Nádia Stepanova, a invocadora dos deuses

Nádia Stepanova, a invocadora dos deuses

“ Como xamã sou obrigada pelos Deuses a ajudar os homens e por este motivo recebi o dom da visão, a possibilidade de se comunicar como os Espíritos e a capacidade de curar. “

Nádia Stepanova

A República da Buriátia, cuja capital é Ulan-Ude, se localiza entre o Lago Baikal e a Mongólia, na Sibéria meridional. Os Buriatos, aparentados ao tronco mongol – como língua, história e economia – habitaram a estepe e a taiga siberiana, pastores nômades dedicados `a criação de ovelhas e cavalos e caçadores, muito antes da chegada de Genghis Khan no século XIII. A Buriátia é de fato uma terra muito antiga, lugar de origem do xamanismo que apareceu na aurora do gênero humano.

No século XVII foi colonizada pelos russos `a procura de ouro e peles, mas somente com o advento da ferrovia transiberiana um número considerável deles se estabeleceu nesta área, e sua chegada contribuiu para a adoção de um estilo de vida sedentário baseado na agricultura. A Buriátia submete-se inclusive a um processo de “ russificação “ *, evidente na adoção da língua, paralela `aquela original buriata e conhece a influência de uma outra grande cultura: O Budismo Tibetano vindo da Mongólia. Atualmente a população, cerca de um milhão de habitantes, professa seja a religião originária xamânica seja o cristianismo ortodoxo russo e o lamaísmo tibetano.

Introdução ( por Sicília D´Arista )

Conheci Nádia em Ulan-Ude, capital da Buriátia, pequena república da Sibéria Meridional. Fui parar lá para dar sequência aos meus ensinamentos budistas os quais aconteciam em um enorme ginásio público, apinhado de gente ansiosa de escutar palavras que há anos não se podia ouvir. Ao término de uma das sessões apertei a mão de uma senhora que foi-me apressadamente apresentada como “ a presidente dos xamãs buriatos “, e o “ título “ oficial criou em mim uma reação de desconfiança. O encontro foi muito rápido, não tendo nem tempo de olhá-la nos olhos e além disto ela só falava em russo.

* Russificação foi o processo de imigração de populações de etnia russa para as regiões fronteiriças de modo a diminuir a população autóctone .

Porém naquela noite Nádia me apareceu em sonhos. Recordo que estava duvidando dela e que testei-a perguntando-lhe sobre minha família, de meu avô Umberto, mas no momento no qual começava a responder-me um golpe de vento moveu uma cortina que me escureceu a vista e a fez desaparecer. Fui para a Buriátia e Mongólia para conhecer Doljin Kandro Rimpoche Suren, uma anciã praticante do budismo, e para ver seu encontro com o Mestre Tibetano Namkhai Norbu Rimpoche; havia partido com meu companheiro Costanzo allione, que filmou o evento, e com 2 amigos, um psiquiatra e uma jornalista inglesa.

Algum tempo antes da viagem tive um sonho. Me encontrava em um carro, parada sobre uma ponte, e via uma cena incrível que se desenvolvia longe: o nascimento de 3 montanhas de cristal. Se ouvia o barulho de um terremoto, relâmpagos, trovões, arco-íris, neve e chuva acompanhavam a ascensão das três. A terra tremia. Sempre em sonho retomei a viagem e no caminho de volta parei na mesma ponte e a cena se encontrava igual `a primeira, com a diferença de que uma chuva vinha para mim. No sonho me senti purificada, e após acordar, pensei na minha viagem `a Buriátia e Mongólia, me perguntando se realmente assisti ao “nascimento “ de alguma coisa ou de alguém. No caminho para a Mongólia paramos na Buriátia, hospédes de Nicolai Dudka – um pintor russo discípulo de Doljin Kandro Suren – que aproveitou a ocasião para mostrar um video que havia gravado sobre a anciã budista.

Sentada no sofá da casa de Nicolai percebi que já havia encontrado em sonho aquela velha senhora, cerca de dois anos antes. Me recebeu com muito amor, como se fosse minha avó, e me contou coisas de sua vida que, extraordinariamente, coincidiam com as que contava nosso amigo. Alguns dias depois fomos seus hospédes em Ulan-Bator. Costanzo filmou Doljin Kandro sem parar durante um dia inteiro e a senhora se envolveu com ele e com a camêra como só um espírito livre em grau de fazer-lo poderia, superando os limites da língua e da idade. Em sua presença me sentia `a vontade e depois, um dia, me falou como eu havia previsto no sonho. No retorno da Mongólia paramos novamente na Buriátia onde Costanzo foi apresentado a um senhor enquanto jantávamos no restaurante do Hotel Geser. Sergei, este era seu nome, perguntou se poderia ser útil de alguma maneira e propos um encontro para fazer contatos e discutir eventuais colaborações e trabalhos conjuntos; de fato, alguns dias depois, fez a proposta a Costanzo de realizar um documentário sobre a Buriátia e meu companheiro respondeu que seria uma felicidade faze-lo se Sergei concordasse em focalizar no vídeo o xamanismo Buriato.

Há vários anos Costanzo estudava o xamanismo e já havia filmado os xamãs de diversas regiões do mundo. Esteve entre os aborígenes da Austrália, no México entre os Huicoles, na Argentina e entre os nativos da América do Norte. Naquele momento estava trabalhando num video sobre Mestres de várias religiões. O projeto iniciou-se com o filme sobre a anciã budista mongol, e o segundo poderia ser sobre uma xamã Buriata.

Deixamos Sergei com a promessa de que retornaríamos no outono para gravar o vídeo e para contatar o mais forte xamã buriato. Em setembro Costanzo partiu para a Buriátia e eu permaneci na Itália. Havia me mudado há pouco de casa, minha filha Mandarava retomava as aulas e queria estar por perto. Da Buriátia me escreveu que o xamã escolhido era Nádia Stepanova, uma das mais importantes personalidades do xamanismo local. Havia, porém, tido dificuldade em encontrá-la. Cada dia se encaminhava `a sua casa, mas ela tinha partido para uma “ missão xamânica “ e não se sabia quando retornaria. Nádia não tinha telefone, assim para encontrá-la dever-se-ia ir até sua casa e esperá-la.

Depois de 2 semanas, Costanzo me telefonou dizendo que se a xamã não aparece-se nas próximas horas ele procuraria outra protagonista para seu documentário. Mas Nádia chegou a tempo e quando retornou `a Itália meu companheiro estava no céu. Seu encontro foi fulgurante, se sentiram como irmãos. Ela escreveu o texto do vídeo, o qual foi montado nos estúdios da emissora de TV de Ulan-Ude. Costanzo teve uma impressão muito positiva, estava literalmente entusiasmado com Nádia Stepanova que o havia iluminado sobre a sabedoria xamânica.

Formada em pedagogia, professora, Nádia era convinta que o tempo estava maduro para que as pessoas pudessem estar a par dos ensinamentos xamânicos. Costanzo a descreveu como uma mulher corajosa que lutou duro para retomar antigos rituais e o caminho xamânico após a Perestroika. Ele trouxe muito material, textos e artigos escritos por ela que imediatamente traduzimos para o italiano.

Um tempo depois, enquanto digitava um trabalho de Nádia no computador, me deparei com um trecho no qual dizia que se uma pessoa se aproxima com desconfiança, em um estado de mente fechada, se cria um bloqueio, desce um véu que impede a passagemda comunicação e que está energia negativa é muito dolorosa para o xamã. Me lembrei instantaneamente do sonho que tive na Buriátia, da armadilha que havia tentado armar para ela e da cortina que me obscureceu a vista e bloqueou minha comunicação com Nádia. Arrependi-me por ter me comportado desta maneira e esperei do fundo do coração encontrar uma ocasião para reparar meu presunçoso erro.

Naquele inverno, terminado meu projeto de um centro de estudos sobre o xamanismo siberiano, fundamos “ Where the Eagles Fly “. Costanzo tinha uma visão muito precisa do sentido do centro decorrente do conhecimento acumulado em tantos anos de estudos e contatos com diversos Mestres do mundo xamânico, mas em particular do feeling que obteve com Nádia Stepanova.

Um dos objetivos de “ Where the Eagles Fly “ seria de dar voz aos xamãs”: eles mesmos explicariam, ensinariam o xamanismo e neste sentido Costanzo considerava essencial a participação de Nádia, convencido de que ela seria uma ótimo mensageira do ensinamento xamânico para o Ocidente. No ano seguinte Nádia foi convidada para participar de seu primeiro congresso na Itália. Quando fomos buscá-la no aeroporto em Milão, estava muito emocionada; os depoimentos de Costanzo ecoavam na minha mente, mas não sabia o que me esperava. Depois a vi, pequena, com uma bagagem exígua, os olhos abertos em uma expressão ligeiramente medrosa. Esperei tanto aquele encontro, era feliz em encontrá-la. Quando saímos do aeroporto começou a chover e a xamã disse que era um bom sinal.

Quando estávamos `as portas de Santhia , Nádia perguntou sobre histórias do lugar porque alguns espíritos a haviam saudado dando-lhe boas vindas, e na mesma tarde encontrou 3 Espíritos protetores de Costanzo, mais detalhes desta visão deixo para o decorrer do livro. Nos dias seguintes nos explicou que ela “ via “ continuamente, mas que seria cansativo contar tudo e também que se limitou `as visões mais significativas.

No dia seguinte voltamos `a Milão, onde Nádia literalmente cambaleava por falta de ar e pela negatividade encontrada. Indo para o Consulado Russo, passamos por uma praça com sinais evidentes de degradação e violência, onde toxicômanos e imigrantes conduziam sua difícil existência. Neste lugar Nádia se sentiu particularmente mal. Nesta manhã recebi um grande ensinamento: normalmente sofro muito quando estou em cidades, me sinto debilitada, sem forças, e sempre atribui este mal-estar a uma disposição física delicada, e me sentia embaraçada por esta debilidade.

Depois de visitar Milão com Nádia compreendi que aquilo que sentia como pesado era a energia negativa que reside nos lugares poluídos e com alto índice de violência. Todos estes lugares degradados – onde maior é o acúmulo de sofrimento da mente e do corpo, onde não há flores a alegrar as almas, onde não há mais harmonia – são difíceis porque o sofrimento os estagna.

Ao longo de nosso percurso chegamos a uma pequena praça ao centro da qual cresciam algumas árvores. Foi um alívio para aquela pequena mulher numa busca constante, vital de sinais da Natureza. Caminhando saudava as poucas árvores que encontrávamos fazendo-me notar a luta que exerciam para manter-se vivas, e a sua forte presença tranquilizadora para todos os seres.

Cada movimento seu me impressionava, através dela entendia a mim mesma, suas palavras me faziam comprender reações minhas `as quais nunca havia dado a devida atenção; todas estas percepções juntavam-se `a minha consciência, `a minha sensibilidade que crescia, se refinava, tinha finalmente o direito de se manifestar. Um dia Nádia me disse que em torno de mim via uma linhagem espiritual composta de Espíritos da Montanha e do Mar. Disse também que esta linhagem havia sido interrompida criando dificuldades na geração atual da família. Em verdade os meus são oriundos seja de uma zona de montanha, o Vale do Diano na Província de Salerno, seja da costa da Sicília, mas não sabia muito mais do que isto deles. Meus bisavós imigraram para os Estados Unidos, perdendo a ligação com a família de origem e com suas tradições culturais e religiosas, e isto poderia explicar a interrupção de que Nádia falou. Rindo acrescentou: “ Poderia dizer qualquer coisa porque você não sabe nada de sua ascendência, não poderia contradizer-me “ ! Durante esta primeira visita fomos ao Monte Branco, onde Nádia celebrou um pequeno ritual. Teve muitas visões mas neste momento nosso tradutor já não estava conosco e ela não conseguiu comunicar-nos. No retorno, porém, fomos acompanhados por um arco-íris, uma visão belíssima da qual usufruímos também eu e Costanzo.

Antes de retornar `a Buriátia chegou um convite do prof. Mario Reda, diretor do Instituto de Psicologia da Universidade de Siena, para uma conferência sobre práticas xamanicas na cura de doenças mentais.Me recordo inclusive hoje do titubear de Nádia e suas dúvidas: o que poderia ensinar ao Ocidente, estaria em grau de enfrentar semelhante tarefa? Conseguimos convence-la dizendo que lhe pediam simplesmente para contar sua experiência de xamã e Nádia respondeu que, logo que retorna-se a Buriátia, pediria aos Deuses autorização para fazer uma coisa do gênero.Costanzo partiu com ela, ia para a Sibéria filmar outro documentário para completar sua série sobre Mestres de Sabedoria e depois, juntos, retornariam em tempo para a Conferência em Siena.

Em Ulan-Ude, poucos dias depois da chegada, inaugurava-se a Academia da Cultura e da Arte da Sibéria Oriental e naquela ocasião seria apresentada oficialmente “ Where the Eagles Fly “, nomeando-se alguns estudiosos da Academia membros honorários da seção buriata do centro. Pretendia-se criar um arquivo em vídeo do xamanismo siberiano, documentando rituais e xamãs – na língua buriata chamada Boo – provenientes de regiões diversas da que compreendia Buriátia, Tuva, Jacuzia, Mongólia e imediações, e neste sentido Costanzo deixou com os buriatos material e maquinário para realizar os vídeos.

Voltaram para a Itália acompanhados de Nima Porbouev, o atual companheiro de Nádia, um pintor de finíssima sensibilidade. Quando a Xamã subiu na cátedra da Universidade de Siena vestida com roupa ritual, sua voz se lançou com uma saudação em língua buriata. Nádia é uma mulher muito forte. Atrás dela e em torno a uma pequena multidão de doutores e professores pedia sua opinião e a cada um ela respondia indicando um caminho e dando conselhos espirituais. Durante sua permanência se falou de um projeto dos xamãs buriatos em organizar para o próximo verão um simpósio internacional sobre o xamanismo siberiano, para o qual havia a intenção de convidar estudiosos e cientistas de toda parte do mundo. Deixou para nós a tarefa de promover a iniciativa na Itália. Nádia também fez uma conferência em Arcidosso, convidada pelo Instituto de Estudos Tibetanos Shang-Shung. Muitas pessoas pediram seu auxílio, mas no breve tempo disponível o seu trabalho se limitou a traçar um primeiro diagnóstico relativo aos problemas, não havendo possibilidade de curar seja impondo as mãos, seja através de rituais. Foi naquela ocasião que descobrimos uma linguagem comum ao Budismo: de fato na Buriátia há 300 anos o Budismo se difundiu chegando pela Mongólia e , como ela mesmo explicará nos seus depoimentos, atualmente o povo buriato tem familiaridade com todas as 3 religiões que fincaram pé no seu país: o Xamanismo, religião tradicional e mais antiga, o Budismo e a Ortodoxia Cristã Russa. Como em Arcidosso muitos daqueles que procuravam-na eram budistas praticantes, dava conselhos a todos no sentido de aprofundar, transpor em atos os ensinamentos que haviam recebido. “ Deve ser mais budista “ dizia `aqueles que tinham dificuldades. Se pelo contrário a pessoa era católica Nádia lhe aconselhava a ir `a Igreja rezar, acender velas, escolher um santo protetor do lugar de origem da própria família para criar, pelas orações, uma conexão mais forte. O que me tocava era sua inteligência e sua atenção em não querer introduzir na Itália uma outra religião, mas aproximar as pessoas da própria linhagem espiritual a que pertenciam. Pedia a todos os praticantes para aplicarem com mais firmeza sua própria fé e não somente para vantagens pessoais, mas também para ajudar os outros. No que toca nossa relação, reforçamos a amizade e o conhecimento recíproco sobre o terreno comum do Budismo; ela fazia um grande esforço na tradução que me permitia dar passos avançados na minha compreensão do sistema xamânico de conhecimento.

Através de sua ajuda e orientação prestava mais atenção a quanto eu “ via e sentia “, e intuições sutis que jamais havia tido consciência de ter tomaram forma dentro de mim. No Natal, quando Nádia já havia retornado `a Buriátia, `a tarde lutei com grande dificuldade contra um estado de ansiedade muito grande. Nesta noite tive pesadelos e quando acordei pude encontrar forças para uma prece de ajuda. Logo depois dormi novamente e sonhei com Nádia, e ao acordar uma segunda vez tinha um sorriso no rosto e readquirido parte da clareza necessária para enfrentar a situação. Aquele inverno com Costanzo trabalhamos nos seus últimos 3 vídeos e eu me ocupei dos textos; depois na primavera nos empenhamos na organização da delegação italiana para o simpósio na Buriátia. Eu sou psicóloga e por muito tempo fui atraida pelo ensinamento budista da natureza da mente e da emoção. Atentar para a “ psicologia xamânica “ era prosseguir na mesma trilha. Quando em junho partimos para a Buriátia eramos 10 psicólogos e psiquiatras provenientes de toda a Itália, e entre estes recordo Maria Vittoria Turra, Luigi Papa, Gabriel Ubaldini e Maria Teresa Dolfin, para os quais a aventura xamânica prosseguiu também na volta.

Os trabalhos do simpósio sucederam-se principalmente no Lago Baikal. Haviam se inscrito estudiosos do mundo inteiro, além dos xamãs buriatos, mongóis e de toda a Sibéria. No dia de abertura dos trabalhos um xamã tomou da palavra e com lágrimas nos olhos declarou que seu pai nunca havia nem sequer sonhado a possibilidade de um evento similar. A importância do encontro residia também na participação de Tserin Zarin Boo, o mais alto xamã mongol de origem buriata, que por muitos anos esteve preso por sua fé. O seu retorno `a pátria era um evento de grande comoção, também porque Tserin Zarin Boo pretendia celebrar um ritual `as margens do Lago Baikal e depois peregrinar até a ilha sagrada de Oklon. Nádia era atarefadíssima. Eu a seguia de longe enquanto ela tinha o controle de tudo, reparava erros de outros, estimulava as delegações estrangeiras, resolvia os problemas. Foi nesta ocasião que notei que não precisava “ trocar palavras “ com ela, porque me comunicava igualmente. Naqueles dias sentia necessidade de ficar a sós, ouvia a energia do fogo, procurava colher uma sensação interior difícil de descrever em palavras. Ficava horas escutando o som do Lago. Tserin Zarin Boo conferiu títulos xamânicos durante o ritual a todos ali presentes e naquela ocasião Nádia foi honrada com o título de “ Invocadora dos Deuses “, o grau mais alto reservado a uma mulher e correspondente a Zarin , máximo título para um homem. Mas Nádia parecia não haver tempo para as honras, ia e voltava trabalhando incansavelmente e deixando aos outros as glórias.

No penúltimo dia foi anunciado que uma pequena delegação acompanharia os xamãs mongóis `a ilha de Oklon e para representar a Itália indicou-se Costanzo. Fiquei muito feliz por ele e quando partiu me despedi passeando pela praia. Antes de partir para a Buriátia, contaram-me uma lenda, segunda a qual quem quer conhecer qualquer coisa deve ir para a beira do Lago Baikal e consultá-lo. Retomando está história joguei uma moeda na áqua escura e fiquei observando-a; subitamente me pareceu que surgia algo, era uma figura de xamã com chapéu branco e levantando as mãos, depois desapareceu e surgiu uma pequena montanha, uma rocha triangular.

Pensando já haver exercitado suficientemente minha fantasia, abandonei as margens do Baikal. Naquela tarde, inesperadamente, a delegação retornou porque o passeio foi interrompido: Tserin Zarin Boo decidiu voltar atrás e partir no dia seguinte. Depois do jantar encontrei-me com a professora Irina Urbanieva que me convidou para uma peregrinação e me explicou que iríamos `a famosa Pedra do Xamã! Embarcamos no alvorecer em um pequeno barco, enquanto todos os xamãs reunidos na popa rezavam tocando tambores e sinos. O dia estava cinzento, o sol escondido, fazia frio. O silêncio do “ grande lago “ era rasgado pelas invocações de Tserin Zarin Boo e a força do espelho de água me fazia vigilante, sentia a energia dirigir-me, como no dia anterior, em um estado mental atento e relaxado ao mesmo tempo.

Durante o percurso os Espíritos vieram ao nosso encontro, estavam esperando há muito tempo e sabiam da chegada do xamã mongol. Num certo momento, até mesmo nós “ não xamãs “ podíamos ver um Espírito a cavalo acompanhar-nos durante minutos… Quando chegamos `a ilha era quase noite, mas o sol, como acontece na Sibéria, conservava ainda seu calor e nos apressamos a chegar `a Rocha do Xamã, onde Tserin Zarin celebrou um breve ritual. Durante o caminho paramos para agradecer `a Mãe: prostrados na terra lhe rendemos homenagem. Recordo que foi difícil me levantar, me parecia estar sendo completamente sugada pela energia que se aprisionava naquele lugar sagrado.

Antes de partirmos fomos acolhidos por uma família do lugar que havia feito um jantar e depois retornamos ao barco para dormir, todos juntos, deitados no porão. De manhã retomamos a viagem num ônibus até Ulan-Ude, parando várias vezes para honrar os Espíritos locais ofertando moedas, vodka e tabaco.

Ao chegarmos `a capital falamos com Nádia da possibilidade dela ir ensinar na Itália e fizemos um programa para um verdadeiro trainning sobre xamanismo siberiano que se iniciaria no outono próximo. Nádia criou rapidamente 3 níveis, nos quais seriam celebrados rituais para religar as pessoas aos espíritos de seus ancestrais, vale dizer `a linhagem espiritual pertencente `a cada indivíduo. Também disse que trabalharíamos com os elementos, o fogo e o céu, afim de aprendermos a nos voltar para nossos Protetores.

Três mêses depois a aventura italiana começou e os seminários foram organizados em vários locais; cada vez que Nádia entrava em contato com os protetores locais, santos e místicos italianos que viveram em épocas diversas, começavam a aparecer os objetivos relativos `a sua missão. Muitas das pessoas que vieram encontrá-la eram muito sensíveis espiritualmente e , guiados por ela e ajudados pelas cerimônias que celebrava, haviam ampliado sua própria sensibilidade. Alguns começaram a “ ver “, outros a “ sentir “. Mas a tranformação mais profunda acontecia em nossas almas. Como ela ensinava: “ É necessário prestar atenção a cada sensação da nossa alma, reconhecer os pensamentos e as emoções que acompanham a nossa existência, aprender a amar. É preciso mudar, é necessário que cada um melhore a si mesmo, mesmo que seja muito pouco…” E depois, preocupada em não desencorajar as pessoas que a estavam escutando, acrescentava: “ e se não conseguir tudo bem assim mesmo “.

Nádia guiou um pequeno grupo de italianos naquilo que já lhes pertencia, o reconhecimento da grande força espiritual da terra italiana, através do contato com Espíritos fortes como aqueles do Vesúvio e do Monte Branco. Nos meses passados juntos aprendi a rezar para confiar ao Céu as angústias de meu cotidiano e suas alegrias. Penetrando nos meus problemas, Nádia alegrou-se com cada uma de minhas conquistas e me ajudou nas dificuldades, sábia e brincalhona ao mesmo tempo. Cada vez que íamos viajar para uma “ expedição xamânica “, havia vodka e arroz para ofertar aos Espíritos e um gravador em ação para não perder a descrição das visões que ela tinha pelo caminho. Frequentemente ouvia-a chamando: “ Estão chegando os Espíritos a saudar-nos! Estão atravessando a casa como um arco-íris luminoso; rápido, pegue a vodka e cubra a cabeça para fazermos oferendas. “ De manhã, depois dos rituais, contávamos nosso sonhos para decifrar os sinais que a nossa alma em movimento nos lançava, sinais de purificação e relaxamento das tensões, sinais auspíciosos ou advertências. Eu gosto muito de Nádia. Ela e seu marido, Nima Porbouev, são parte da minha família e nestes meses, durante os quais revelaram muito de si, a sua presença foi uma luz, um grande guia.

Foi uma honra para mim recolher suas memórias e as emoções que acompanharam as passagens mais dolorosas de sua vida; e quando decidi publicá-los, a minha tarefa foi de por em ordem estas histórias incríveis, emprendimento delicado pelas dimensões das recordações que Nádia conserva no seu coração. Queria sublinhar que os ensinamentos as descrições contidas neste livro não são nada mais que aquilo que Nádia experimentou pessoalmente na prática. Nima pintou as ilustrações. Para representar as “ visões “de sua esposa foi autorizado pelos Deuses através de uma cerimônia especial feita em homenagem a Eles. É interessante notar que quando Nádia fala da natureza e descreve claramente a “ força “ referindo-se `a dimensão energética dos lugares, aos Espíritos protetores dos lagos, dos rios e das montanhas, não está falando de seus aspectos paisagísticos. Por este motivo, para ajudar o leitor que não conhece a Buriátia e nunca assistiu a um ritual xamânico, acrescentei algumas descrições pessoais, evidênciadas pelo uso de itálico, dos lugares como eu os vi durante as minhas viagens. No nosso trabalho fomos ajudados por uma série de “ anjos “ tradutores, e em especial quero agradecer Anna Saudin que nos ajudou durante o periodo no qual aconteceu a narração destes fatos.

Sicília D´Arista

capítulo I

Desde nosso primeiro encontro senti que podia me comunicar com você, mesmo que tendo percorrido caminhos diversos e vindos de lugares distantes. Chegou o tempo de nós xamãs tirarmos os véus de segredo sobre nossa fé. O xamanismo observa a Natureza em sua totalidade e no interior desta a existência de cada um dos homens. Do mesmo modo a história de cada indivíduo – com seus sofrimentos, as circunstâncias de sua vida, as suas ilusões – tem lugar na história da humanidade, de cada outro homem. Por este motivo aceito contar a minha vida.

Minha mãe se chamava Ana e me amava muitíssimo; creio que durante minha infância tenha sido a única pessoa que me amou e compreendeu, e todavia, quando ficou grávida, fez de tudo para que eu não nascesse. Se encarregou dos trabalhos mais pesados e esperou com todas as forças que o destino lhe preservasse desta última atrocidade: estava convencida de que como todos os sete filhos que teve, eu não sobreviveria `a dureza da vida sob o regime soviético, ao frio siberiano e a fome daqueles anos. Eu nasci no inverno. Tinha só 11 dias quando um xamã ancião, amigo de meu avo, venho encontrar-nos. Estavam em casa minha mãe, meu avo Angadej Monieva e eu no berço no meio da cozinha. Com sua habitual gentileza, mamãe pediu que

senta-se e estava para servir o tarasun*, um destilado de vodka e leite, quando este homem, se voltando para meu avo, profetizou: “ Meu caro amigo, você não viverá muito mais. A sua alma já o abandonou e está dentro de um novo corpo. Está já nesta pequena garota que dorme no berço. “ Ao ouvir estas palavras minha mãe ficou zangada: porque vinham na sua casa a prever a morte? Virou de costas e saiu da cozinha sem lhe oferecer o tarasun, e não retornou até o homem ter deixado o nosso casebre. 11 meses depois vovo Angadej morreu.

No momento de meu nascimento mamãe já tinha 40 anos e havia sofrido mais do que o necessário. Passou toda a sua juventude vagando de um vilarejo a outro, primeiro junto de seus pais depois com seu marido, em uma peregrinação eterna, durante quase 20 anos. Era perseguidos políticos do regime soviético e a vida não foi fácil para eles. Em Zagustaj, última etapa desta longa viagem, juntou-se com seu marido, pai e Nina, a última filha sobrevivente. Os tempos haviam se tornado um pouco mais fáceis e daquele lugar nunca mais se transferiu. Zagustaj é um pequeno vilarejo do interior buriato `as margens do rio Cesan, um rio belo e piscoso, cujas margens eram meu lugar preferido, onde passava meus longos dias de verão. Os meus tios e minha mãe sempre me perguntavam com quem falava nos meus jogos solitários, mas eu não compreendia suas perguntas porque haviam crianças, mesmo não recordando seus nomes agora, que me acompanhavam ao rio onde aconteciam sempre coisas maravilhosas: da água surgiam visões fantásticas e dentro de mim afloravam imagens de lugares distantes.

Não sei, tanto tempo distante, se tratavam-se de sonhos ou realidade e se aquelas crianças existiram realmente. Como todas as crianças, não distinguia muito bem realidade e imaginação. Não sabia da existência de mundos paralelos, ninguém mais falava destas coisas porque era muito perigoso. Quando brincava junto `as margens me aparecia um palácio de rei imerso em uma vegetação luxuriante – de um verde brilhante, muito diferente da vegetação de nossa estepe siberiana – das janelas penetravam quentes raios de sol. Na Buriátia não existiam palácios assim luminosos e imponentes. Naquele mundo viviam homens e mulheres muito belos, como nunca os encontrei na realidade. Seus encontros eram sempre harmoniosos: nas histórias que me contavam não havia jamais sinal de violência ou de guerra, era um mundo pacífico e muito evoluído. Eu percebia que pertencia `aquele mundo, sentia sua proximidade muito intensamente: se tratava de uma sensação que ainda hoje consigo reviver quando quero.

Voltando para casa com meus amigos do vilarejo, contava a eles as fábulas do rio e só hoje me dou conta que eram histórias muito particulares que não se assemelhavam nem `aquelas que líamos nos livros, nem `as histórias tradicionais que ouvia os anciões do vilarejo narrarem. Em Zagustaj também havia um lago que tem o nome do vilarejo, e alguns anos atrás criaram um segundo lago, desviando a água do “ meu “ rio e assim fazendo-o desaparecer. Quando penso nisto meu coração se aperta. O rio Cesan era vivo e era o meu refúgio, me acolheu e me ensinou sobre os mundos fantásticos, foi um mestre. Hoje quando ele já não mais existe

*Tarasun é uma bebida alcoólica ritual feita a partir de leite sinto a dor de seu Espírito que vaga procurando uma nova morada e me perguntando porque. Porque sujamos a água que bebemos, construímos casas sobre as montanhas sagradas, enchemos a terra de veneno. Quando cessará tudo isto? Quando veremos a dor que criamos para tantos seres inocentes.

Zagustaj, o rio Cesan, o lago, o meu casebre de madeira, minha mãe são a minha “ pequena pátria “, o lugar onde nasci, onde a minha placenta foi jogada, onde aprendi a amar “ as criações” e os homens, a respeitar a terra e a conhecer-la; eu aprendi a língua destes pássaros e o som das águas do rio. Em seguida conheci terras mais vastas, outras regiões da Buriátia e as amei como amo Zagustaj.

Através do sentimento de pertencer a minha “ pequena pátria “ desenvolvi dentro de mim o amor pela vida: só havendo provado apego por uma pequena porção desta nossa Mãe Terra podemos estender este sentimento a territórios mais vastos, `a própria nação, `a ” grande pátria “ e ao mundo inteiro; mas é na “ pequena pátria “ que a semente é lançada. Eu pertenço a Zagustaj como minha mãe ao Lago Baikal e mais precisamente a Kazanov, uma pequena ilha que surgia da confluência de 2 belos cursos de água: o Chara Uran, o Rio Negro, e o Selenge, filho do Espírito do Lago Baikal, um Espírito poderoso que possui 360 filhos homens e somente uma mulher, a doce Selenge. Mamãe me contava do céu altíssimo que se observava sobre a ilha enquanto as vacas no pasto ornavam a paisagem lambidas pela água do “ grande mar “ da terra buriáta. Seu pai, Angadej Monieva, era um grande trabalhador, criava animais e comercializava o peixe do Baikal.

O sobrenome original da família de minha mãe era Monié, não Monieva, mas como eu nasci e cresci sob a “ sovietização “ do povo buriato tive que aprender a pronunciar nossos sobrenomes ao modo russo. Ainda hoje os anciãos dos lugarejos recordam que meus antepassados eram respeitados por todos, depois da revolução confundiu-se tudo. Minha avó provinha de uma família muito rica e possuía um enxoval para a noite muito belo, ornado com moedas antigas; quando as garotas do lugarejo casavam, vinham e lhe pediam as jóias emprestadas e ela ficava muito feliz de ajudá-las porque era uma mulher sábia e boa. Uma vez ao ano, quando o lago congelava, todos os membros do clã atravessavam-no e iam `a ilha sagrada de Oklon, a maior ilha do Baikal, para celebrar rituais solenes em honra aos Espíritos protetores da Agua e da Terra. se tratava de um ritual que não mais se faz. Sacrificavam 4 animais simbólicos: uma cabra, uma ovelha, uma vaca e um cavalo. Depois oravam e pediam proteção para a família e que os filhos crescessem sadios, pediam bençãos e que a pesca fosse abundante. Finalizada a cerimônia, retornavam a Kazanov atravessando novamente o lago congelado.

O nosso povo celebrou este ritual desde o início de nossa história. O xamanismo é concreto, cuida da vida dos homens, das suas dores, dos amores e dos ódios e de como superar tudo isto se voltando para os Deuses. Na Sibéria os invernos são longos e a terra é dura. Mas o meu povo é forte. Passou tantos anos difíceis, mas agora está redescobrindo seu patrimônio, o conhecimento da Mãe Terra, o respeito `as forças da Natureza, cuja potência não tem comparação com aquela de nós mortais de passagem neste mundo. Um dia, quando minha mãe tinha 13 anos, as doces águas do Baikal engoliram a ilha de Kazanov tirando-a da visão dos homens para sempre. A sua família foi obrigada a transferir-se, segundo a vontade dos Deuses, para a terra firme, mas decidiu permanecer na região do Baikal, e se estabeleceu no lugarejo de Karsakovo, no delta do Rio Negro, o Chara Uhan, para estar vizinha `as recordações do rio e da ilha submersa. Karsakovo é um típico lugarejo buriáto onde as famílias de um mesmo clã se reunem na mesma rua e onde a vida se desenvolve como nos tempos de meus avos. Meu avo Angaadej Monieva era um xamã e provinha do poderoso clã dos Abzaj, onde os Espíritos dos antepassados eram fortes e velozes e viajavam sobre cavalos celestes de cor azul. Os homens que pertencem a este clã dos Abzaj podem invocar os Deuses depois do terceiro dia do mês lunar. São autorizados a orarem primeiro e por isto são considerados muito poderosos.

Segundo nossa tradição, quando a lua é nova não é possível celebrar rituais e invocar os Deuses. No primeiro dia em que a lua reaparece, somente a bottatrice, um peixe de água doce, pode se voltar para os espíritos e orar, no segundo dia os cães e um terço dos homens, mas somente aqueles que pertencem ao clã dos Abzaj. No quinto dia podem orar os ferreiros, os Darchat, e depois todos os outros clãs. Se conta que entre meus antepassados alguns tinham a capacidade de transformar-se em touros e lutar com outros xamãs para medir forças. Os meus antepassados eram também capazes de subir ao topo de altíssimas bétulas, árvores muito frágeis, que dificilmente poderiam sustentar o peso de um homem; mas estes conseguiam permanecer sobre as árvores sagradas e isto era considerado sinal de grande força.

Quando aconteceu a revolução comunista os meus avós foram visados, marcados como kulaki e todos os bens da família foram confiscados até o último centavo. Aquelas moedas do vestido que uso para os rituais são a única coisa que sobrou da riqueza de minha família. Mamãe me contou que várias vezes os milicianos faziam incursões `a nossa casa e acusavam-nos de ser “ inimigos da revolução “ levando tudo que viam. Em 1929 teve início na União Soviética a atroz campanha anti-religiosa de Stálin: quem era suspeito de atividades xamânicas ou budistas era preso; muitos xamãs e lamas foram assassinados. Meus avos decidiram fugir de Karsakovo por mêdo de posteriores perseguições e deixaram secretamente o lugarejo, de noite: carregavam um cavalo como os ciganos, fizeram montá-lo os quatro filhos e partiram para o oriente, para Zaigraevo. Mas nem todo o clã se foi: algumas famílias permaneceram em Karsakovo aonde vivem até hoje.

ENTRE EM CONTATO

Envie um e-mail para a equipe do Site


©Desenvolvido por Agência Rumi

ou

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?