Entrevista com o babalorixá Cidão de Xangô

Entrevista com Cidão de Xangô

Héctor Othón Astro

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Entrevista por: Daniela Smania

Minha querida irmã espiritual, a jornalista Daniela Smania entrevista :Cidão de Xangô Um Pai-de-Santo, que teve sua primeira manifestação mediúnica na infância e hoje, aos seus 80 anos de idade, acumulou conhecimentos de Mesa Branca, Umbanda, Candomblé que o consagraram como um PAIZÃO de todos. Cidão é um médium completo. Conhece a língua do Santo, é vidente, joga búzios, faz sacudimentos, limpezas, passes, prepara comida dos orixás, descarregos, ebós……enfim!!!

Participou da produção do programa “Umbanda no Universo” que era exibido na década de 80 pela Tv Gazeta, e da formação da Associação dos Cultos de Umbanda e Candomblé e Similares do Estado de São Paulo.

Chama o Cidão!

Cid Correa de Toledo – mais conhecido como Cidão –, hoje com 79 anos, é para muitos um modelo de virtudes e homem bastante procurado para dar conselhos e realizar descarregos espirituais. Filho de Uladismir e Liberalina e também filho de Xangô, Cidão recebeu, em 6 de maio de 2007, a coroa de Rei Congo das mãos de Mestre Silvio Antonio, do grupo de congada Companhia de Moçambique São Benedito de São Paulo. A coroação aconteceu na festa ‘Kizomba de Tata Kizumbe’, organizada pela igreja daimista Reino do Sol em homenagem aos pretos-velhos. Ainda no tempo da escravidão, no contexto das congadas e festas populares, os negros mais velhos eram coroados como forma de relembrar os ancestrais africanos e de reafirmar o carisma da raça. Ricardo Marcondes, um dos organizadores da festa e dono da idéia da coroação afirma: “Coroando o Cidão, estamos reverenciando os nossos ancestrais na forma do Pai Velho, aquele que tem sábios conselhos porque já viveu e viu muitas coisas.” Na entrevista abaixo, Cidão de Xangô, que também é padrinho de batismo de Léo Artése, conta fatos de sua vida e fala sobre sua trajetória espiritual.

Conta um pouco da sua infância. Como era sua família e, em especial, sua vida religiosa?

Nasci no interior de São Paulo. Fui criado com meus pais, meus avós. Cheguei a conhecer ainda um bisavô que era bugre índio. Aí a gente vai dentro da religião, da seita, do amor e do carinho e eu iniciei no espiritismo. Eu tinha muitas visões. Então minha mãe procurou uma mãe-de-santo antiga. Chamava Maria – dona Maria. Ela fazia curas, era benzedora. Eu tinha alucinações e via muitas coisas, previa o que ia acontecer no dia seguinte, daqui um mês, daqui um ano e contava tudo para minha mãe. Como minha mãe já era espírita e amava muito as entidades, a corrente médica, ela achava que estava fluindo alguma coisa em mim, algum carisma, algum dom que estava me prejudicando em vez de me ajudar. Às vezes eu ficava tomado de repente na incorporação de uma entidade, um caboclo, um índio, uns pretos-velhos, que atuavam muito em mim.

Você tinha que idade?

Eu tinha mais ou menos seis anos. Com sete anos, minha mãe me levou nessa benzedora. Eu cheguei na casa dela e falei: “Tem bolo de fubá?” Ela ficou assustada: “Como bolo de fubá? Acabei de fazer. Como você viu?” Eu falei: “Eu senti o cheiro. Eu vi. E vi um preto-velho que estava perto de você.” Minha mãe não acreditava. Achava que eu zombava muito, dava risada, mistificava, sem saber quem era, quem não era. Eu também conversava numa língua estranha, das próprias entidades. Aí a benzedora falou para minha mãe: “Seu filho… Cidão… vou chamar ele de Cidão… ele vai se desenvolver e vai fazer muita cura.”

Ela era mãe-de-santo de qual linha?

Do Candomblé.

Sua mãe e seu pai também?

Não. Minha mãe era da Mesa Branca. Kardecista. Já meu pai não acompanhava. Ele era meio descrente. Por isso, ele até proibia às vezes minha mãe de me levar ao centro espírita.

Quando essas atuações começaram a ocorrer você já freqüentava a escola? Elas aconteciam em ambientes fora de casa?

Comecei com sete, oito anos a freqüentar a escola. Mas só quando eu ia para o mato é que acontecia geralmente. Eu pulava o quintal dos vizinhos e ia roubar pêssegos, frutas. Tanto é que eu fui mordido umas oito, dez vezes por cachorros. Parece que os cachorros gostavam de mim. Enquanto não me mordiam não sossegavam. Aí eu fui me desenvolvendo. Eu estava no meio do mato e via os vultos. Eu me lembro até hoje quando eu estava em Jaú e vi uma mula-sem-cabeça.

Você nasceu em Jaú?

Nasci em Jaú. Aí eu vi a mula-sem-cabeça. Eu falei para minha mãe e ela: “Você está louco! Não tem mula nenhuma sem cabeça!” E eu falei: “Está aí e ela vem atrás da gente!”

Você teve medo?

Não. Não tinha medo. Eu espantava ela, jogava pedras. Jogava aqueles torrões de barro e espantava.

Com quantos anos você veio para São Paulo?

Vim com nove, dez anos. Veio a família inteira.

Quantos irmãos você tinha?

Nós éramos em onze. Eu era o caçula. Fui o último, a raspa do tacho.

Como você, criança, lidava com esse dom de ver coisas, de prever acontecimentos? Você entendeu as palavras da benzedeira?

Eu não sabia. Era inocente. Ia pulando de degrau em degrau. Mas eu vi que o mistério estava se desvendando. Aí mais hoje, mais amanhã… Naquele tempo conheci um moço que recebia uma entidade que tinha um perfume maravilhoso, era um perfume que ficava na casa toda e não saía – um perfume gostoso! Ele namorava uma moça, mas a moça ficou apaixonada por mim. Eu era um moleque e ele ficou com ciúmes e começou jogar carga em cima de mim. Foi quando eu fiquei ruim.

Como ficou ruim? Ele era seu amigo?

Fiquei ruim devido às forças negativas dele. Naquele tempo eu saía com ele e ele trabalhava com entidades maléficas. Ele não era amigo, era um conhecido. Conheci ele numa sessão espírita. Ele apareceu, chamava Luis. Foi numa Mesa Branca, fazendo sessão para cura, ali na Bela Vista, na rua Japurá. Ele ficou com ciúmes da namorada dele, porque ela me agradava muito, gostava de mim. Ele achou que eu tinha um caso com a menina, mas jamais eu tive. E aí foi indo, foi indo, ele quis me queimar. A gente falava ‘queimar’. Como ele trabalhava muito, tinha uma força muito grande espiritual, ele me dava gilete para comer e eu comia.

Por que você comia?

Comia porque ele dava para eu comer. Ele era malvado. Quer dizer… eu era inocente. Mastigava aquelas giletes novinhas, mastigava, mastigava e tomava água. E ele falava: “Não vai acontecer nada.” E me usava nos trabalhos por causa da força que eu tinha. Ele lapidava diamantes e tinha dentes lindos. A gente começou a fazer trabalhos. Um dia eu estava concentrado. Quando a gente se concentra, geralmente sai do corpo, chama o perispírito e vai. E eu saí do corpo para fazer um transporte, um trabalho de levitação e, quando eu quis voltar, ele não deixava eu voltar para o meu corpo, para minha matéria. Estavam lá mais umas oito, dez pessoas. Então eu o derrubei. Pus toda minha força em cima dele para afastar ele e voltar. Aí comecei a sentir que eu tinha força, poder e podia usar em cura e em trabalhos decentes. Naquele tempo eu trabalhava com lenço branco e perfume. Eu tinha um cunhado padre – ele largou a batina para casar com minha irmã – e ele me chamou e falou: “Cid, você não precisa disso. Você tem mediunidade, tem força, tem poder, não precisa usar branco, fazer essas coisas que você faz.” Começou a me ensinar, me doutrinou para eu trabalhar direito.

Essa turma se reunia com freqüência para prática de pensamentos negativos?

Essa turma, naquele tempo, já usava maconha. Todo mundo fumava. A gente começou com folhinhas de chuchu, com umas porcarias e depois se aprofundou na erva da maconha. Com doze anos eu já fumava. Aquilo era normal. Íamos jogar futebol e sair para dançar. Para ficar desinibido, fumava. Aí pegava ‘força’, sentia. Então foi indo, foi indo e a mediunidade foi crescendo. Foi quando eu comecei a freqüentar o Candomblé com meus amigos. Eu tinha uns amigos espíritas. Morava na Bela Vista. Mas antes do Candomblé, eu freqüentei a Igreja Batista da Liberdade. Porque lá faziam festinhas, tinha doce. O pastor gostava muito de mim e me punha para trabalhar. Eu fiquei uns cinco anos nessa igreja.

E* quando você foi com os amigos para o Candomblé?*

Eu estudava no Colégio Minerva. Tinha uma turma lá que fazia sessões. Naquele tempo se fazia com o copo, para o copo andar. Não podíamos pôr a mão na mesa. E geralmente as pessoas ficavam tomadas, ficavam ruins e eu curava elas, fazia voltarem. Aí foi indo, foi indo, foi melhorando. Depois, aos poucos, nós fomos chegando no Candomblé. Eu já tinha vinte e dois, vinte e três anos. Nós fundamos o ‘Abassá do Obaluaê’, um centro de Candomblé. Também freqüentávamos a Federação Espírita. Era o tempo do Jamil Rachid [presidente da União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil].

Qual era sua função nesse centro?

Eu era um pai-de-santo. Hoje a gente fala zelador-de-santo, mas era considerado um pai-de-santo. Eu tinha muita força, comandava o batalhão lá.

Que entidade te guiava?

Guia até hoje, coisa de cinqüenta, quarenta anos. É o Humberto Jacob Salung, que é o preto-velho. Nasceu na Africa, em 1602. Depois de 112 anos desencarnou. Ele incorporava em mim e eu trabalhava com ele. Comecei trabalhar depois com uns índios também. O Caracapagés, por exemplo. Eu trabalho com eles até hoje, trabalho mais com o Brogotá, que é um cacique.

Você consegue descrever como é essa experiência deles conversarem com você e da incorporação?

Era uma experiência linda. Às vezes eu queria fazer bobagem, besteira, e eles apareciam e não deixavam.

Isso no dia-a-dia?

É que fiquei muito tempo – oito anos – no meio de bandidos e ladrões no Bixiga, sem trabalhar. Depois eu fui para a polícia, para a polícia marítima. Foi onde fui me criando no meio de desordeiros, bandidos e ladrões.

Você tem algum caso para contar dessa época em que você ia aprontar e uma entidade chegou e te deu a correção?

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Meus amigos falavam para mim: “Agora você vai ganhar tudo quanto é mulher, porque você é médium, se desenvolveu. As mulheres vão correr atrás de você.” Mas a gente vai vendo nas outras religiões que é tudo igual, só muda o endereço. Eu já ouvi isso no Daime também, logo no começo, a turma falou: “Você tomou Daime?” Eu falei: “Tomei.” “Agora você vai ficar potente que o Daime dá potência.” Mas eu falei: “Pô! Já lá na Umbanda era assim, depois, no Candomblé, também.” Só que no Candomblé é mais rigoroso. Não se pode namorar filha-de-santo. A filha-de-santo é tua irmã, é tua mãe. Tem que evitar o máximo para não dar quizila [aborrecimento]. Como a entidade que eu tenho é de Xangô, então falaram: “Se Xangô tem três mulheres, você pode ter três mulheres também.” Aí a entidade falou para mim: “Não. Xangô é Xangô. Mas você não é Xangô. Você é filho de Xangô. Filho é diferente!” Então eu fui me moldando para poder melhorar tudo por tudo. É quando a gente vai subindo os degraus da vida, vai trabalhando no mundo espiritual, vai conhecendo e a cada dia aprendendo um bocadinho mais. Depois o Leozinho [Léo Artése] me pegou pelo braço: “Cid, você pára com essas coisas aí… Vem trabalhar comigo.” E começou a me puxar para o Daime.

Qual foi a diferença entre suas vivências no Candomblé e na Umbanda?

Como eu freqüentei o centro de Mesa Branca, a turma falava que o Mesa Branca era água com açúcar. Depois passei para a Umbanda. É um pouquinho mais forte. Mas no Candomblé foi que eu me realizei mesmo. Senti as forças da natureza.

Você lembra alguma história que te marcou durante essa trajetória espiritual?

Minha irmã tinha um centro espírita ‘Nosso Lar’. Esse eu freqüentei, na Praça da Bandeira, de quando eu tinha quatorze, quinze anos até os vinte e cinco. Eu trabalhava lá com o Bezerra de Menezes, com o doutor Fritz e tive uma passagem muito boa, quando eu conheci o Chico Xavier. Trabalhei com ele. Toda vez que ele vinha para São Paulo, ele me visitava e me dava conselhos. Ele falava: “Cidão, essa turma que está com você, que está rezando o evangelho e que fala ‘Tá lá no capítulo sete, versículo nove, tá escrito aqui no livro’, não sabe nada, sabe menos que você. Não liga.” Eu me lembro até hoje a frase que ele falava, que ‘os cães latem e a caravana passa’. Ele me ensinou muita coisa. Primeira coisa, a humildade. Ele falou: “Cidão, você tem que ser humilde. Se você não é humilde, não chega a lugar nenhum.” E foi isso que eu plantei. Até hoje estou me dando bem com isso.

Você conheceu o Chico Xavier nesse centro?

Eu trabalhava na 24 de Maio [rua no centro de São Paulo]. Lá naquele tempo tinha a Rádio Piratininga, onde ele ia quando vinha de Minas. Ele passava lá para dar entrevistas. Mas cheguei a sentar com ele em Mesa Branca. Ele ficou do meu lado e aqueles fluidos que passou para mim, aquela força, aquele amor, foi coisa que não tem dinheiro no mundo que pague.

Você participava de um programa de rádio?

Nós criamos o ‘Umbanda no Universo’ na TV Gazeta, que hoje está deturpado. Criamos um jornal também. Quer dizer, nós plantamos e os outros colheram. Naquele tempo trabalhava a Sheila. Eu me lembro que nós fizemos lá um trabalho de Umbanda para o jornal. Eu tinha uma amigo – chama Getúlio – que é o maior ogan [dentre outras funções, o tocador de atabaque no Candomblé] do Brasil. Então ele começou a tocar e a Sheila ficou tomada lá. Dava pulos de dois, três metros de altura. Para fazer ela voltar demorou…

Vocês faziam as entrevistas ou eram entrevistados?

Éramos entrevistados. Chamavam a gente como hoje ainda chamam. Tem o segredo que querem desvendar…

E a Dona Iolanda [esposa já falecida]? Ela apareceu na sua vida em que momento?

Ela apareceu quando eu desfilava na Vai-Vai, no Bexiga. Fui convidado para uma festa de aniversário. Chegamos na festa e ela estava lá. Eu tinha vinte e oito anos quando a conheci. Um amigo me apresentou. A gente, naquele tempo, freqüentava a academia do Eder Jofre. Eu vivia com aqueles lutadores de boxe. A gente se metia na malandragem e nas brigas. Eu tinha um amigo de apelido Francês e o Pedro Galasso, que era campeão brasileiro de luta livre e de boxe. O Francês me apresentou a Iolanda. Ela me viu entrar no meio daquele cordão só de pretos e ele falou: “Esse que é o Cidão!” Ela falou: “Nossa!” Mas uma negrinha que estava lá, porta-bandeira, parou perto dela, enfiou a mão no sutiã, tirou uma fotografia minha e falou para outra menina que estava do lado: “Esse aqui é meu branco!” Ela viu minha fotografia com a negrinha e não queria me ver nem pintado de ouro. O cordão fez a representação e saiu. Aí eu fui lá quando terminou. Naquele tempo eu tinha uns cartõezinhos com meu endereço e telefone. Eu pus na mão dela: “Me telefona!” Ela ficou mordida: “Vou telefonar nada!” Aí meu amigo: “Telefona que o Cidão é gente boa!” Ela acabou me telefonando e o romance se desencadeou. Ela tinha olhos azuis, coisa linda. Eu fiquei apaixonado pelos olhos dela.

Quanto tempo vocês namoraram até casar?

Foi uma coisa rápida, um ano, dois anos. Eu não ia casar, estava namorando como a gente namora hoje. Mas aí eu conheci o Léo, pai do Léo [Artése]. Ele namorava a irmã da Iolanda e um dia ele perguntou: “Você não vai casar?” E o pai da Iolanda começou também a pegar no meu pé, que o caldo, quando é muito grosso, enjoa e dá dor de barriga. Aí eu brinquei assim: “Eu vou casar sim.” Então o Leozão mandou vir uma dúzia de cervejas e anunciou que o Cidão ia casar. Aí não teve jeito. O casamento durou quarenta e poucos anos.

Quantos filhos você teve?

Um casal. Um homem e uma mulher. Hoje três netos moram comigo. Minha filha faleceu com trinta e seis anos e seus filhos ficaram comigo. Meu outro filho tem duas moças. Ele me visita sempre, me ajuda bastante. Continua amigo.

Fale um pouco da sua vida profissional.

Não tenho queixas, só tive alegrias. O primeiro emprego meu foi na Light. Depois meus irmãos, que eram tudo da polícia, me tiraram de lá, que era um emprego maravilhoso – escritório – para trabalhar no ‘Bar e Café Echenique’, na Praça da Sé, 13. Lá o meu cunhado o que fez? Me punha para cuidar da vitrine. Naquele tempo, lá só tinha bandoleiro. Era passeata ali na Rua Direita, faziam o trottoir ali, passeavam lá para namorar, para tudo. Então ele me dava um pau de fumo – a gente trabalhava com fumo de corda, com charuto importado, isqueiro, perfume – e me punha para tomar conta da vitrine de sábado e domingo. Eu ficava lá com o pau, batendo nos negros, dia e noite, para não deixar eles quebrarem a vitrine, que quando ficavam bêbados, arrebentavam tudo. Eu ficava lá tomando conta, era o que hoje tem nas boates, um tipo de guarda-costas.

E depois?

Eu saí de lá e fui trabalhar com aparelhos domésticos. Trabalhei primeiro com um parente do G. Aronson, no ‘Centro das Geladeiras’, na 24 de Maio, onde eu encontrei o Chico Xavier. Eu era vendedor. Depois, do ‘Centro das Geladeiras’, eu fui para a ‘G. Aronson’, onde fiquei quase trinta anos. Tomei conta das lojas. Fui gerente por dez anos de uma das filiais. Entrava sete, oito horas da manhã, saía meia-noite.

Como foi sua passagem do trabalho espiritual no terreiro de Candomblé para o Santo Daime?

O Leozinho [Léo Artése] teve muitas atuações espirituais uma temporada. Eu cuidei dele logo que ele nasceu. Batizei ele quando era pequeno. Ele ficou ruim uma temporada, quando ficava possuído. Ele bebia demais, era bagunceiro, só arrumava arruaça. Ninguém curava ele. Ficava o cão quando ficava tomado. Aí o que eu fiz? Fiz um carrego, um ebó [oferenda de alimentos], um sacudimento… para ele e os amigos dele. Ele tinha uns sete, oito amigos, tudo bandoleiros. Amanheciam nas farras, nas gandaias, bebiam tudo que tinham direito. Aí eu fui fazer o trabalho para ele. Foi quando eu desenvolvi o Leozinho. Pus o santo na frente dele: Ogum. Aliás, ele teimava que era de Ogum porque ele bebia e a mãe dele não agüentava mais, nem o pai. Eu falei: “Sabe o que eu vou fazer? Como Ogum bebe demais, tem muito vício, muita bagunça, eu vou firmar teu santo.” Firmei o santo dele em Oxossi.

E a chegada no Santo Daime?

Depois ele foi indo, foi indo e foi para o Daime. No Daime, ele se realizou, se encontrou. Mas, vira e mexe, ele vinha em casa para se consultar quando passava aperto. Eu segurava a bússola dele e isso até hoje, graças a Deus. Aí ele ficou bom. Melhorou. Então ele ficou no Daime e falou: “Cidão, vem comigo! Que o Daime não sei quê, não sei quê!” Eu ia de vez em quando com ele. A gente ia no fim do mundo, se perdia às vezes para achar o lugar. Naquele tempo não tinha o sítio. Tinha que trazer mapa, bússola. Depois não conseguia voltar. Mas a gente foi lutando, lutando e foi chegando até onde chegamos hoje, graças a Deus.

Faz quanto tempo que você se fardou [Fardamento: rito do Santo Daime no qual se assume compromisso com a religião. Passa-se a usar um uniforme ritualístico]?

Acho que faz uns dez anos mais ou menos. Mas eu fiquei sem me fardar um tempo. Não queria me fardar. Aí o Léo me enchia: “Cidão, você tem que se fardar.” Falei: “Não vou.” “Vai sim. Vai se fardar e depois faz o que tem que fazer.” Porque eu atendia a turma que antes freqüentava comigo o Candomblé, os filhos-de-santo. E aí foi devagarinho… a gente foi se separando. Eu fui parando. Depois eu trabalhei com os extraterrestres. Até hoje trabalho. Falando do Daime, a primeira vez que eu fui, lá no meio do mato, me trouxeram um bastão para eu me apoiar para subir um morro. Levei uns trinta tombos. Fora eu, os outros levaram também. Mas eu fui o mais judiado lá. Mas falei: “Eu tenho que chegar!” E cheguei lá em cima. E aprendi uma coisa, senti lá a força da natureza. E comecei a ficar assíduo. Aí o Leozinho: “Se farda! Se farda!” Teve até uma briga com uma irmã que falou: “O Cidão já é mais que fardado. Não precisa se fardar.” Mas eu acabei me fardando.

E como você vê a Umbanda dentro do Santo Daime?

É uma das forças. Porque a Umbanda – falam Umbandaime – tem força. O Daime agregou todas as forças, todas religiões numa só. Que Deus é um só, nosso pai, nosso amor, nossa existência. Então não tem Umbanda, não tem Candomblé, não tem Quimbanda, não tem nada. O Daime é a força que cura todo mundo, eleva tanto o espiritual como o material. A gente, estando no Daime, tem contato com o mundo inteiro. Você, quer queira ou não, está sempre em atividade e não tem tempo para pensar maldade, pensar em briga, em intriga e obsessão.

Qual o significado para você de sua coroação como Rei Congo?

Foi bom porque a gente presta uma homenagem para os pretos-velhos, já que eles estão esquecidos, assim como os Erês. Hoje muita gente não comemora mais a existência deles. E eles são a força, a corrente africana mais tradicional do Brasil. Hoje a turma só quer saber de caboclo, caboclo… e se esquece dos pretos-velhos.

Hoje as pessoas continuam freqüentando bastante a sua casa, procurando sua ajuda?

Começa oito horas da manhã e termina meia-noite. Às vezes à uma hora, duas horas, eles telefonam. Quando ficam apertados, correm lá com o vovô, com o Cidão.

Acabou!

É isso aí!… Vamos nus, porém vestidos!…

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