Atualidade da vida Enteógena – Alex Polari

Atualidade da vida Enteógena – Alex Polari

Alex Polari

É profundamente excitante e fértil o fato de que o xamanismo, as “técnicas arcaicas do êxtase “, na feliz definição de Elíade, estejam novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabeler uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana. Em torno dessa indagação sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central, seu papel como fator estruturador da autoconsciência do homem e na criação do próprio pensamento religioso, está se criando um campo de estudos comum entre o saber científico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das plantas sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, ela nos estarão transmitindo a mesma mensagem. E a nossa consciência é ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada.

Isso é válido tanto para as técnicas xamânicas tradicionais quanto para as religiões enteógenas, fenômeno recente, dos quais o Culto do Santo Daime no Brasil, da Iboga no Gabão e do Peiote nos EUA são os maiores expoentes. Todos esses cultos utilizam um sacramento enteógeno, uma planta psico-ativa que em contexto apropriado, produz uma expansão da consciência e uma experiência de cunho eminentemente místico.

Nesses cultos, a comunhão com a entidade enteógena produz experiências marcantes e profundamente significativas para todos aqueles que dela participam. A linguagem visionária nos torna conscientes de um ethos e de um dharma que até agora julgávamos fazer parte apenas dos livros que tratam de um passado longínquo. Mas esta grandiosidade, ausente no nosso nível de consciência ordinário, está sempre presente no mundo numinoso e feérico da miração. Está presente aqui e agora, desde que queiramos acreditar nela e assumi-la na nossa vida cotidiana. É bom acreditar que fazemos parte de um destino muito mais nobre, que repousa no conhecimento do ser e que pode ser revelado pelo sacramento enteógeno a qualquer reles mortal e pecador. A experiência com as plantas sagradas não é a única que ajuda a realizar este destino. Mas por ser um atalho, é o caminho mais curto.

Essa é a autêntica boa nova que está sendo anunciada a todos os buscadores da verdade, confirmando a promessa feita há mais de dois mil anos. Quem é esse novo e misterioso mensageiro ? Para alguns psiconautas trata-se de um alcalóide, de uma mensagem cifrada depositada no mundo vegetal por uma espécie de Inteligência Alienígena. Para outros, é um nível de consciência onde podemos vivenciar a realidade do Eu Superior e do próprio Deus. Mesmo considerada de formas tão diversas, de onde é que brota essa voz capaz de nos elevar espiritualmente e ajudar a salvação não somente de nossa alma mas também de nossa espécie ? Do fundo de nosso ser ? Da pérola azul onde se encontra a sede de nosso Eu ? Do lótus de mil pétalas ? Da baraka do sheik, da presença do Mahatma ou de um suco de um cipó da mata ? Ou será que ela está sendo ouvida por nós vinda na velocidade da luz, desde as entranhas da eternidade ? Ambas as sensações são verdadeiras e a consciência humana é este ponto de intersecção entre o interior e o além, entre o ser profundamente íntimo e ínfimo, e o Cosmos, sem limite nem tempo. Ensina as Upanishads : Tu és isso !

Desde o início da idade de ouro, aurora dos tempos, que o poeta grego Homero denominou de “aurora dos dedos de rosa “, que as plantas sagradas despertam nos homens a lembrança de suas origens, a nostalgia do sagrado e uma ânsia por essa re-ligação com aquilo que se constitui no mistério básico de sua existência. Podemos ter uma idéia de interesse que esse tema tinha na antiguidade, quando consideramos a celebração quase ininterrupta dos cultos de Eleusis durante 2.400 anos.

Neste grandioso festival iniciático, que tinha lugar na cidade do mesmo nome, culminando meses de preparação e peregrinagens, era realizado um grande trabalho espiritual. O templo abrigava duas mil pessoas. E o Grande Hierofante conduzia a cerimônia onde era relembrada e representada a lenda do rapto de Perséfone, filha da Deusa Deméter, por Hades, Deus da Morte, que a levava para o Reino dos Espíritos. O momento culminante do ritual era quando, sob efeito do fungo claviceps purpurea ( algo próximo do LSD ), todos os presentes tinham visões coletivas sobre a história da Deusa e uma compreensão profunda do seu conteúdo simbólico e significado espiritual.

Em nossos dias, a aurora já está cedendo o seu lugar aos tons incertos do crepúsculo. O mocho de Minerva está voando nos céus e nos trazendo novos presságios sobre o destino da humanidade. Nada mais natural que, passados mais ou menos 1.600 anos, desde que o Culto de Eleusis foi suprido pela nascente organização eclesiástica cristã, o mensageiro enteógeno esteja de volta, na forma de uma planta sagrada que desempenha o mesmo papel que os avatares do passado, de nos instruir nos momentos de crise e de decadência da verdade.

Dizem que, periodicamente, a forca espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma no início do período védico, os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os yogues do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Aztecas até chegarmos nos povos e culturas remanescentes do Éden Original, situado na selva sul-americana. Parece que foi lá que Deus semeou grande parte da sua farmacopéia enteógena.

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