Oferendas à Mãe Terra e Pachamama – Mesa Andina Peruana

Oferendas à Mãe Terra e Pachamama – Mesa Andina Peruana

Menkaiká – Tatiana Meurer

Menkaiká é terapeuta xamânica, artesã e pesquisadora das culturas pré-colombianas e dos sistemas de medicina ancestral das Américas. Viajou para diversos lugares, como Inglaterra, Espanha, França, Escócia e Andes, buscando seu caminho pessoal e pesquisando as culturas locais

 

Mesa andina de oferendas

A “mesa” andina contém ao mesmo tempo o centro de uma cosmovisão ancestral e atual.

Os objetos são importantes no altar pessoal, são componentes de um centro de poder onde trabalhamos e plasmamos a energia mágica e mística. Os objetos rituais são como que portais que “enganam”, driblam, adormecem os filtros conscientes da mente para que se abra o coração e o espírito. Também são uma representação da nossa cosmovisão pessoal, e afinidade com determinado caminho com o qual trabalhamos. Conforme as tradições Q’eros, Zona de Cuzco, o Paqo, ou sacerdote andino, utiliza o que é chamado de “mesa”. É um pequeno pano tecido em cores, um têxtil de lã de lhama ou alpaca, aonde o xamã dispõe seus objetos de poder (pedras de cura, penas, folhas de coca, conchas, punhais, pedras de locais sagrados e até crucifixos, se trabalhar pela linha do sincretismo cristão). Místico e mágico se fundem na busca do ser humano em equilíbrio.

A mesa andina é “dividida” em três partes: o lado mágico, o lado místico e o centro. O lado mágico é o da prática mágica, dos feitiços, é o lado esquerdo, o feminino e está ligado ao mundo subterrâneo que é chamado Ukupacha, cujo animal de poder é a Serpente (amaru). O lado direito é o lado místico, o lado da devoção, de conexão com os deuses e é aonde se desenvolve o trabalho interior, de crescimento espiritual e de devoção. A este lado está associado o Condor(kuntur), ou também o Colibri(q’enti), que são os animais mensageiros dos deuses e que nos unem ao Hanan Pacha, o mundo celeste. Ao centro está o Kaypacha, ou mundo terreno, o mundo das energias em movimento, aonde o lado místico e mágico se fundem em perfeito equilíbrio. O animal de poder do Kaypacha é o Puma, que nos ensina a astúcia para atuarmos no mundo das energias em movimento. Outros animais reverenciados são a Lhama, a Alpaca e o Golfinho.

Oferendas à Mãe Terra e espíritos das montanhas

É na mesa que são armados os “pagos”, oferendas que são compostas geralmente por caramelos, incenso, tabaco, flores, vinho e cerveja. A principal oferenda ritual chama-se “k’intu” que são três folhas de coca. O conteúdo do pago é fechado em papéis coloridos e varia conforme a energia que queremos trabalhar dedicando-os à Pachamama ou aos Apus (que em quéchua significa “senhores”) que são os espíritos das grandes montanhas muito respeitados e invocados nos rituais. Entre os principais cerros estão: Salcantay, Ausangate, Putukusi, Machu Picchu, Huayna Picchu, entre outros. As oferendas são “passadas” nas brasas de uma fogueira ou então enterradas. O ato de oferecer é extremamente importante, pois é um ato de reciprocidade (ayni) que é a síntese da cosmovisão andina, do dar e do receber, do nutrir-se e agradecer, uma troca constante com esses espíritos que em um plano sutil atuam conosco para que possamos mover e atuar nos três mundos em sintonia e equilíbrio

Oferendas à Pachamama

Para os andinos, Pachamama é a Mãe Terra. A palavra “Pacha” originalmente significa universo, mundo, lugar, tempo, enquanto que “mama” significa mãe. É a geradora de abundância e de tudo que na terra existe. É a vida, as estações, a fecundidade, é o ciclo da vida, da morte, do renascimento.

O primeiro de agosto é o seu dia, quando, nesta ocasião, os andinos fazem suas oferendas. Normalmente, as oferendas são compostas de comida cozida, e enterradas próximo à casa., em um buraco feito na terra. Oferenda-se também tabaco, cerveja ou chicha, vinho, doces para alimentar e agradecer à Mãe Terra, além do tradicional k’intu que é uma oferenda formada por três folhas de coca (ou seis ou nove, ou mais, múltiplos de três), sendo que a maior folha é dedicada aos Apus, espíritos da natureza protetores representados nas montanhas e picos andinos. Os Apus (que em quéchua significa “Senhores”) são respeitados e invocados nos rituais. Entre os eles estão: Apu Salcantay, Apu Ausangate, Apu Willkamayu, Apu Sawasiray, Verônica, Putukusi, Machu Picchu, Huayna Picchu, entre outros. A segunda folha, mediana, é dedicada à Pachamama. E a terceira folha, de menor tamanho, representa a humanidade.

Diz a lenda que Pachamama aparece aos homens como uma velha e pequena senhora. Os estrangeiros que a vêem, segundo a lenda, jamais deixarão de retornar aos Andes.

Conectar-se com a grande mãe, é conectar-se com a abundância e alegria da vida.

Agosto é o mês de oferendas à Pachamama e podemos todos conectarmos com nossos irmãos dos Andes, e de todos os locais que um dia formaram o império inca do Tawantinsuyu. Dar de comer à Terra, com nosso agradecimento no coração, por tudo que recebemos e por tudo que doamos. Ayni, reciprocidade, compartilhar o que se é, conectar-se.

Segue abaixo uma forma muito simples de se fazer um “pago” ou “despacho” para a mamacita, que pode ser feita em qualquer momento que sinta necessidade. Embora existam muitas formas de fazê-lo, conforme as culturas andinas, como os kallawayas e os q’eros, o mais importante de tudo é nossa conexão e nossa intenção.

Fazer um pago, é um ato de conexão, de amor, de doação e de recebimento, bem como, é uma arte, uma mandala de cura. Cada item de um pago é rezado, carregado com nosso hálito, oferecido com o coração.

Material necessário para esta oferenda que estamos propondo:

  • 1 folha de papel de presente colorido
  • linha colorida para amarrar o pago
  • frutas secas(passas, ameixa), grãos, ervas, sementes
  • incenso ou mirra e benjoim(em grãos ou bastão)
  • flores(sugestão: 1 cravo vermelho e 1 branco, ou flores do campo coloridas)
  • papel para escrever ou desenhar
  • lápis de cor, hidrocor, caneta esferográfica
  • pedaços de papel de diversas cores(azul, amarelo, dourado, prateado, vermelho, etc)
  • caramelos(balas), confeitos coloridos
  • 1 concha
  • 2 sementes de guayruro (aqui chamada de olho de cabra, aquelas vermelhas com preto que podem ser adquiridas em casas de artigos religiosos)
  • folhas de coca ou então similar(como folhas de oliveira, louro, pois infelizmente no Brasil é proibido o uso da folha de coca, mas escolham folhas verdes em grande quantidade para oferecer)
  • tabaco
  • cerveja
  • pelo de lhama (pode-se substituir por algodão).

Obs. Evite oferendar folhas secas, ou alimentos estragados. Existem algumas mesas chamadas “negras” que utilizam-se disso com outro objetivo. Pachamama deve sempre receber o que há de mais alegre, delicioso e colorido.

*Como montar a oferenda:

Corte o papel de presente em formato quadrado, grande o suficiente para receber todos os itens. Com um chocalho, tambor, ou campanita(sinetinha), purifique o papel. Comece a colocar os itens, não esquecendo de carregá-los. O hálito é vida, e carregam-se os itens com nosso hálito. Cada item do pago deve ser carregado na palma de nossa mão, e sopramos eles com um hálito morno e lento, impregnando com nossa energia e nossa intenção. Coloque primeiramente a concha no centro do papel, representando o feminino, a água que é o sangue da terra. Depois, dentro da concha, arme o algodão ou pelo de lhama, que é nosso abrigo, nosso alento, a roupa que vestimos, que nos agasalha do frio e trás calor. Em cima, coloque duas sementes de guayruro(vermelha com preto), que representam o masculino e o feminino, o equilíbrio em nossas relações, de nossas polaridades, de nossa sexualidade. Com as folhas verdes de coca(ou substitutas), forme os k’intus. São vários conjuntos de 3 folhas, em múltiplos de 3, assim, você pode formar quantos conjuntos quiser(3, 6, 9, 12)…. para adornar seu pago. Vá dispondo todos os itens como um trabalho de arte, em forma circular.

Recorte pequenos pedacinhos de papel colorido, e escreva neles ou desenhe algum símbolo, como por exemplo um coração em um papel vermelho ou rosa, e carregue-o com seu hálito e sua intenção, o verde para saúde, etc etc…. vá representando todo seu ser e suas intenções, e seus agradecimentos. Peça a Pachamamama que atenda sua solicitação, pois é feita com o coração e com o mesmo amor que ela tem por cada ser vivo, seus filhos, sobre a face da Terra. Adorne com caramelos, confeitos muito coloridos, doces, perfumes, sementes, tabaco, as pétalas das flores, para compartilhar a alegria, a abundância que é uma dádiva para todos nós e que nunca lembramos de estarmos efetivamente conectados com a força que realmente nos provê a vida e a alegria. Ponha toda sua felicidade nesta oferenda, ela será recebida no ventre da Mãe. Após montar seu pago, encharque uma flor no perfume e borrife na oferenda. Antes de fechá-lo, toque a sinetinha, o chocalho, ou o tambor, cante para a Grande Mãe e peça que esta oferenda seja aceita. Por fim, dobre o papel, como um presente, e amarre-o com linha ou fita vermelha ou colorida. Faça a entrega do seu pago em um local tranqüilo, verde… abra um buraco na terra e enterre-o. Após enterrar, despeje a cerveja na terra e faça uma oração.

Para quem não tem afinidade ou disposição em fazer uma oferenda grande, o que importa não é a parafernália, mas sim o coração. Ofereça flores, ou faça o primeiro prato de sua refeição para Pachamama e entregue-o à Terra. Ou simplesmente ofereça-lhe um perfume, um incenso, um tabaco, eleve seu pensamento para aquela que está sempre ao seu lado, pois é no corpo dela que vivemos cada dia de nossas vidas.

Existem muitas formas de pagos. Nos Andes, é possível comprar todos os itens num mercado, porém nem todos estes itens são ecologicamente corretos(como imãs, e outros adereços de estanho e metal). Partimos do princípio que um pago (assim chamado, embora haja controvérsias a respeito do nome que se dá), é troca, reciprodidade. Entremos na egrégora planetária de Paz e de conexão com todos aqueles que comemoram este dia.

Para finalizar, lembremos que segundo nossos irmãos andinos Q’eros, as portas entre os mundos estão novamente se abrindo e este é um momento propício à exploração de todas nossas capacidades humanas. Recobrar a nossa natureza luminosa é hoje uma possibilidade para todos aqueles que se atrevem a dar um salto em suas vidas. Talvez não recebamos exatamente o que desejamos, mas certamente receberemos o que realmente precisamos.

Os incas nos deixam três fundamentais ensinamentos, traduzidos nas palavras em quéchua: Munay: amor. Llankay: trabalho. Yachay: sabedoria. Que aprendamos com os rios, com as montanhas, com as árvores, com os animais. Que aprendamos a ver com os olhos da alma, nos comprometendo com o essencial. Que nossas vidas sejam repletas de abundância, reciprocidade, amor, trabalho e sabedoria

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