Mistérios Elêusis

*Transcrevo partes do texto de Terence Mackenna, extraído do livro :

Alimento de deuses, editado pela Nova Era Elêusis

“A cada mês de setembro, durante quatro mil anos a mais do que a duração das civilizações da Grécia clássica e de Roma, um grande festival era celebrado na planície de Elêusis, perto de Atenas. Naquele lugar, segundo a tradição, a deusa Deméter reencontrara a filha, Kore ou Perséfone, que fora raptada para o mundo dos mortos pelo seu governante, Plutão. Essas duas deusas, algumas vezes parecendo mais irmãs do mãe e filha, são as duas grandes figuras ao redor das quais eram celebrados os Mistérios Elêusicos.

O festival dos Mistérios era feito duas vezes durante o ano ateniense : os Mistérios Menores, celebrados na primavera para dar boas vindas ao retorno da vegetação, antecipavam os Grandes Mistérios celebrados na época da colheita.

As telestérias (estruturas de culto) mais antigas são pré-helênicas: o nome Elêusis sugere a Creta pré-helênica; certos vasos de culto, os kernoi, e jarras de libação são comuns aos cultos elêusicos; a forma telestéria pode ser um desenvolvimento do chamado teatro minóico; o anaktoron é a mesma coisa que os repositórios cretenses e os chamados templos domésticos; as purificações dos cultos elêusicos vieram de Creta.

Apesar de Elêusis ter absorvido a atenção de muitos estudiosos, ainda não temos um conhecimento definitivo sobre o que, exatamente, dava ao Mistério tamanho poder sobre a imaginação helenística a ponto de, durante quase dois mil anos, literalmente todas as pessoas irem ao grande festival da colheita celebrado na planície de Atenas.

O poder dos Mistérios Eleusicos está no fato de que não possuíam dogmas mas, pelo contrário, envolviam certos atos sagrados que engendravam o sentimento religioso e nos quais cada época sucessiva podia podia projetar o simbolismo que desejasse. Os estudiosos ortodoxos. eles próprios não familiarizados com o poder transformados da realidade existente nos alucinógenos vegetais, caíram vítimas da atitude preconceituosa para com o êxtase, uma característica do academicismo patriarcal constipado, e ficaram perplexos com o Mistério

Há pouca dúvida de que, em Elêusis, alguma coisa era bebida por cada iniciado, e que durante a iniciação cada um via uma coisa totalmente inesperada, transformadora e capaz de permanecer como uma lembrança poderosa para o resto da vida.

É um testamento incrível da obtusidade dos eruditos da sociedade dominadora o fato de que somente em 1964 alguém teve a coragem de sugerir que uma planta “alucinógena”pudesse estar envolvida.

Essa pessoa foi o poeta inglês Robert Graves, em seu ensaio “Os Dois Nascimentos de Dionísio”.

Dizia-se que o segredo que Deméter mandou de Elêusis para o mundo, a cargo de seu protegido Triptolemos, era a arte de semear e colher cereais (…)

Há algo de errado nisso. Triptolemos pertence ao final do segundo milênio a.C. De modo que a novidade de Triptolemos não seria novidade (…) Portanto, o segredo de Triptolemos parece ser relacionado aos cogumelos “alucinógenos” e penso que os sacerdotes de Elêusis haviam descoberto um cogumelo alternativo ao “Amanita Muscária”um cogumelo que pudesse ser cozido em bolos sacrificais, moldado na forma de porcos ou de phalloi, sem perder seu poderes ´”alucinógenos”.

Esta foi a primeira de muitas observações que Graves fez sobre a tradição subterrânea do uso do cogumelo na pré-história. Ele sugeriu que Wassons visitasse Mazateca, no México, para evidência que apoiassem suas teorias sobre o impacto dos cogumelos sobre a cultura.

Graves acreditava que as receitas para a preparação da bebida ritual em Elêusis, segundo as fontes clássicas, continham ingredientes cujas primeiras letras podiam ser arrumadas para representar a palavra “cogumelo” – o ingrediente poético semelhante encontrado nas charadas e poesias irlandesas.

Talvez nunca conheçamos a natureza das plantas “alucinógenas” que estão por trás dos Mistérios de Elêusis, ou que levaram os celebrantes de Dionísio a um frenesi avassalador de se experimentar e apavorante de se ver. Graves, tendo aberto o caminho para a especulação da realidade botânica por trás do sacramento elêusicos teve o prazer de ver seu amigo Wasson seguir essa rota de pensamento recém-aberta com uma teoria corajosa e convincente.

A idéia de Wasson, desenvolvida em colaboração com seus amigos investigadores Alberto Hoffman e Carl Ruck e revelada numa conferência sobre cogumelos em São Francisco, em 1.977, era que Elêusis não passava de um rito de intoxicação visionária, mas os cogumelos não estavam diretamente envolvidos nele.

Wasson deu poder de convicção a muita coisa que anteriormente era obscura, argumentando que a fonte de intoxicação era uma cerveja ergotizada produzida a partir de uma variedade de fungo contendo ergotina.

São necessárias algumas informações prévias para apreciar a justeza dessa afirmação. Os cereais eram muito importantes no Culto de Elêusis. O Festival dos Mistérios era um festival de colheita, além da celebração de uma grande segredo agrícola e de um mistério da Deusa Mãe e de Dionísio. O Claviceps Purpurea pequeno fungo que infecta os cereais comestíveis, produz ergotina, fonte de poderosos alcalóides capazes de causar alucinações (além de provocar o ínício das dores do parto e de ter um forte efeito vasoconstritor)

A púrpura tradicionalmente associada ao Manto de Deméter pode significar a cor púrpura característica da sclerotia, a ergotina comercial. Defendendo sua teoria, Wasson e seus colegas escreveram :

“Sem dúvida o fungo da cevada é o provável ingrediente psicotrópico na preparação da poção elêusica.

Seu aparente relacionamento simbiótico com a cevada significava uma expropriação e uma transmutação adequada do espírito dionisíaco diante do qual o cereal, a filha de Deméter, se prendeu no abraço nupcial com a terra”.

A teoria de Wasson e Hoffman é corajosa e bem argumentada. Sem dúvida sua discussão sobre o escândalo ocorrido em 4l5 a.C., em que o nobre ateniense Alcibíades foi multado por ter o sacramento elêusico em casa e usá-lo para a diversão dos amigos, deixa claro até mesmo para o cético mais resistente que, qualquer que fosse o catalisador do êxtase em Elêusis, ele era tangível.

A noção de que os ritos elêusicos eram celebrados com cerveja ergotizada é totalmente coerente com a noção de que eles tinham raízes históricas na |Creta minóica. Em 1900, Sir Arthur Evans, escavando perto do palácio de Cnossos, desenterrou vasos adornados com espiga de centeio em relevo.

A partir disso ele conclui que algum tipo de cerveja havia precedido o vinho em Creta.

Kerényi acredita que o pequeno tamanho desses vasos indica que eram usados para um tipo especial de bebida feita com cevada – o “sacramento visionário” dos Mistérios de Elêusis – em ritos “alegadamente realizados sem segredo em Cnossos.

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