dar certo, teria que ser belo, amoroso, e alegre, e envolveria um profundo cuidar do ser.

Léo: Você viajou bastante documentando projetos de sustentabilidade. Conte-nos quais foram os países e qual é a síntese desse trabalho?

Nicole:Viajei por vários países, mas na questão de sustentabilidade, gostaria de focar a história na India, onde passei a maior parte do tempo conhecendo e pesquisando diversos projetos com comunidades rurais, escolas alternativas, captação de água de chuva e compostagem em áreas urbanas, ecovilas, agroflorestas, bancos de microcrédito, e por ai vai. Meu percurso pela India foi o de conhecer a abrangência dos conceitos de sustentabilidade – isto é, o que os profissionais que atuam em projetos socioambientais entendiam por sustentabilidade, como e onde esse conhecimento estava sendo traduzido para ação. Conheci grandes esforços, como os projetos no Estado de Gujarat, como Utthan que trabalha a resolução de conflitos entre mulheres Muçulmanas e Hindus, através de mediação e acessibilidade dos recursos d’água e como Shrujan, que opera com diversas comunidades na geração de renda com trabalho de tecidos dentro do Fair Trade (mercado justo). Mas minha experiência mais profunda foi o trabalho voluntário em Ladakh, no Himalaya, perto da fronteira com Tibet. Lá tive a oportunidade de trabalhar n o ISEC (International Society for Ecology and Culture), uma ONG que promove soluções sociais, ambientais e econômicas com as comunidades locais.

Os Ladakhis são predominantemente budistas que se estabeleceram há mil anos e, apesar da hostilidade da região, aprenderam a viver em uma economia de auto-subsistência formada por estruturas econômicas, agrárias e sociais baseadas na adaptação com o ambiente de montanha. Esse experiência foi forte, pois aprendi das durezas, mas aprendi da infinita humildade, da conexão entre eles, da teia social absolutamente fortalecida, da ausência de violência nas comunidades, do senso de humor constante desse povo… Fiquei impressionada. Parte do meu trabalho lá, e na India, foi o de observar também os processos de globalização e seus impactos na economia, educação, agricultura, cultura, meio ambiente. Em alguns aspectos, pode se dizer que há avanços. Em outros, muitas complicações geradas pelo crescimento desacelerado sem tomar em conta medidas de sustentabilidade, da diversidade cultural e biológica, e da humanidade de cada.

A medida que a globalização “junta” as distâncias (através da mídia), abrindo um portal de possibilidade de comparação entre por exemplo, um indiano numa comunidade remota e um europeu, a tensão comunitária escala. A globalização é a linguagem da escassez. Na globalização cenários são criados sempre a partir daquilo que não temos – e essa linguagem no imaginário daqueles que “não tem” de acordo com os mercados globais e a ultima moda ociental, tem provado ser destrutivo.

Léo: O que é a Floresta dos Unicórnios? Missão, propósitos e planos futuros?

Nicole: A Floresta dos Unicórnios é uma Associação sem fins lucrativos, uma organização não-governamental (aliás, acabou de virar!) que surgiu de algumas vontades e visões de nossa família nuclear. Fomos inspirados a dar esse nome porque o unicórnio é o símbolo, em algumas escolas de sabedoria, da conjunção da mística com a ciência e da razão com a intuição. Nesse espaço nós criamos e incentivamos encontros de celebração humana, no intuito de estimular o contato com a beleza e a abertura para novas formas de aprendizado. Temos a missão de promover a educação biocêntrica, fundada na compreensão e no respeito por toda comunidade da vida, por meio de encontros, vivências e programas co-formativos e transdisciplinares na cultura, saúde integral, sustentabilidade e espiritualidade. Nós também somos licenciados pelo IBAMA como espaço conservacionista e acolhemos animais silvestres que são fruto do comércio ilegal. Trabalhamos em 4 eixos principais: Por falar em projetos e planos futuros para a Floresta dos Unicórnios, acho melhor deixarmos essa parte para depois, senão ficamos mais umas três horas para terminar!

Léo: Como é organizado o curso de Ecoformação. Proposta, Objetivos e quais os temas tratados?

Nicole: O Curso da ECO, nossa menina principal aqui na Floresta, é fruto de um sonho meu que iniciou naquele mesmo deserto que descrevi durante a minha emergência espiritual. Havia algo que me movia, maior do que eu mesma, que pedia para construir um espaço de educação transformadora que pudesse ampliar o olhar, o ouvir, o perceber humano, e que catalisasse um processo de mudança em cada ser humano que viesse participar. Esse curso/Percurso, iniciou somente há 2 anos atrás, com um grupo pequeno, singelo, com 5 meses de duração. Hoje, em seu terceiro ano, pelo sucesso, está com 10 meses de duração.

O curso é estruturado em módulos teórico-praticos de fim-de-semana, como imersões, onde abordamos um grupo de temáticas diversas co-relacionadas. Cada encontro/imersão, conta com 2-4 facilitadores. Utilizamos a metodologia transdisciplinar e a educação é fundamentada no compartilhar e na construção coletiva de experiências, sentimentos e saberes, integrando as ciências, o conhecimento ancestral, as artes e as diversas filosofias. A ECO trabalha a sustentabilidade a partir de várias óticas e temáticas com dinâmicas e trabalhos em grupo – o curso vai traçando sua trajetória também inserido nos eixos de saúde integral e cultura de paz (hoje não podemos falar de sustentabilidade divorciado dessas questões). O curso funciona como um organismo vivo, pulsante, que se faz e se refaz a cada encontro de cada turma, de maneira diferente.

Trabalhamos a transformação a partir da premissa de que para transformar, é necessário primeiro ser acolhido e saber acolher, se encantar e ter uma experiência de beleza pura. A palavra Kosmos do grego está relacionada com estética: harmonia, ajustado, belo, honorável.. referia também ao embelezamento de mulheres e a canções ou falas doces. A palavra que utilizamos hoje, “Universo”, não tem nenhuma implicação de beleza. Como já colocou o psicólogo James Hillman, se o nosso próprio Cosmo implica em beleza, então o modo primeiro de nos ajustarmos seria através do sentido de beleza. Precisamos voltar com o amor e o encanto para o mundo. E o que é o mundo externo a não ser o espelho de nosso universo interno?

A ECO esse ano está linda d com um corpo docente bem ampliado. Recomendo que as pessoas visitem a página especial do curso, onde podem encontrar um vídeo e mais informações:http://www.florestadosunicornios.com.br/eco/eco.html

Léo : O Que é a minhocasa?

Nicole : A Minhocasa é um sistema de compostagem com minhocas, doméstico e simples. Existem vários tipos similares. Porque minhocas? Porque as minhocas são verdadeiras “alquimistas”, como disse uma vez reitor da UNIPAZ, Roberto Crema, ao se deparar com uma que eu havia trazido para demonstração na pós-graduação. Elas convertem o nosso lixo orgânico em húmus, excelente adubo para plantas. Considerando que por volta de 60% de nosso lixo doméstico vem do lixo orgânico (restos de alimentos), a minhocasa é uma ferramenta interessante de ação sustentável, uma vez que encaminha o lixo para ser reciclado e transformado, e não para as lixeiras. O minhocário doméstico tem limitações de tempo de transformação do lixo, de capacidade, cuidados, e até alimentos que não se devem colocar no local. No entanto, ajuda a combater um problema enorme que temos hoje, como também, serve como uma ótima ferramenta pedagógica. Nos ensina a cuidar de uma comunidade da vida, nos mostra como funcionam ciclos da natureza, a interação entre espécies diferentes, uma boa nutrição, e o papel fundamental das minhocas na agricultura. Todos deveriam ter um minhocário em sua casa ou apartamento!

Léo: Tive a oportunidade de constatar que além de todos os seus dons, é também uma excelente cozinheira. Fale mais sobre isso, sua linha alimentar e aproveite para passar a receita daquela ótima sopa de bananas?

*Nicole*Comida é uma coisa tão fantástica! E é algo que pode trabalhar sentidos muito primitivos, como a gustação e o olfato. Eu sempre me encantei com essa alquimia para os órgãos, o coração e os sentimentos. Ficava entusiasmada pela possibilidade de criar misturas inusitadas e criativas. Tive um breve momento quando tinha seis anos que cozinhava com minha avó, inventando bolos (aquela mesma arteira que descrevi na minha infância), separado por uns 10 anos de nada de cozinha e de acreditar que não sabia fazer qualquer coisa que juntasse temperaturas, panelas e alimentos. Fui obrigada, durante meu terceiro ano de universidade, a cozinhar. No começo fiquei tímida, pois achava que até ovo frito seria uma batalha. Mas o negócio fluiu que foi uma maravilha, como se fosse natural. Fiquei com essa pulga atrás da orelha, de querer abrir um local de gastronomia criativa e excêntrica. Finalmente tive um espaço pequeno agora, na Floresta dos Unicórnios, onde decidimos harmonizar nossa gastronomia com os princípios de sustentabilidade, cultura de paz e saúde. Quando falamos nos impactos ao meio ambiente e nas pessoas, raramente relacionamos uma das atividades mais básicas do dia-a-dia que é a nossa alimentação. Nós não temos noção quantos impactos são gerados por aquilo que decidimos colocar no nosso prato. Sempre gostamos de colocar para os participantes dos eventos da Floresta, que comer é um ato ecológico, político, econômico e social.

Eu sou Associada e inspirada pelo Movimento Slow Food, nascido como resposta aos efeitos do fast food. Além de sermos vegetarianos pelos impactos ambientais, econômicos e de saúde que a indústria da carne causa (como também pelo respeito à comunidade da vida) oferecemos alimentos frescos, não industrializados e de localidade próxima. Buscamos celebrar as tradições culinárias regionais, e fazemos um alimento com amor e carinho, explorando paladares novos, para poder nutrir o corpo e a alma!

Agora, aquela sopa de banana…tem curso de culinária vindo aí! wink

Léo: Dê uma mensagem para o Povo do Xamanismo:

Nicole: Quem pratica o Xamanismo exercita o cuidar. Não podemos deixar de sermos cuidadores das nossas diversas casas (da terra, do corpo, do lar…). O xamanismo é verdadeiramente ecológico. Nos mostra a conexão entre todas as coisas. Nos abre a percepção da beleza, da graça e do sagrado no dia-a-dia.

Lembrem-se de viverem imersos na escuta ampliada, na plena presença, no amor, na doação, guiados e inspirados pela força dos animais. Quem sabe partilhamos a energia com os bichos para aprendermos o olhar de águia, o silêncio de onça, a brincadeira do macaco, a leveza do pássaro, o acolhimento do urso, a paciência e a compaixão da floresta!

Mais do que tudo, como já disse um bom amigo compositor meu, que também trilha pelos passos do xamanismo: “o amor é a medida de todas as coisas”.

ENTRE EM CONTATO

Envie um e-mail para a equipe do Site




©Desenvolvido por Agência Rumi

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?