Entrevista com Moura Neto sobre a doutrina do Santo Daime no Brasil

A voz que clama da floresta

Há cerca de trinta anos, quando os governantes militares planejavam ocupar a Amazônia construindo uma estrada rasgando a maior floresta tropical do mundo, projeto que mais adiante se revelaria um fiasco, um seringueiro analfabeto surpreendia aqueles que viviam sob sua liderança espiritual com previsões que, mais cedo ou mais tarde, se confirmavam. O velho visionário costumava dizer, numa época em que viajar para o Norte do país era uma empreitada tão inglória quanto o foi a construção da Rodovia Transamazônica, que esperava pela chegada de um povo que difundiu o culto religioso que professava naqueles confins.

A profecia de Sebastião Mota de Melo se cumpriu mais uma vez. Entre as décadas de 70 e 80 começaram a chegar em Rio Branco, capital do Acre, os barbudos e mochileiros que mais tarde semeariam seus ensinamentos nos principais centros urbanos do país. Entre eles estavam Alex Polari de Alverga, ex-militante de uma organização de esquerda que lutou contra o regime imposto pelos generais. Seu contato com o Padrinho Sebastião, motivado pelo projeto de realizar um documentário sobre o Santo Daime – a doutrina religiosa que até então estava circunscrita àquela região -, rendeu a publicação de três obras: Viagem ao Santo Daime – o Livro das Mirações (Rocco, 1984), O Guia da Floresta (Record, 1992) e O Evangelho Segundo Sebastião Mota (Edição do Cefluris, 1998).

Polari tornou-se discípulo do Padrinho Sebastião da mesma forma como Castãneda o foi de Dom Juan, sobre quem escreveu toda uma fantástica literatura. Depois de formar uma comunidade daimista em Mauá, no Rio, Polari mudou-se nos anos 90 para o Céu do Mapiá, no Amazonas, onde está a sede da doutrina que se espalhou pelo país e pelo mundo. É lá também que está sepultado o corpo do patriarca Mota de Melo, desencarnado em 20 de janeiro de 1990.

Há cerca de dez anos, numa das edições iniciais do Encontro da Nova Consciência, realizado em Campina Grande (PB) no período do carnaval, Alex Polari plantou a primeira semente do Santo Daime no Nordeste. Desde então acompanha o surgimento de novos pontos e centros da doutrina na região. Recentemente esteve em Cascavel (CE), Lucena (PB), Campina Grande, Recife e Maceió. Em Natal, ficou alguns dias na Praia de Santa Rita (Litoral Norte) e em Pipa (Litoral Sul), onde dirigiu um trabalho espiritual com cerca de 60 pessoas. Nesta entrevista ele fala sobre a origem e fundamentos do Santo Daime.


Pergunta – O que é o Santo Daime?

Resposta – É uma doutrina, uma tradição religiosa que tem a sua origem no uso milenar da bebida denominada Ayahuasca. Trata-se de uma bebida sagrada, feita a partir de duas plantas (um cipó e uma folha), cujo uso se perde na origem do tempo. Há muitos milhares de anos que as tribos da Amazônia Ocidental fazem o uso desta bebida, nos seus ritos e cerimônias, com finalidade religiosa.

P – Como a doutrina do Santo Daime surgiu no Brasil, mais precisamente na Amazônia?

R – No começo do século passado, através de um maranhense chamado Raimundo Irineu Serra, que entrou em contato com essa tradição, com essa fórmula xamânica, que era utilizada pelos caboclos e pelos índios da Amazônia. Ele trouxe esta tradição para a cidade de Rio Branco, no Estado do Acre, onde trabalhava na época. A partir daí desenvolveu um trabalho espiritual, que tem na bebida o seu sacramento, o seu eixo central.

P – Quais são os fundamentos da doutrina? O que ela ensina?

R – A fraternidade e o amor universal. Atualmente ela tem sido objeto de interesse por parte de muitas pessoas, não só no Brasil como também em todo o mundo, graças a sua mensagem de fraternidade, de caridade cristã. Nossa tradição é bastante sincrética, tanto que a nossa igreja, constituída legalmente, depois de muitos anos de luta para o reconhecimento do uso das substâncias enteógenas, se chama Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal. Nós acatamos, respeitamos e assimilamos, em nosso trabalho, muitas vertentes da espiritualidade, de muitas culturas, de tradições de muitas épocas.

P – Por exemplo?

R – Nós afirmamos a doutrina do Mestre Irineu, o fundador do Santo Daime, como sendo uma renovação da mesma doutrina de Jesus, mas também com a inclusão de elementos que fazem parte da História da Humanidade. Nós temos, por exemplo, tradições esotéricas. O Mestre Irineu e o Padrinho Sebastião, o seu continuador e do qual somos seguidores, durante muitos anos tiveram contato e desenvolveram trabalhos junto ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Também temos elementos do Espiritismo. O Daime trabalha o desenvolvimento mediúnico de cada um. O próprio Padrinho Sebastião, antes de abraçar o Daime, foi um médium que trabalhou como curador no Vale dos Juruá, um lugar completamente isolado, dentro da floresta amazônica. Ele trabalhava com o (espírito) doutor Bezerra de Menezes e o (espírito) professor Antônio Jorge. Até hoje nós realizamos um trabalho voltado para Mesa Branca de caridade. Também temos tradições africanas. O Mestre Irineu era um negro maranhense que tinha muita ligação com os cultos africanos.

P – Como foi que o Mestre Irineu recebeu inspiração para fundar o que talvez seja a manifestação religiosa mais genuinamente brasileira?

R – Todo este conjunto de influências, muitas das quais inclusive foram consideradas heréticas pela igreja, foi assimilado na forma de um cristianismo renovado e de uma revelação que o Mestre Irineu teve, na floresta amazônica, quando recebeu a sua missão espiritual através de uma deusa, que ele chamava de rainha da floresta. Consta ter sido a aparição de Nossa Senhora da Conceição, que deu para ele este segmento, recomendando reunir seus discípulos e trabalhar a partir dos conhecimentos que a própria bebida foi revelando através dos hinos.

P – Quais os tipos de trabalhos espirituais que os daimistas consagram?

R – A nossa doutrina é eminentemente musical. O nosso trabalho se baseia nas instruções e nas mensagens obtidas a partir do estado de expansão da consciência, que a bebida, dentro daquele ritual, nos favorece. A partir daí, cada aparelho, cada médium, cada membro acessa muitas informações do plano superior e recebe essas instruções na forma de hinos, de cânticos, que são cantados no decorrer das festas realizadas.

P – Quando e em que situações são realizadas as festas?

R – Nós temos um calendário oficial de datas festivas que coincide normalmente com as datas tradicionais dos santos da Igreja Católica: São João, São Pedro, etc.. Também comemoramos as datas de nascimento dos fundadores da doutrina. Cantamos um hinário em que toda a irmandade baila em torno de uma mesa que tem a forma de uma estrela de seis pontas, no centro da qual está a cruz do Cruzeiro, que é a cruz de Caravaca, aquela cruz de braço duplo. Neste ritual a gente comunga a bebida desde o entardecer de um dia até o amanhecer do dia seguinte. É dançando em torno desta estrela, cantando os hinos e tomando o sacramento que trabalhamos o estado de elevação mental, buscando uma conexão profunda com o plano espiritual.

P – Qual é o significado dos hinos e o que eles dizem?

R – O hino é uma coisa muito sagrada para nós. Ele diz respeito à história pessoal de cada um, daquele que o recebe em uma determinada situação, e ao mesmo tempo é um patrimônio de toda a irmandade porque traz uma mensagem, um conselho, uma chamada, uma louvação.

P – Se os hinários representam festejos para a irmandade daimista, como é então realizado o trabalho de caridade em favor dos necessitados?

R – Também realizamos trabalhos de concentração e de cura em beneficio dos doentes, com o uso do sacramento. É um trabalho muito sério, profundo, praticado com muita responsabilidade. É um trabalho que lida diretamente com a ampliação da consciência. A gente acredita que este estado visionário, de contato com seres espirituais, é o mesmo que iluminou santos, profetas e avatares que já encarnaram neste mundo.

P – A tradição do uso das plantas sagradas, como foi dito anteriormente, remonta à origem do tempo. Quais culturas faziam uso das substâncias enteógenas para fins de crescimento espiritual?

R – Há registros na história das culturas mais antigas e também das culturas mais refinadas. Desde o neolítico, o uso dos cogumelos foi uma constante e um fator de desenvolvimento da própria espécie humana. Posteriormente, na Índia antiga, a gente tem o registro de utilização do soma, uma bebida que era utilizada também para fins cerimoniais e religiosos, nos permitindo até supor que os Vedas, e tudo o que foi criado em torno da espiritualidade maior na Índia, também teve, na sua raiz, o estado visionário destes primeiros videntes que deram origem a este tipo de trabalho. Na Grécia Antiga, o culto aos mistérios de Eleusis também era feito através do uso de uma substância adicionada na forma de um vinho, também tomado em cerimônias. E por aí vai o xamanismo, nas tradições das tribos nativas aqui da América, que são fartas de exemplos de como essas culturas antigas utilizavam essas plantas. Longe de ser um fator de desagregação, pelo contrário, foram fatores de estabilidade de culturas muito refinadas, que sobreviveram durante séculos. É esse o panorama da nossa tradição.

P – Como é a luta do daimista que mora na floresta, afastado dos centros urbanos, voltado exclusivamente para a vida comunitária e espiritual?

R – Atualmente desenvolvemos um trabalho intenso, tanto na parte religiosa e espiritual, como também na parte social e ambiental. Nossa irmandade, a partir do Mestre Irineu e do Padrinho Sebastião, formou uma comunidade dentro da Amazônia, há 25 anos, em um lugar de difícil acesso. Muitos de nós, que seguimos os ensinamentos do Padrinho Sebastião, desenvolvemos na floresta uma série de projetos de cunho ambiental e social junto a uma população muito desassistida de todo e qualquer auxílio do poder público. A nossa tradição prevê como uma coisa sagrada a preservação da floresta, das espécies vegetais, através das quais fazemos o nosso sacramento.

P – Como uma proposta de vida comunitária, sedimentada no meio da floresta, atraiu pessoas habituadas à vida nos grandes centros?

R – Nossa irmandade é formada pelo povo que acompanhou a saga do Padrinho Sebastião nas décadas de 70 e de 80 e depois se expandiu para todos os centros urbanos do país. Foi quando nós, que viemos do sul do país, também fizemos contatos lá no Acre, conhecemos o Padrinho e trouxemos o Daime para a cidade grande. Ainda na década de 80 o movimento cresceu muito no país e, em 90, também no exterior. O fato é que os irmãos chegavam para conhecer esta bebida e, de alguma maneira, eram cativados pela simplicidade e sabedoria do Padrinho. Hoje estamos no mundo inteiro desenvolvendo o nosso trabalho.

P ─ Onde fica a sede da doutrina e como vivem os seus membros?

R ─ A sede fica na Vila Céu do Mapiá, uma comunidade localizada no coração da floresta. Vivemos lá como um grupo, um grande caldeirão de raças e culturas, com pessoas vindas de todas as partes do Brasil e do mundo. A comunidade já viveu de forma bastante pura. No início, sequer circulava dinheiro lá. Nos últimos anos, naturalmente, a comunidade teve um grande progresso, um desenvolvimento muito grande também na parte material. Nos últimos cinco anos criamos o Instituto de Desenvolvimento Ambiental Raimundo Irineu Serra, que trabalha na forma de sociedade com a participação dos membros da igreja. É através dele que desenvolvemos uma obra social relevante e também de preservação da floresta e de produção auto-sustentável. Também temos uma associação que organiza os moradores da vila e de seus arredores, conveniada com o Ibama e com o governo federal, que também é detentora dos direitos de exploração dos recursos naturais de uma área de 300 mil hectares da Floresta Nacional onde nós estamos assentados. Temos trabalhado muito em prol do nosso melhoramento enquanto comunidade e também da melhoria da qualidade de vida dessa população carente.

P ─ Há dificuldades para a liberação do Daime em outros países, como ocorreu no Brasil?

R ─ Essa é uma questão polêmica. Na década de 80, tivemos muitos contatos com as autoridades, recebemos muitas visitas de comissões interdisciplinares, formadas por cientistas, pesquisadores, promotores, advogados, historiadores. Foi feito um estudo profundo em nossa comunidade, em 1987, pelo então Conselho Federal de Entorpecente, que paradoxalmente ainda é o órgão que cuida da nossa expressão religiosa, justamente por causa da confusão que se faz entre o uso do nosso sacramento e o de drogas. Esse parecer de 87 nos concedeu o direito legal e legítimo de tornar o uso do nosso sacramento e o trabalho da nossa igreja, que é legal, registrada, como uma tradição religiosa, amplamente reconhecida em todo o país. E a partir daí estamos empenhados de conseguir também que este direito seja reconhecido fora do país para beneficiar nossos irmãos estrangeiros. Hoje já estamos com este direito garantido na Holanda, o primeiro país que permitiu o uso do nosso sacramento, e também na Espanha. Estamos lutando nos EUA, um país onde, apesar da mentalidade reacionária da atual administração republicana, que está pensando mais em guerra do que no progresso da consciência humana, também já conseguimos algumas vitórias. O juiz federal do Novo México deu o parecer favorável ao uso religioso da bebida, mas ainda estão tentando recorrer.

P ─ É possível perceber que a doutrina do Santo Daime valoriza a transformação e o aprimoramento do ser humano. Que tipo de pessoas procuram o Daime?

R ─ O trabalho de caridade não pode ser dedicado às pessoas que já estão prontas, que já estão desenvolvidas. Realmente é um trabalho muito sério, como a gente diz, é um atalho que encurta muito o caminho. A transformação advém de um processo bastante profundo, bastante intenso de desenvolvimento, de quebra da parte negativa da nossa personalidade. É um trabalho que também tem uma ligação muito grande com o desenvolvimento do coração, o aprimoramento da nossa consciência e da nossa mente.

P ─ Após tantos anos de militância na doutrina, quais os exemplos marcantes de transformações que você presenciou?

R ─ São muitos os casos, a começar por mim mesmo. Eu realizo este trabalho há mais de vinte anos. Foi motivo de uma grande transformação, foi um achado, uma realização muito grande em termos de busca espiritual. E a gente tem visto muitas pessoas que têm se encontrado, pessoas doentes que têm se curado, muitas pessoas desorientadas que têm achado o seu rumo, a sua busca espiritual. É claro que também chegam pessoas com dificuldades, pessoas carentes, várias pessoas enlouquecidas, desesperadas. É trabalho de caridade. A gente recebe, procura orientar e procura dar de alguma maneira uma assistência do ponto de vista de um conforto espiritual, dando uma abertura para que a pessoa possa fortalecer a sua espiritualidade e enfrentar seus problemas de uma outra maneira.

P ─ Qual é a sua visão de mundo hoje?

R ─ O mundo está como sempre esteve. Muito maravilhoso, nos dando a grande chance de viver, de estar encarnado, aprender, evoluir. E está também muito conturbado, afastado da sua meta original de ser uma escola de formação

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