Forças auto-curativas

Colaboração: Marcia Tosto

O ponto de partida: a “vontade de viver”

O que faz com que um paciente recupere sua saúde enquanto que um outro morre, mesmo no caso de o diagnóstico ser igual para ambos? Carl ficou interessado por este assunto ao completar o seu período. de residência como especialista em cancerologia no “Oregon Medical School”. Lá, ele observou que os pacientes que declaravam querer viver geralmente agiam como se, de verdade, não o quisessem. Havia pacientes com câncer no pulmão que se recusavam a parar de fumar, pacientes com câncer no fígado que se recusavam a parar de beber e outros, ainda, que não compareciam com regularidade ao tratamento.

Em muitos casos, tratava-se de pessoas cujos diagnósticos médicos indicavam que, se o tratamento fosse seguido, poderiam ter muitos anos de vida. E, apesar de afirmarem sem cessar que havia inúmeras razões para que quisessem viver, mostravam-se deprimidas, com profunda e com uma atitude que demonstrava desistência, ao contrário de outros pacientes diagnosticados como sendo terminais.

Nesta última categoria havia um pequeno grupo de pacientes que, apesar de ter sido enviado de volta a sua casa, após um tratamento mínimo, sem que houvesse esperança de sequer poder voltar para o acompanhamento, continuava a chegar para a consulta anual ou semestral, mantendo sua saúde em nível estável, contradizendo de maneira inexplicável as estatísticas.

Quando Carl lhes perguntava sobre o que poderia explicar a sua saúde, com freqüência, davam o seguinte tipo de resposta: “Não posso morrer enquanto meu filho não tiver acabado a faculdade” ou “O meu trabalho precisa de mim” ou “Não quero morrer antes de ter resolvido o meu problema com a minha filha”. O ponto em comum nessas respostas residia no fato de que esses pacientes achavam que tinham uma certa influência sobre o curso de sua própria doença. A diferença básica entre esses pacientes e aqueles que não queriam cooperar residia na atitude dos primeiros em relação à doença e sua posição positiva em relação à vida Os pacientes que continuavam a ter melhoras, por uma razão ou outra, tinham uma “força vital” mais poderosa. Esta descoberta fascinou-nos.

Stephanie, cuja formação era a de aconselhamento de motivação, tem um interesse especial pelas pessoas que são excepcionalmente bem-sucedidas – aquelas que, nos negócios, por exemplo, parecem destinar-se ao cimo. Ela havia estudado o comportamento das pessoas cujo desempenho era considerado excepcional e ensinado os princípios deste comportamento aqueles que não o possuíam. Parecia razoável estudar da mesma maneira os pacientes cancerosos – aprender o que aqueles que estavam tendo sucesso tinham em comum e como eram diferentes em relação àqueles que não estavam tendo sucesso.

Se a diferença entre o paciente que consegue recuperar sua saúde e aquele que não o consegue reside em parte na atitude em relação à doença e à convicção de que pode, de certa forma, ter uma influência sobre ela, como poderíamos influenciar os pacientes na direção certa? Seria possível aplicar as técnicas utilizadas na psicologia da motivação para induzir e aumentar a “vontade de viver”? Quando começamos, em 1969, examinamos todas as possibilidades, desde grupos de encontro, terapia de grupo, meditação, visualização, técnicas de motivação, cursos de “desenvolvimento da mente”, do tipo “Silva Mind Control e Mind Dynamics” e biofeedback.

A partir de nossos estudos de biofeedback descobrimos que algumas técnicas possibilitavam às pessoas que as praticavam serem capazes de influenciar seus próprios processos internos, influenciando as batidas do coração e a pressão sangüínea. Um aspectos importante do biofeedback, chamado de visualização, também era o componente principal de outras técnicas que estudamos. Quanto mais aprendíamos a respeito do processo, mais intrigados ficávamos.

Em essência, o processo de visualização inclui um período relaxamento durante o qual o paciente criaria mentalmente uma imagem do objetivo ou resultado desejado. No caso do paciente canceroso, isto significaria tentar visualizar o câncer, ver o tratamento destruindo-o e, o mais importante de tudo, as defesas naturais do corpo ajudando-o a recuperar-se. Após termos analisado esses pontos com dois eminentes pesquisadores de biofeedback, os drs. Kamiya e Elmer Green, decidimos utilizar as técnicas de visualização com os pacientes cancerosos.

O primeiro paciente: um exemplo impressionante

O primeiro paciente com o qual foi tentado utilizar as teorias que estávamos desenvolvendo era um senhor de 61 anos de idade que se apresentou na faculdade de medicina em 1971, com uma forma de câncer de garganta que apresentava um prognóstico grave. Ele estava bastante fraco e seu peso havia caído de 70kg para cerca de 50kg; mal podia engolir a própria saliva e estava com dificuldades respiratórias Havia menos de cinco por cento de possibilidades de que ele conseguisse sobreviver mais de cinco anos Os médicos da faculdade de medicina chegaram a se perguntar se valeria a pena que ele seguisse qualquer tipo de tratamento, já que era possível que a terapia só o fizesse sentir-se pior, sem esperanças de melhoras significativas.

Carl entrou na sala de exames decidido a ajudar este homem a participar ativamente de seu próprio tratamento. Este era um caso que justificava medidas excepcionais. Carl começou a tratá-lo, explicando-lhe que ele poderia influenciar a evolução de sua própria doença. Carl fez então um esboço de um programa de relaxamento e visualização baseado em estudos que ele estava fazendo. O paciente deveria estabelecer três períodos de 5 a 15 minutos cada, durante o dia: pela manhã, ao acordar, após o almoço e à noite, antes de se deitar. Durante esses períodos, ele deveria, antes de mais nada, compor-se, sentando-se silenciosamente e concentrando-se nos músculos de seu corpo, começando pela cabeça e chegando até os pés, dizendo a cada um de seus músculos que relaxassem. Depois, já mais relaxado, ele deveria imaginar-se sentado em um lugar agradável e calmo, embaixo de uma árvore, perto de um riacho, ou qualquer outro lugar que preferisse, o tempo que fosse agradável para ele. A partir dai ele deveria imaginar o seu câncer de maneira vivida, de qualquer forma que aparecesse.

Em seguida, Carl pediu-lhe para imaginar o seu tratamento, de radioterapia, como pequenos projéteis de energia que atingiriam as células, tanto as normais como as cancerosas, no caminho onde se encontrassem. E já que as células cancerosas eram mais fracas e mais confusas do que as normais, não conseguiriam reparar o dano causado pelos projéteis e, segundo Carl, dessa forma, as células normais continuariam saudáveis, enquanto que as cancerosas morreriam.

Depois, Carl pediu ao paciente que formasse uma imagem mental do último passo, o mais importante as células brancas chegando, apoderando-se das células mortas e doentes e expulsando-as do seu corpo através do seu fígado e rins Através de seu olho mental ele deveria visualizar o seu câncer diminuindo de tamanho e a sua saúde sendo restabelecida. Após haver completado esse exercício, ele deveria voltar às suas atividades normais.

O que aconteceu estava além do que Carl conhecia com qualquer tipo de tratamento físico já tentado em pacientes cancerosos. A terapia de irradiação funcionou magnificamente bem e o homem não demonstrou nenhum dos efeitos colaterais à irradiação, nem em sua pele nem nas mucosas de sua boca e de sua garganta. Ao chegar ao meio do tratamento ele foi capaz de comer de novo. Ganhou forças e peso. E o câncer desapareceu progressivamente.

Durante o tratamento, tanto a terapia de irradiação como a visualização, o paciente só perdeu um dia de sessão de visualização, quando foi passear de carro com um amigo e ficou preso num engarrafamento. Ele ficou bastante chateado, tanto consigo mesmo quanto com seu amigo, pois sentiu que o fato de ter perdido uma sessão que fosse fazia o sentir que perdia o controle sobre sua condição física.

Tratar esse paciente assim era muito estimulante, mas de certa forma também assustador. As possibilidades de métodos de cura que estavam se apresentando encontravam-se muito além da educação médica formal de Carl.

O paciente continuou a progredir ate que, passados dois meses, não havia mais sinais do câncer. A convicção que ele tinha de poder influenciar seu próprio tratamento era bem evidente quando, perto do final de seu tratamento, ele disse a Carl: “Doutor, no início eu achava que precisava do senhor para estar bem; agora sinto que mesmo que o senhor desaparecesse eu ainda conseguiria lidar com o problema sozinho

Após a remissão do câncer o paciente decidiu por si mesmo aplicar a mesma técnica de imagens mentais à artrite de que sofria há anos. Ele imaginou mentalmente as células brancas passando por entre a superfície de suas articulações, levando os entulhos, até que a superfície estivesse lisa e brilhante. Os sintomas da artrite desapareceram progressivamente e, apesar de voltarem de tempos em tempos, ele conseguia fazê-los diminuir ate o ponto em que conseguia ir pescar regularmente, esporte que não é fácil, mesmo para quem não sofre de artrites.

Além do que já havia feito, ele decidiu usar o relaxamento e a visualização para influenciar a sua vida sexual. Apesar de sofrer de impotência já há vinte anos, dentro de poucas semanas após praticar as técnicas de visualização, ele conseguiu recuperar sua atividade sexual plena e o seu estado geral, em todas essas áreas, permanece saudável já há seis anos.

Felizmente, nossa primeira experiência foi tão positiva e impressionante, pois quando começamos a falar no meio médico a respeito dessas nossas experiências e expor a idéia de que os pacientes têm uma influência maior do que a imaginada sobre a evolução da doença, houve reações bastante negativas por parte dos médicos. Para dizer a verdade, havia ocasiões em que nós mesmos duvidávamos das nossas conclusões. Como muita gente – sobretudo qualquer um com formação médica -, havíamos aprendido que a doença “acontecia” às pessoas, sem possibilidade de controle psicológico individual sobre a evolução, e que não havia praticamente nenhuma relação de causa/efeito entre a doença e o que estava acontecendo na vida dos doentes.

Continuamos, não obstante, a usar esta abordagem para o câncer. Apesar de, às vezes, não haver diferença na doença em si, na maioria dos casos aconteceram mudanças significativas nas respostas dos doentes ao tratamento. Hoje, vinte anos passados após a experiência com o primeiro paciente, acrescentamos um certo número de outros processos além da visualização que usamos com pacientes, primeiro na “Travis Air Force Base”, onde Carl foi o chefe do departamento de terapia de irradiação e, agora, no nosso centro de “Fort Worth. Estas técnicas são a base dos “Caminhos para a Saúde”, segunda parte do livro Com a Vida de Novo.

Uma abordagem holística ao tratamento do câncer

Por ser uma terrível doença, no momento exato em que alguém descobre estar com câncer, este fato passa a ser a característica principal da pessoa. O indivíduo pode ter varias outras funções – de pai, de chefe, de amante – e ter inúmeras características pessoais de valor – inteligência, charme, senso de humor; porém, a partir daquele momento passa a ser identificado apenas como “paciente canceroso”. Toda a identidade da pessoa, como ser humano perde-se na sua identidade de paciente com câncer. Todos, inclusive o seu próprio médico, passam a levar em consideração apenas o fato físico do câncer e o tratamento tem como objetivo o paciente como um corpo, não como pessoa.

Nos partimos da premissa de que uma doença não é simplesmente um fato físico, mas um problema que diz respeito à pessoa como um todo, incluindo não apenas o corpo, mas também as emoções e a mente. Acreditamos que os estados emocional e mental têm uma função importante tanto no que diz respeito à suscetibilidade à doença, incluindo o câncer, como na recuperação de qualquer doença. Acreditamos também que o câncer surge como uma indicação de problemas existentes em outras áreas da vida da pessoa, agravados ou compostos de uma série de estresses que surgem de 6 a 18 meses antes do aparecimento do câncer. O paciente canceroso, de maneira típica, reagiu a esses problemas e estresses com um sentimento de profunda falta de esperança e de “desistência”. Esta reação emocional, acreditamos, por sua vez dispara um con-junto de reações fisiológicas que suprimem as defesas naturais do corpo, tornando-o suscetível à produção de células anormais.

Partindo do princípio de que nossas convicções são basicamente certas – e grande parte dos capítulos de Com a Vida de Novo diz respeito à demonstração das razões por que estamos tão seguros do que afirmamos – torna-se então necessário para o paciente e para o médico, ao lutarem para recuperar a saúde, levarem em consideração não apenas o que está acontecendo no nível físico, como também e, na mesma medida, o que está acontecendo no resto da vida do paciente. Se o sistema total integrado de mente, corpo e emoções, que constitui a pessoa como um todo, não está trabalhando para recuperar a saúde, então intervenções simplesmente físicas não darão o resultado desejado. Um programa eficiente de tratamento deve lidar com o ser humano como um todo, não apenas focalizando a doença, pois ao fazer isso é como se estivéssemos tentando curar uma epidemia de febre amarela apenas usando sulfa, sem eliminar os focos dos mosquitos causadores da febre.

Os resultados dessa abordagem

Três anos após começarmos a ensinar aos pacientes a usarem as suas mentes e emoções para alterarem a evolução das doenças malignas, decidimos fazer um estudo para distinguir os efeitos do tratamento médico e emocional, a fim de demonstrar de maneira científica que o tratamento emocional estava realmente dando resultados.

Começamos por estudar um grupo de pacientes com doenças malignas consideradas medicamente incuráveis. O tempo de sobrevida estabelecido para a média dos pacientes com tal tipo de doença é de 12 meses.

Nos últimos quatro anos tratamos de 159 pacientes com um diagnóstico de doença maligna incurável, do ponto de vista médico. Desses, 63 estão vivos, com uma média de sobrevida de 24,4 meses desde o diagnóstico inicial. A expectativa de vida para esse grupo, segundo as normas americanas, é de 12 meses. Um controle equivalente da população global está sendo feito e os primeiros resultados indicam uma sobrevida comparável ás normas americanas e menos da metade do tempo de sobrevida que têm os nossos pacientes.

No caso dos nossos pacientes que vieram a falecer, o tempo médio de sobrevida era de 20,3 meses. Em outras palavras, os pacientes por nós seguidos e que continuam vivos já viveram, em média. duas vezes mais do que os que receberam apenas o tratamento médico convencional. Mesmo aqueles pacientes que morreram chegaram a viver uma vez e meia mais do que os do grupo de controle.

Sem dúvida, a duração da vida após o diagnóstico é apenas um dos aspectos da doença. De igual (e talvez até maior) importância é o fato da qualidade de vida enquanto o paciente sobrevive. Existem poucas maneiras de se medir de maneira objetiva a qualidade de vida. No entanto, uma delas, o nível de atividade diária mantido durante e depois do tratamento, comparado ao nível de atividade anterior ao diagnóstico. Atualmente, 51% dos nossos pacientes mantêm o mesmo nível de atividade que tinham antes do diagnóstico; 76% deles estão, pelo menos 75%, tão ativos quanto estavam antes do diagnóstico. Com base em nossa experiência clínica, este nível de atividade no caso de pacientes “incuráveis do ponto de vista médico” é, nada mais nada menos, extraordinário.

Os resultados de nossa abordagem ao tratamento do câncer deram-nos confiança de que as conclusões que havíamos tirado estavam corretas – que uma participação ativa e positiva pode influenciar a doença, o resultado do tratamento e a qualidade de vida da pessoa.

Algumas pessoas talvez fiquem preocupadas por estarmos talvez dando “falsas esperanças”, sugerindo as pessoas que elas podem influenciar o curso da doença e que estamos criando expectativas irrealísticas. É verdade que a evolução do câncer varia tanto de pessoa para pessoa que não podemos oferecer nenhuma garantia. Há sempre uma certa dose de incerteza, assim como no tratamento médico tradicional, mas achamos que a esperança é uma atitude acertada a se tomar em relação à incerteza.

A expectativa, seja ela positiva ou negativa, pode ter uma função importante na determinação de um objetivo Uma expectativa negativa impedirá a possibilidade de um desapontamento, mas pode também contribuir para um resultado negativo que não era inevitável.

Não existem garantias atualmente de que uma expectativa positiva de vida será realizada. Mas, sem esperanças, o que existe é um desespero. Não negamos a possibilidade da morte. Ao contrário, trabalhamos muito com os nossos pacientes para ajudá-los a aceitar a idéia da morte como algo possível. Também trabalhamos para ajudá-los a acreditar que podem influenciar o seu estado de saúde e que a mente, o corpo e as emoções podem ser colaboradores, trabalhando em conjunto para criar saúde

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