Linguagem indígena do corpo

Rosane Volpatto

O corpo é um dos meios que definem a nossa individualidade social e étnica. Por isso, o corpo através de vestimentas, adornos, tatuagens, comunicam mensagens, falam.

Os índios encontrados pelos portugueses à luz do descobrimento estavam nus. Este nativo brasileiro, no seu estado de pureza, desconhecia o pudor, tomada esta palavra na pura acepção adotada pelo homem branco.

Precisando viver identificado com a selva, sente que o estado de nudez o tornava mais saudável, evidentemente mais forte, apto para subsistir e vencer os obstáculos naturais. A ausência de vestes, emprestava ao indígena a grande fortaleza física que o acompanhava sempre. O corpo nu, recebe melhor a ação dos raios solares e deles absorvem elementos que se considera essenciais a vida.

Vivendo sempre nus, os índios brasileiros, quando acontecia de usarem tangas, coberturas, seja entre a região do peito ou do joelhos, seja da cintura as coxas ou ainda, no espaço pubiano, o que se verificava, particularmente, entre as mulheres, o faziam por imitação direta ou das tribos que já se vestiam por terem convivido com o branco. Mas, não era o pudor instintivo que os obrigava e vestirem-se.

Algumas tribos cujas mulheres adquiriram o hábito de vestir-se, parcialmente ou por inteiro, o faziam por pura vaidade, como as índias “caudieu”, da tribo “guaicurú-caudieu”, que se habituaram a enrolar parte do corpo com faixas de algodão, comprimindo os seios como se vestissem uma túnica.

Dos tupiniquins, os primeiros índios avistados pelas naus de Cabral, ficou a descrição de Caminha:” A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bom rosto e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma. Nem faziam caso de encobrir suas vergonhas do que mostrar a cara”. Jean de Lery, pouco depois, escreveria sobre os tupinambás e goitacás:”Tanto os homens como as mulheres se apresentavam nus como quando saíram do ventre materno”.

O homem e a mulher indígena, viviam nus na sã exibição da forma em que foram moldados, sem que o estado de nudez provocassem neles sentimentos impuros. A força de atração que a índia exercia sobre o índio, naquela época, não dependia da quantidade de panos que lhe podiam ocultar o corpo.

Embora andassem nus, os índios pintavam seus corpos, que funcionavam como um verdadeiro código social, pois cada uma delas indicava uma situação ou estado de espírito: guerra, nascimento de filhos, luto, ritos etc. Para todo aquele que conhecia tais códigos, eles diziam mais do que qualquer outra vestimenta. Igualmente, facilitava a comunicação entre tribos que não falavam a mesma língua.

Em alguns costumes indígenas, os cintos, colares, penas, tangas e outros acessórios que o índio usava, agiam como elemento de sedução, de atração, nada a ver com pudor, propriamente dito, qualquer que seja a região anatômica sobre que esses enfeites repousem. Quando o índio encobria a glande ou todo o órgão de reprodução, ele estava se enfeitando para melhor despertar o curiosidade, o desejo da companheira. A mulher, igualmente, desde que não obedeça a imposições rituais, cobre-se para se fazer desejada. No âmbito da sedução e do domínio do corpo, este nexo social também era evidente nas pinturas usadas pelos jovens indígenas em seus bailes noturnos de caráter orgiástico e lúdico.

Em relação as práticas bélicas o corpo apontava diversos objetivos. Assim, os guerreiros escarificavam o peito, os braços e as pernas para transmitir atributos de animais cujos os ossos eram usados como escarificadores. Entre estes se preferia a de avestruz, por sua força e velocidade. A escarificação, portanto, implicava na apropriação das características dos animais, potencializando a capacidade bélica. O corpo se constitui deste modo, um veículo de transformação de poderes e for’ças naturais em humanas.

A guerra envolvia também a prática do “scalp” (corte do couro cabeludo) e a apropriação de crânios. Os couros cabeludos eram guardados como troféus pelo guerreiro, que demonstravam seu valor e habilidade. Da cabeça só se conservava a calota, que era usada para beber em cerimônias religiosos. Estas ações permitiam que o guerreiro incorporasse o poder do oponente, neutralizando a possibilidade de vingança do morto.

Do exposto se deduz, que o corpo pode ser, mesmo nu, radicalmente transformado e conecta o indivíduo não só com outros humanos, mas também com seres míticos, convertendo-se em receptáculo de poder.

Na nudez o índio exprimia a castidade sem malícia, da qual se afastaria, gradualmente, na convivência com o homem branco. Pois, sabe-se que o pudor não é instinto, vem de fora para dentro e, é coisa adquirida, ensinada, aprendida. Já dizia um velho sábio, que nascemos puros e originais, mas morremos cópias do meio-ambiente e de nosso aprendizado. O nu será sempre moral e nós é o que desvirtuamos emprestando sentimentos impuros à obra da natureza. Em nossa civilização seria um absurdo combater o uso de roupas, até porque seria um atentado ao pudor, punido criminalmente, mas para os índios daquela época era um erro forçá-los a adotá-la. A crônica e relato de etnólogos contam episódios de índios e índias que, afastados da aldeia e seduzidos pela vida da cidade, nela cresceram e educaram-se, adotando o uso de vestes, até que a saudade ou o destino os devolvia novamente, no limiar da selva. Neste dia, em que a sedução e a voz da Grande Mãe Terra se fazia ouvir mais forte, abandonavam os atrativos da civilização. Então, arrancavam toda a indumentária representativa do pudor, dela se despedindo sem saudades, pois para retornar ao seio da natureza, o índio deveria se apresentar no esplendor da nudez que nela viveu. Antes de possuí-la novamente, o índio faz o ato de renúncia e regressa à amplidão da selva nu como dela partiu.

Hoje os índios usam roupas, possuem carros, portam celulares e falam fluentemente português. Perfeitamente adaptados a vida urbana são universitários, professores, jogadores de futebol entre tantas outras profissões. Mas o que é mais importante: continuam sendo índios, não perderam sua individualidade. Mesmo utilizando toda a tecnologia moderna e não vivendo mais em selvas, não deixaram de ser o que verdadeiramente são: bravos guerreiros índios, que buscam o resgate de sua própria identidade. Ao restante da sociedade, cabe o discernimento de reconhecer nos povos indígenas atuais, não como remanescentes de um valoroso passado, mas sim como um povo merecedor de nossa admiração e respeito.

A sua luta, é nossa luta, somos todos filhos da mesma terra, portanto, empunhamos a mesma bandeira, assim como nossos corações-irmãos pulsam uníssonos.

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