Lúcio Mortimer

Como muitos jovens da geração paz-e-amor dos anos 60 e 70, o mineiro Lúcio Otávio Mortimer deixou sua cidade natal, Belo Horizonte, para conhecer o mundo viajando de carona e se virando criativamente, ao sabor do vento e de sua própria liberdade. Ao chegar em Rio Branco, muitos desses mochileiros, hippies ou bicho-grilos, como eram chamados, ficavam conhecendo o Santo Daime e alguns deles acabavam abandonando a vida na estrada paa morar com o padrinho sebastião na Colonia Cinco mil. Com o tempo, passou a existir ali até uma Casa dos Cabeludos. Lucio foi um dos primeiros dessa turma chegando à colonia em 1976 e se tornando um dos mais entusiasmados adeptos dos ideais comunitários do padrinho. lá estava ele também entre os primeiros a pisar no rio do ouro e no céu do mapiá, onde , durante muitos anos, foi o responsável pela venda de borracha e pela compra da feira que abastecia a comunidade – além de secretário do CEFLURIS, membro de seu Conselho doutrinário. ta,bém foi um dos mais entusiasmados animadores da criação da associação dos moradores da Vila e seu presidente por dois mandatos. para completar, era o locutor da Rádio Jagube, inaugurada em 1998: a voz da integração mapiense, que entrava no ar rodos os dias após a oração das 18 horas, levando a todos os lares as últimas novidades da vila. Era enfim, uma presença muito estimada, principalmente entre os jovens. Tudo isso, sem contar o seu hinário, entitulado Instrução, um dos favoritos entre daimistas do mundo inteiro.

Não foi fácil, portanto, para a irmandade segurar a tristeza quando Lúcio teve que parar com seu ritmo intenso de atividade e deixar sua amada floresta para se tratar em Belo Horizonte de uma leucemia. a doença acabaria levando-o embora em 11 de junho de 2.002, mas, enquanto resistia bravamente aos efeitos da quimioterapia, produziu e publicou dois livros : Bença Padrinho e Nosso Senhor Aparecido na Floresta. O primeiro conta a vida do padrinho Sebastião, enquanto o segundo mistura a história do mestre irineu com sua própria chegada à doutrina .

Trechos do Bença Padrinho: casamento do Padrinho Sebastião e Madrinha Rita

Capítulo 3 – 1ª Parte : O Casamento

Um tempo passado já bem distante. Um tempo em que o vigor da juventude conforta as lembranças mais duras de um período de muitas provas. No seringal Adélia todo imigrante nordestino era chamado de “arigó”. Este termo pejorativo significava “aquele que não sabe nada da Floresta”. Arigozinho esperto era o “Nel”. Gostava de estar entre os nativos, ouvir casos de caçada e prestava toda a atenção quando o assunto era nome de madeiras para as diversas partes da casa: esteio de intaúba, quari-quari ou canelão que duram enfiados na terra. As linhas podem ser de macucú, louro ou envieira, madeiras que não se acabam estando ao abrigo do tempo.

Um dia, já entrosados com os veteranos, levou o “Bastião Mota” para visitar sua casa, sem nem saber que o mesmo já tinha botado os olhos em cima de sua irmã, Rita.

O convidado fez tudo para agradar a todos. Conversava com muito desembaraço, parecia até um velho amigo da família. Foi aí que Rita se encantou. Até aquela data tinha uma “cisma” com os amazonenses. Ela os achava grosseiros e sem graça, mas o filho do vizinho Manuel Mota, era diferente.

Naquele dia Sebastião saiu cheio de esperança. Não tivera a oportunidade de se declarar apaixonado, mas na hora que os olhares se encontraram, sentiu o primeiro momento de um amor que nunca mais acabaria.

Rita também ficou tocada, mas procurou não dar demonstração para os familiares. É inegável que ficou mais curiosa a respeito do companheiro de trabalho do irmão, e fazia perguntas “jogando verde para colher maduro”.Naturalmente o namoro aconteceu. Mais uma visita e no momento certo, de uma ocasião a sós, o pedido se formalizou.

Daí para frente se sabe: muito enlevo, muitas juras de amor, algumas pequenas cenas de ciúmes, tudo isto que faz parte de um tempo de namoro. O futuro sogro, “seu” Idalino, era homem de respeito. Pessoa muito religiosa. Sebastião tinha curiosidade com a religião e escutava com prazer as explicações bíblicas passadas por ele.

“Dona” Maria, a sogra, não lhe poupava atenção. Com todo carinho servia o café e outros agrados, deixando-o bem à vontade. Ao anoitecer, reunia-se a família para as preces da tarde. Desde o Rio Grande do Norte eram crentes. O pai Idalino tinha uma boa voz e sabia muitos hinos que cantava neste ritual caseiro. O namoro era depois da oração. O eleito de Rita caiu nas graças de toda a família Gregório. Passado um ano começaram a pensar mais seriamente no casamento.

A vida de seringueiro é muito simples: não precisava comprar casa nem móveis. Se na “colocação” de seringa não houver moradia, o negócio é ir na Floresta, tirar os barrotes, esteios, linhas, caibros, cobertura de palha, paredes e assoalho de paxiúba. Dois homens em pouco mais de uma semana fazem um boa barraca de oito metros de comprimento por quatro de largura. A mobília era no máximo uma mesa rústica na cozinha e alguns bancos. Uma boa rede e mosquiteiro e a casa está completa. Tudo foi sendo providenciado de acordo.

Uma vez por ano, no tempo dos rios cheios, provavelmente no mês de abril, acontecia a chamada “desobriga”. Saía o padre na cidade de Eurinepé e ia em peregrinação de seringal em seringal até chegar ao município de Cruzeiro do Sul. Nas diversas paradas aconteciam missas, confissões, batizados e casamentos. Foi neste “dia do padre” no seringal Adélia, no ano de 1946, que Sebastião e Rita selaram seu compromisso de viverem juntos para formar uma nova família. Ela estava muito bonita, irradiando o frescor dos vinte anos, vestida de branco e na mão um buquê de flores que é o símbolo da esperança de um vida alegre. Ele também caprichou estreando uma camisa de manga comprida e um novo par de botas. Na época tinha vinte e seis anos.

A mesma cerimônia foi compartilhada por mais três casais. Raimundo e Francisco Mota e um outro arigó. Os quatro foram abençoados de uma só vez e num só dia o velho Manuel Mota casou três filhos. Se fôsse casamento de gente rica haveria muitos festejos e uma longa lua-de-mel. Mas a realidade não era esta. Logo em seguida os nubentes fizeram uma viagem de dois dias a pé para chegarem na “colocação” de seringa onde Sebastião trabalharia.

O ano de 1946 não foi bom para os seringais. O preço da borracha despencou. O fim da Segunda Guerra Mundial restabeleceu o equilíbrio do mercado e a produção da Ásia voltou a bater na nativa, jogando os lucros para baixo. Os seringais voltaram ao processo gradual de decadência.

Para dar conta de uma família e ter um pequeno “saldo” era preciso uma jornada de trabalho extenuante. Sebastião e Chico Mota casados no mesmo dia foram juntos para a distante “colocação” onde enfrentariam os desafios da nova vida. O seringueiro começa sua atividade às quatro da madrugada e às vezes entra pela noite pois além do corte e da “colha” da seringa tem que defumar o látex para fazer as bolas de borracha, conhecidas por “pelas”. As sobras do dia são usadas para cuidar do roçado, pescar e caçar.

O homem passava o dia fora de casa. A mulhar tinha muitas tarefas caseiras mas sempre que podia ajudava no roçado e nas pescarias. A vida era dura, mas a Floresta com seus primores confortava. O “igarapezinho” de águas claras, a alegria dos pássaros, o multicolorido das borboletas, tudo inspirava e completava o amor do jovem casal.

Agora Sebastião estava com os ânimos redobrados e não se poupava. Precisava produzir muitas “pelas”. de borracha. Dentro de mais algum tempo nasceria o primeiro filho.

Para Rita, o ato de esperar preenchia todos os seus momentos. Tudo era para ele: o repouso, a alimentação, costurar as roupinhas e até o cuidado de criar uma ninhada de pintos para ter os franguinhos de primeira pena na dieta do resguardo.

O dia chegou, era sete de dezembro de 1947. Tudo estava providenciado. Com o apoio da carinhosa mãe e da velha e experiente parteira, nasceu um menino. Para ele, que era tão especial, um nome diferente, raro e com muita sonoridade: Valdete, cidadão brasileiro, amazonense do Vale do Juruá.

Seguiram-se os quarenta dias do resguardo, cumpridos à risca. Alimentação leve e repouso. Nada de carne de caça “reimosa” como paca, tatu, anta, veado roxo, etc. Permitido só o veado capoeira e alguma “embiara” (da família das nambús). O cuidado também se estendia aos peixes, evitados todos os de couro como o pirarucu, surubim, malpará, etc., só os de escama e demais detalhes.

Deus tem os seus desígnios. Veio o segundo, João Batista, que faleceu em seguida. Enquanto isso, Valdete andou, falou e quando já corria pela casa veio o terceiro filho. O nome escolhido foi Valfredo. Mas quando se fez o registro, o escrivão achou que havia um “V” sobrando e simplificou para Alfredo. Duas crianças e mais dificuldade pela frente. O preço da borracha teve nova recaída e a vida no seringal estava quase impraticável: muito trabalho, pouco dinheiro e uma carestia medonha.

Comentários se ouviam dando conta de mais facilidades no Acre. Um dia chegou a notícia que os seringais em volta de Rio Branco estavam sendo repartidos em pequenas glebas, dando oportunidade de assentamento para muitos colonos.

A família Gregório, quando saiu do Rio Grande do Norte planejava ir direto para o Acre. Porém a viagem se tornou uma verdadeira epopéia. Durante mais de um mês centenas de pessoas se apertaram dentro de um navio de guerra. Quando a noite chegava era severa a proibição de produzir qualquer faísca. Todos calados e no escuro, a qualquer momento poderia aparecer um submarino inimigo para bombardear os soldados da borracha. Os nordestinos viajavam com grande desconforto e apreensivos.

O filho caçula de Idalino, João Batista, de sete anos, quando saiu de casa estava magro mas tinha saúde. A precariedade da viagem o atingiu de cheio. O menino adoeceu do fígado, perdeu o apetite, ficou pálido, o que botasse no estômago logo “provocava”. Muito sofrimento e apreensão para toda a família. Quando finalmente chegou em Manaus, local da troca de embarcação, o menino não resistiu mais. Faleceu no exato dia da viagem para o Acre. Não teve jeito, a família ficou e só Francisco, o mais velho dos homens, seguiu.

Foi neste momento que apareceu Adílio Maciel, filho do dono do seringal Adélia, que convidou Idalino e seu grupo a mudarem a rota para o Juruá, pois a saída de outro barco para o Acre iria demorar mais de mês. Antônio que era filho do primeiro casamento de Idalino, resolveu ficar em Manaus, e nunca mais tiveram notícias dele.

Passados mais de cinco anos no Juruá, resolveram retomar viagem no rumo do Acre depois de receberem a carte de Francisco animando-os para a empreitada. Todos se foram, menos Rita que agora era Gregório de Melo, pois Sebastião, amazonense nato, esperava mais de sua terra. Este foi o tempo mais difícil para o casal. Passaram-se os encantos. Ele se tornara impaciente, vendo tanta luta e pouco resultado. Sempre fora muito sincero, incapaz de esconder os sentimentos. Agora andava mal-humorado.

Ela mesmo saudosa dos parentes tinha muito o que se ocupar com os filhos e estava sempre recomendando calma e paciência. Como a natureza é pródiga, nasceu mais um filho. Batizado como Ivanildo.

Problemas. Dificuldades, insatisfação era agora o quadro familiar. “Dona” Vicença, mãe de Sebastião, também vivia um tempo duro, assolada por problemas psíquicos atribuídos à sua forte mediunidade não trabalhada.

Foi neste clima apreensivo que chegou a notícia de um curador. Tratava-se de Mestre Oswaldo, que vivia a alguns dias dali. Dizia-se que o homem era poderoso pois trabalhava muito bem na linha espírita, tendo curado muita gente. Esta notícia deixou Sebastião edificado. Só de ouvir falar do homem sentiu os cabelos arrepiarem, na mesma hora decidiu procurá-lo. Combinou com a mulher e o irmão Chico, se informou dos detalhes e partiu nesta busca. Nos seringais, remédios alopáticos eram raros. De médicos nem se falava. Os males do corpo se resolviam com os rezadores e as ervas. Problemas psíquicos só em trabalhos de banca espírita, o que era bem raro naquelas bandas.

A viagem durou quatro dias, vencidos no remo. Mas finalmente se chegou ao porto destinado. Ao subir o barranco, via-se que ali morava um homem de verdade pois era admirável o zelo e a limpeza do terreiro, com canteiros de flores e bancos bem colocados, permitindo um belo visual do rio. “Está muito bom!” foi a resposta, “já esperava por ti, seja muito bem vindo. Acabe de chegar, você merece um repouso, a casa é sua!” Mestre Oswaldo tinha uns sessenta anos, estatura média, magro e de pele bem escura. Era paulista de origem e não se sabe como foi parar naquelas alturas do Juruá. Corria o ano de 1955.

Existem momentos na vida de uma pessoa que são decisivos e inesquecíveis. Às vezes um simples encontro pode trazer grandes transformações. Quando um discípulo encontra seu mestre se cria uma corrente de amor. Um tem a alegria de ensinar e o outro a de aprender. Assim aconteceu e estes dois homens tiveram uma grande interação.

Oswaldo era completamente dedicado ao trabalho de caridade cristã. Recebia doentes, rezava e receitava ervas. Em certas ocasiões especiais com alguns outros médiuns vizinhos que ele havia preparado fazia trabalhos de mesa branca onde espíritos de médicos e outros eram chamados para resolver os casos mais difíceis. Sua casa era muito frequentada.

Sebastião desde criança tinha uma grande busca espiritual. Tinha sonhos revelatórios e algumas visões estranhas quando solitário andava pelas matas. Nos últimos anos o vazio espiritual lhe acarretava dúvidas, angústicas e sofrimentos.

Tinha realizado o sonho de um bom casamento com filhos mas isto não era mais suficiente. Queria muito mais e nem sabia direito o que era. Mestre Oswaldo detectou logo a fonte de tantos problemas. “Você é um médium. Precisa trabalhar e desenvolver este dom. Eu posso ver muito mais e por isso lhe garando: você tem uma missão e veio ter comigo não foi por acaso. Eu lhe ensinarei muitas coisas e você vai além de mim, se Deus quiser!” Passados mais uns dias, em que os dois se empenharam em deixar todo o serviço da colônia adiantado, tomaram o rumo do seringal Adélia para atender “dona” Vicença que foi o motivo da viagem.

A chegada do curador atraiu muita gente da vizinhança, principalmente depois do “trabalho de mesa” em que a dita senhora teve um grande alívio em seu padecer. Desde este tempo a casa de Sebastião e Rita não parou mais de receber gente doente, principalmente crianças e recém-nascidos. Na tenra idade, estão sujeitos à influências de olhares de certas pessoas, que mesmo involuntariamente colocam “quebrante”, isto é, entristecem o inocente que passa a ter crises anormais de choro, falta de apetite, dor de barriga, etc. “Quebrante” é mal que só se cura com rezas.

Durante a permanência de Oswaldo, a dedicação ao aprendizado na arte de curar foi total. Mesmo trabalhando no “roçado” a cabeça estava ocupada e surgiam as perguntas relativas ao espiritismo, aos rituais, etc. Já que tinha este dom divino, era preciso caprichar para ser cada vez mais merecedor, pensava “Bastião”. Desde este tempo mestre e discípulo se revezavam nas visitas.

Com mais algum preparo, Sebastião passou a incorporar o espírito do médico, já desencarnado, Dr. Bezerra de Menezes e do Prof. Antônio Jorge. A qualidade de seu trabalho de cura ganhou maiores dimensões, podendo ajudar mais gente.

Nesta missão não se conta com dinheiro. O dom é dado de graça e de graça ele recebia, hospedava e alimentava quem batesse a sua porta. A mesa era farta. Aquele homem antes atribulado, havia cedido lugar a um empenhado curador. O bom astral voltou a reinar e Deus premiou o casal com mais um filho: Pedro Mota. Era o décimo primeiro ano de casamento. O padrinho de batismo foi o querido Mestre Oswaldo. Ele ficou muito feliz com a deferência e disse que o menino era seu também e que sempre olharia e rezaria pelo mesmo.

Quando um discípulo aprende a caminhar com seus próprios pés é hora de iniciar sua missão propriamente dita. Um dia, o agora compadre Oswaldo, circunspecto e solene chamou Sebastião para mais algumas instruções. Nesta ocasião anunciou-lhe que era chegado o tempo de alçar vôo. Como diz o ditado: “Santo de casa não faz milagre!”, Sebastião nunca havia saído da área do Juruá. “Vá para o Acre, lá descobrirá muito mais coisas pois a vida está pulsando mais forte naquelas bandas!”

Que notícia auspiciosa para Rita! Finalmente iria rever os pais, irmãos e os novos sobrinhos. O seringal não oferecia mais perspectivas de progresso para uma nova família. Já eram quatro meninos que mereciam uma vida melhor. Pelo menos estar mais próximos da cidade, com mais recursos. Sem pressa, resolvendo as pendências, ajuntando o dinheiro possível, começaram os preparativos para a viagem. Era preciso uma nova canoa para vencer o Juruá até a cidade de Cruzeiro do Sul, pois a velha já “fazia um pouco de água”. Também era vantagem ter uma canoa para ser negociada no final da viagem.

Sebastião foi para a mata, escolheu uma “intaúba” bem grossa e madura. Meteu o machado e com quinze dias de muito suor derrubou, cavou, talhou, queimou e abriu com perfeição uma nova canoa. Colocou quilha, obras bem feitas de proa a popa, e bancos largos. Entalhou mais dois remos e ela ficou lá no porto balançando ao sabor das águas esperando o dia da partida…

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