Uso da Jurema nos rituais indígenas

O xamã nativo como herói cultural, Jurema como mãe eterna

As espécies botânicas conhecidas como Jurema são tidas como os seres divinos por abrirem os portais de mundos desconhecidos para aqueles que a utilizam. São mais de uma as plantas do mesmo nome, sendo que cada espécie varia em termos de potencialidade na indução de visões meramente psicodélicas. Mas não estamos falando apenas das visões, mas do contexto cultural que organiza e codifica as visões, ou seja, que dá sentido ao próprio corpo de visões permitidas pela ingestão de algumas destas espécies.

É nos sertões nordestinos onde encontramos a variadades das espécies conhecidas como Jurema: dos gêneros Mimosa, Acácia (Mimosa hostilis, Acácia hostilis, Mimosa nigra, Acácia jurema). Popularmente são conhecidas como jurema branca ou jurema de oeiras (Mimosa verrucosa), jurema vermelha (Pithecolobium diversifolium), jurema preta e jureminha. O nordeste é também onde se encontram as comunidades indígenas que estabeleceram rituais para o uso e significação do uso das juremas. Para estes grupos, jurema é a divindade criadora, o ser superior, o olho que tudo vê, que dá lições, que traz a sobrevivência das tribos. Por isto mesmo, tem que ser apropriada de forma cuidadosa, dentro dos preceitos elaborados pela comunidade dos usuários, sendo esta presidida pelos xamãs e seus auxiliares.

O uso da jurema, ou juremas, se dá no contexto de rituais de afirmação das etnias indígenas nordestinas, estando vinculado, em alguns casos, a segredos tribais, para afirmação e proteção das comunidades usuárias. Isto em parte se dá como resultado da verdadeira perseguição que os indígenas tiveram que suportar a seus cultos durante a catequese nas aldeias de missões e, posteriormente, quando os nativos tinham que esconder e negar seus rituais e seu status de nativos. A jurema dos índios nordestinos é, portanto, um sacramento já que as pessoas têm experiências diretas do divino mediadas pela planta mestra e orientadas pelos pajés.

Tais rituais sagrados centrados na jurema têm como ponto comum a dança ritual do toré. Como disse Edward Reesink, o ritual do toré religa o caboclo nordestino à sua origem indígena, reconstituindo o laço essencial com sua ancestralidade. O toré atualmente é um sinal para a construção e manutenção da identidade indígena, que é tão questionada naquela região, devido aos 500 anos de contato com a civilização através do processo da colonização. Creio que imitar os índios, ou restabelecer novos grupos extra-indígena baseados no toré tradicional e no usa da jurema, trata-se tão somente de uma nova forma de colonização, de apropriação de bens culturais para outros fins que não os de sobrevivência das comunidades indígenas.

Os rituais ligados ao corpo de saberes sagrados, e, portanto, misteriosos, constituem a “ciência do índio”, fazendo parte dos marcadores da oposição entre brancos, colonizadores europeus, índios nativos etc. É esta uma das razões para a manutenção, entre várias tribos nordestinas, de um “segredo tribal”, que toma lugar durante os retiros religiosos, conhecidos como ouricuri, quando as comunidades se unem para garantir sua continuidade em todos os níveis: biológico, econômico e ideológico.

Marco Tromboni Nascimento, em sua tese de mestrado em sociologia, O tronco da jurema: ritual e etnicidade entre os povos indígenas do nordeste – o caso Kiriri (UFBA, 1994: 80), coloca que: “os indígenas do nordeste, aqueles que continuam a insistir em tornar reconhecida sua alteridade étnica, ainda acreditam saber muito bem como ter acesso aos mistérios do verdadeiro ‘tronco da jurema’ e, firmados nessa fé, continuam a se sentir índios de pleno direito”.

Parte deste segredo é a composição da bebida consumida durante os rituais: qual espécie é usada e que parte da planta é usada (caule ou raiz?). Por estudos farmacológicos já realizados, sabemos que a jurema preta (Mimosa hostilis, Mimosa tenueflora) contém um alcalóide – a dimetiltriptamina – que não teria efeito neurológico se passar pelo trato digestivo, a menos que haja a associação com outras plantas, que sejam inibidoras da enzima que neutraliza a dimetiltriptamina. Então, ao suco extraído do caule ou da raiz da jurema preta, há que se juntar o suco de alguma outra espécie. Os psiconautas europeus e norte-americanos adicionam a Peganum harmala, usada na área de terapia transpessoal. Mas algumas tribos nordestinas usam o manacá (Brunfelsia uniflora), ou o maracujá silvestre (Passiflora), sendo que também declaram não adicionar nada.

De qualquer forma, sempre há variações nas práticas da festa ritual e também nas relações que se estabelecem com a jurema. Dizem alguns que a ingestão da jurema nem é fundamental para o processo de contato com o mundo dos encantos, ou dos espíritos, das matas, pois este contato pode ser obtido inclusive através de sonhos. Ao tornar-se um “caminhante” e “sonhador”, o adepto da jurema se inicia nestes caminhos, podendo trilhá-los mesmo sem o consumo da bebida, pois a energia espiritual da planta permanece com o iniciado nos mistérios. O importante para se chegar a experenciar as visagens é que a pessoa esteja desenvolvida, ou seja, que tenha adquirido uma sensibilidade especial. Por outro lado, tal experiência está envolvida na prática ritual estabelecida em comunidade, no seio de uma cosmologia compartilhada pelo grupo. O requisito básico para o êxtase e a visão proporcionada pela jurema é a fé incondicional na ciência do índio, é estar “regimado na ciência”, como membro do ouricuri, portanto, como membro de uma etnia indígena.

Os ritos em torno do consumo da jurema, portanto, auxiliam na transformação de uma autoconsciência individual colonizada, e, conseqüentemente, prejudicada em sua visão de si, numa consciência de grupo social que se beneficia de um segredo ritual. Este segredo lhes confere poderes mágicos, assim como uma autenticidade comunitária, fornecendo credibilidade para o indivíduo inserido no grupo e certamente para o grupo como um todo. Este segredo está relacionado com a idéia de força, ordem e com ser positivo. Esta relação mútua entre plantas e os nativos recria não só a etnia como seu espaço territorial, dá substância e credibilidade à sua existência enquanto nativos, e não como simplesmente habitantes de uma aldeia ou trabalhadores rurais.

Como não estou formalmente autorizada para falar da jurema em toda a sua complexidade, pois não tenho permissão, paro por aqui. Só fui autorizada para falar o que disse até o momento. Acho importante chamar Wyannã (*), índio Kariri Xocó que está na platéia. Ele, como integrante do grupo indígena, tem autoridade para falar sobre jurema.

Obrigada.

(*) Clarice Novaes da Mota nasceu em Recife, Pernambuco, a 8 de março de 1943. Ingressou na ex-Universidade do Brasil em 1963, curso de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Participou do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação, tendo sido treinada pelo Prof. Paulo Freire. Viveu no México em 1964. Nos Estados Unidos em 1965, ingressou na Temple University, formando-se em Psicologia em 1969. Fez Mestrado em Antropologia Social na New School for Social Research, obtendo o grau de Mestre em 1977. Foi professora de antropologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 1979 a 2000. Obteve o grau de doutor em Antropologia Social pela University of Texas at Austin, em 1987, com bolsa de doutorado pelo CNPq. Publicou os livros: Jurema´s Children in the Forest of Spirits: ritual and healing among two Brazilian indigenous groups (Londres: Interme-diate Technologies Publications, 1997) e As muitas faces da Jurema: de espécie botânica à divindade afro-indígena, com Ulysses Paulino de Albuquerque (Recife: Bagaço, 2002). Tem vários artigos publicados em livros e periódicos. É também ex-presidente da Associação Nação de Jurema. clarice@infonet.com.br

(**) A mesa redonda foi idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo.

(*) Wyannã, homem de cura e mestre de canto, da tribo dos Kariri-Xocó, traz a cura através de seus cantos nativos, de seu conhecimento de ervas e danças sagradas. Durante algumas temporadas no ano, faz vivências e atendimentos no Filhos da Terra. Núcleo de Estudos e Terapia, em São Paulo (SP).

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