Eneagrama como ciência segundo Dra. Fátima Caldas

Dra. Fátima Caldas – Eneagrama

Entrevistei a principal focalizadora do Eneagrama de São Paulo: Fátima CaldasDra. Fátima é médica especializada em neurologia pelo Departamento de Neurociências do Hospital das Clínicas da USP. Dedica-se ao estudo da consciência em todos os seus aspectos e da fenomenologia. Especializou-se em psicodrama pelo Inst. Sedes Sapienteal, Gestalt pelo Instituto de Gestalt em São Paulo e acompanhando o Dr Cláudio Naranjo, terapeuta transpessoal versada em técnicas de regressão pela respiração e terapias sistêmicas e em Anatomia Emocional de Stanley Kelleman. É membro internacional da escola SAT fazendo parte da equipe desde 1996 sendo autorizada pelo Dr. Claudio Naranjo a aplicar o conhecimento da psicologia dos eneatipos atuando como psicoterapeuta nos módulos do SAT desde 2001.

É coordenadora do programa Sateduc no Brasil e diretora fundadora do Inst. Sateduc para Aprimoramento Humano. Organizadora do 1o. e 2 Simpósio para a Educação “Mudar a educação para mudar o mundo, o desafio mais significativo do milênio”Foi médica colaboradora da psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo / setor Drogadição.

Fátima conhece e estuda a Ayahuasca desde 1981, faz estudos de xamanismo,e do Budismo Tibetano que é xamanico, enfim fala a nossa língua.

Excelente terapeuta!

Dá vontade de ficar horas e horas ouvindo ela falar.

Léo: Saudações Dra. Fátima! Pode falar um pouco da sua trajetória?

Dra. Fátima: Começo pelo Espaço Com Ciência;justamente um espaço criado para unir pesquisas e experiências próprias da ciência neuropsicológicas, com as vivencias e estudos da consciência, que também é um pouco da minha historia. Como neurologista fiz uma trajetória visando unir o que eu sentia e aprendia como cientista, estudante do cérebro sobre a consciência humana ,com o fato de que este saber .”Consciência” vai muito além da ciência conhecida. Passa também pela filosofia ,psicologia e chega na espiritualidade. Este espaço tem a finalidade de colaborar para isso

Para que a gente possa desenvolver a consciência de uma forma científica e ao mesmo tempo espiritual, perceber que as coisas se unem. Então dentro desse espaço funcionam diversas linhas de trabalho todas convergindo para o desenvolvimento da consciência.

Tem 2 coisas que eu considero muito importantes na minha trajetória , que vem de uma trajetória cética, científica:

O primeiro foi meu encontro com a Ayahuasca, minha primeira experiência pessoal com a substancia. Sinto que mudou profundamente a minha maneira de pensar a existência humana,. Os neurotransmissores contidos na mesma me permitem um acesso a um parque de possibilidades cerebrais, nunca sonhados por mim, como neurologista. Não como sendo algo alucinogênico e sim enteogenico e também provocador de graus de lucidez e percepção do próprio psiquismo, inusitados, A Ayahuasca revela potencialidades do cérebro a serem desenvolvidas e que nós cientista na verdade não conhecemos bem.

O segundo foi meu encontro com Cláudio Naranjo. [(veja entrevista)].

Léo:Que também é um estudioso da Ayahuasca, Não é?

Dr. Fátima: Sim! Um dos primeiros artigos científicos que eu encontrei na literatura foram dele. Ele é uma pessoa profundamente dedicada ao desenvolvimento integral do ser humano e ao estudo da consciência.Um Grande Mestre . O encontro com ele realmente foi um marco na, minha vida. Assim como a Ayahuasca.

Nesse encontro, tornar-me uma discípula e aluna dele, como cientista e no caminho da espiritualidade, me fez entrar para essa escola, que ele criou, estar junto com ele e fazer parte de sua equipe e ajudar a representá-la.Essa escola chama-se SAT, (Seekers After Truth) e também ser em sânscrito, essa escola é justamente para o desenvolvimento do ser humano como ser integral; desenvolvendo os 4 aspectos, o ser espiritual e toda a potencialidade do corpo humano enquanto instrumento de evolução, a emocionalidade, a intelectualidade, tudo isso a serviço de um ser humano mais inteiro, podendo viver de uma forma mais inteira. Então desde que eu encontrei com ele, e que me tornei discípula, venho trabalhando nessa escola que tem como base o Eneagrama.

Sinto que ele além de ter uma profunda erudição, uma inteligência genial, eu já ouvi uma pessoa dizer que ele era o Sócrates; da vida moderna e eu considero isso também. Ele juntou a sabedoria do Oriente e do Ocidente, do Budismo Tibetano e do Xamanismo, dos estudo profundo dos estados ampliados de consciência e do estudo psicológico profundo através dessa escola sufi, ele é um mestre sufi, do quarto caminho, do eneagrama e vai por ai.

Então o primeiro passo dessa escola é você reconhecer que você, por adaptação formou um personagem e se identificou com ele. Esse personagem é a sua ilusão sobre você, que ao mesmo tempo lhe aprisiona e lhe cega para saber que além do personagem existe a essência.

Léo: Seria uma versão moderna dos pecados capitais?

Dra.Fátima: Exato! Por que os pecados nada mais são do que o desvio, pecado “caput” ,pecado cabeça que tem a ver com o “desvio do alvo” na arte do arqueiro .O arqueiro desviando do alvo , o desvio de si é o pecado. Então nosso pecado é o desvio da essência para identificação com o personagem. O personagem é útil enquanto personagem, não enquanto centro da ação, enquanto senhor de si.

Então todo o trabalho é voltado à recuperação desse “senhor interno de si” que na verdade é a essência, aquilo que nos une, o que liga o ser humano a divindade em cada um de nós e que é a mesma. Que deixa o ser religioso no sentido da divinização, do encontro daquilo que é divino, da natureza mais misteriosa do ser humano. Daquilo que une o ser humano ao todo, a origem, o princípio de tudo.

Léo: A origem do eneagrama então vem do sufismo?

Dr. Fátima: Isso! ! Vem dos Sarmounes (Fraternidade Sarmoun), do cristianismo esóterico antigo, na região Oriente

Léo: Tem algo a ver com os essênios.

Dra. Fátima: Vem por ali. Os Essênios, cristão antigos, depois vem Gurdjieff , um sufi, que traz para o Ocidente toda essa linhagem e o Cláudio Naranjo é uma marco de revelação e decodificação desse conhecimento através de uma linguagem psicológica.

Léo: Isso tem a ver com Oscar Ichazo ?

Dra. Fátima: Isso! O Gurdjieff vem para o Ocidente, tem alguns discípulos, chega o chileno Oscar Ichazo e vai para o Deserto de Arica e ficam lá por 40 dias onde “recebe esse conhecimento” (confirmado pelo próprio Cláudio Naranjo) e à partir daí passaram a desenvolvê-lo. Ele passou muitos anos da vida dele, trazendo por inspiração, o conteúdo profundo do que hoje ele descreve dentro da tipologia, dos subtipos. Então toda essa inspiração e ao mesmo tempo a constatação junto com os trabalhos do SAT. Então o conteúdo foi sento estruturado como é o trabalho do sufi mesmo. Um trabalho vivo que vai se desenvolvendo através da própria existência, da interação com as pessoas.

Léo: Então o eneagrama faz parte da espiritualidade sufi?

Dra. Fátima: Sim! O Eneagrama não é descrito como uma tradição escrita, por Gurdjieff e Ouspensky, e sim subtendido, porque ele era secreto, era um instrumento de trabalho dos mestres com os discípulos, e a tradição era oral. E essa tradição oral foi revelada a partir do Cláudio Naranjo com os trabalhos que ele fazia em Berkeley, onde tinha um grupo de terapeutas com os quais eles tinham um trato daquilo ser mantido . Porém um deles quebrou esse trato e escreveu algo. Então Cláudio Naranjo começou a revelar e passar o conhecimento para grupos, ampliando o trabalho, não só como terapeuta, mas também para a população geral. E ampliando para ramos como a educação, o SATEDUC , a aplicação para educadores, com o intuito de ter um núcleo de transformação mais rápido . (Sateduc http://www.simposioeducacao.com.br)

Léo: Essa ligação com os pecados capitais veio com Ichazo ou Naranjo?

Dra. Fátima: Veio pelo Ichazo, que já veio de Gurdjieff , que já veio dos sufis,etc

Léo: E acrescentaram o medo e a vaidade aos pecados capitais?

Dra.Fátima: Na verdade dentro dessa história eles já vêm como pecados capitais. Só que aqui para nós no ocidente são 7 , mas o medo e a vaidade são considerados também dentro dessa linha.

Léo: Podemos definir o eneagrama como um instrumento de autoconhecimento e transformação?

Dra. Fátima: O eneagrama tem esse objetivo básico que é a transformação humana. Embora inevitavelmente ele possa ser usado de forma mais superficial, o objetivo dele desde a origem é estabelecer um pacto da consciência de poder enxergar aquilo que é necessário transformar para poder superar a si mesmo. Porque o personagem é como se fosse a cristalização da ilusão. São os “demônios”, vamos dizer assim. Então cada tipo de ego faz parte de uma imagem demoníaca. O demônio como sendo a ilusão. O que mais distancia o ser humano da sua realidade divina é a ignorância. É a ilusão sobre si mesmo.

Léo: Vejo em alguns sites, questionários para descobrir o eneatipo. Isso funciona?

Dra. Fátima: Na prático vejo pessoas chegarem porque entraram em contato com o questionário, chegarem com diagnósticos prontos. Algumas vezes elas acertam e outras não. Uma pessoa para poder entrar em contato com um conhecimento do eneagrama e encontrar seu próprio personagem ,precisa estar disposta ,mas o conhecimento é tão fascinante que isto em si já estimula a coragem de se ver.

Não adianta nada eu dizer para uma pessoa que ela é um personagem. Porque se você pensar bem, todas as pessoas que convivem com você, de alguma maneira apontam seus defeitos. Você querer olhar para eles é o processo de escolha. Nós temos olhos para fora: Os olhos internos são mais voluntários e as vezes a gente confunde a autocrítica, o julgamento interno, que o próprio personagem tem com esse olho interno. E não é o mesmo! Tem personagens que são muito autocríticos. Isso não quer dizer que eles tenham a consciência do personagem deles. Então o personagem tem um sistema de crença, uma maneira de agir e de sentir, uma forma de viver. Tudo isso é um personagem. Para se dar conta desse personagem ela precisa ter um desejo, tem que estar de certa forma madura para querer olhar. Porque você pode olhar para o espelho e fechar seus olhos que não vai ver nada. Agora se abrir os olhos poderá ver em 3D, se realmente você se coloca para olhar pode aparecer aquilo que estava na sombra. Então o processo de autoconhecimento também tem a mobilização da pessoa. É preciso querer ver.

Léo: Quais são as etapas para a pessoa saber qual é o seu eneatipo?

Dra. Fátima: Uma pessoa que está querendo conhecer mais a si mesma, precisa ter acesso ao conhecimento. A melhor maneira para esse acesso é vivencial, porque o informativo faz com que a pessoa possa entender o que ela está lendo da maneira que ela quer. Cada personagem enxerga de um ângulo . Suponhamos uma rosa. Uma pessoa pode olhar para ela e destacar a cor, outra o espinho, outra a formiga que anda nela, ou um pedaço de teia de aranha, o cheiro….Cada pessoa destaca algo e algo se perde. Então para ter um acesso mesmo à tipologia é preciso que se tenha uma experiência. A experiência é vivencial

Léo: E relacional!

Dra.Fátima: Sim, também! Eu costumo dizer que os nove eneatipos formam como se fossem imagens de caleidoscópio. As peças são as mesmas, mas as figuras dependem da posição. Então as vezes necessário entender todas as posições para poder perceber qual é o seu eneatipo.

Léo: Observo que as pessoas dizem:

Tem características minhas que estão num outro eneatipo e características no meu, que não tem a ver comigo!

Dra.Fátima: Normalmente isso é uma confusão de interpretação. Sentimentos todos nós, temos todos! Todos nós temos inveja, orgulho, só que um determinado tipo de personagem sente a inveja em determinadas circunstâncias, reage de determinada maneira, aceita a inveja de determinada forma. Já o ego da inveja (eneatipo 4), a relação é central, ele é movido pela falta. Então as vezes as pessoas se confundem, primeiro porque o ângulo de visão está focado no sentimento.

Léo: Não é aquela inveja do tipo, puxa ele comprou um carro e queria ter um igualzinho. Não é?

Dra.Fátima: Não! É a inveja cercada por uma série de comportamentos. Então a pessoa passa a olhar o sentimento e não o contexto.

Léo: Por exemplo: Um ego da avareza poderia, como forma de compensação, ser um gastador compulsivo?

Dra.Fátima: O avarento raramente tem reações muito intensas A questão não é o dinheiro. Ele pode inclusive ter um desapego patológico do dinheiro. Ele pode inclusive não ligar absolutamente nada para o dinheiro, mas fica muito apegado as caixinhas que eles tem, folhinhas, o desenho que ele fez. O avarento na verdade é um “avarento de si” e não exatamente de coisas . O que distingue o personagem avareza é que ele não se dá. É uma avareza de sentimentos, de conteúdo de sí mesmo. Ele retém a sí mesmo. Esse é o ponto chave.

Léo: A pessoa com o ego da preguiça pode contestar dizendo: “Mas eu trabalho tanto!?”

Dra.Fátima: O preguiçoso pode ser um trabalhador compulsivo. Ele tem preguiça psicológica. Ele tem preguiça de si, do eu mais profundo, do eu psico-espiritual.

Léo: É aquele que se mata de trabalhar e não vai ao dentista? Fica adiando?

Dra.Fátima: Exatamente! Vai chegar a cárie e depois ele vai. É isso, para o outro ele está sempre disponível. Aliás geralmente se esconde de si através da compulsão pelo trabalho. Então o termo em si não é exatamente o conceito que nós temos da interpretação dos pecados que é muito mais moral, para essa linha é um desvio de si, o que é muito mais amplo.

Mesmo, por exemplo, o orgulho, não é exatamente o que a gente imagina.

Léo: Já que você está tocando nesse assunto, poderia falar algo sobre os 9 eneatipos?

Dra.Fátima: O ponto chave de cada um é o que chamamos de paixão, que é a doença da emoção ou o desvio da subjetividade da emoção que é por exemplo :

Eneatipo 1: A Ira

A ira fixada pelo perfeccionismo faz com que um irado retenha o impulso daquilo que é mais do desejo, da criança interior e transforme aquilo em civilidade. Então ele transforma o impulso em correção. Então é um perfeccionista. A ira é uma contenção, na verdade, de sua própria liberdade instintiva, da sua criança interior livre. Então ele contém a criança para se tornar um corretivo do mundo e de sí mesmo. O Corregedor!

Léo: Estão ai pessoas muito julgadoras?

Dra.Fátima: Ele é crítico consigo mesmo, com o outro. Ele está sempre querendo aperfeiçoar o mundo. è como se ele tivesse a sensação que civilidade é conter seu animal interno. E na verdade o animal interno é precioso. Porque é lá que está a sabedoria instintiva, inata. É aquilo que tem faro para vida, para as coisas. Então se você contiver o animal interno e se não sabe lidar com a raiva, como é o caso do irado que foi reprimido, então ele sai pelo mundo sem conseguir achar a perfeição e ai ele quer corrigir.

Eneatipo 2:O Orgulho

Já no caso do orgulho é uma sensação de compensação da carência, através da sensação de abundância. Então o orgulhoso tem na verdade uma sensação de que ele tem muito para dar. E, na verdade, ele ao dar traz a nota promissória junto. Ele dá sentindo o prazer em dar. “Eu sou muito legal porque eu dou” . Ele sustenta o orgulho na sensação de que ele tem mais do que os outros. Então a generosidade egocêntrica, na verdade, existe para compensar uma carência. Na medida em que eu dou, eu me achoEntão o orgulhoso ele se acha uma fonte de prazer, de salvação, e com isso ele sustenta nele mesmo uma sensação de auto-estima.

Eneatipo 3:A Vaidade

Já o vaidoso, precisa do olho do outro. Ele dá aquilo que dá ibope. O orgulhoso dá e se acha, o vaidoso precisa de que o outro o ache. Ele está buscando fazer sucesso, brilhar e receber o brilho através do outro. Ele se olha pelo olhar do outro.

Eneatipo 4:A Inveja

O Invejoso não é um ego de imagem, mas ele olha para o que falta. Em sí e no outro. Sempre guido pela insatisfação. Ele mantém uma insatisfação olhando para o que falta, e com isso está sempre queixando do que falta, apontando o que falta. A insatisfação é a base.

Eneatipo 5: A Avareza

O avarento olha o mundo, como se o mundo não tivesse nada para dar a ele. Então ele se isola para não ficar sem o pouco que ele tem . Ao se isolar, se distanciar, ele aumenta mais a sensação de que o mundo não tem nada para dar a ele. _É preciso reter o que eu tenho.Então ele retém a si mesmo e com isso ele sustenta uma ideia de que ele não precisa de nada.

Léo: Como ele retém, a obesidade mórbida se aplicaria?

Dra. Fátima: É o inverso disso. Dificilmente um obeso é um avarento! O avarento ocupa muito, pouco espaço. Eles costumam ter corpos muito pequenos. Eles querem necessitar cada vez menos de qualquer coisa. O avarento as vezes se priva de comida, só para ele sentir que pode ficar sem. Em casos extremos eles se privam de comida mesmo, porque ele tem que diminuir toda a necessidade para sentir que eles não precisam de nada. São fantasias obviamente. Mas o avarento se retém, diminui as próprias necessidades para ter dentro de sí uma sensação de que ele não precisa do mundo e se fecha para também não ficar na situação de se esgotar. Tanto é que o avarento na presença de muita gente ele se esgota, por que ai ele se percebe.

Eneatipo 6: O Medo

O medroso vive na básica sensação que todos nós temos, mas não ficamos presos nela, de que o mundo é inseguro, que a vida é insegura pois tem a morte, o inconsciente, a inexistencia, a noite, o lado escuro. Então ele está sempre ligado naquilo que está por trás do que poderia ser. Dai a estratégica dele é a dúvida. Ele não pode acreditar em nada porque atrás de tudo tem algo além. Realmente atrás da vida tem a morte, atrás do dia tem a noite, atras da inconsciência tem a consciência, atrás da vigília tem o sono…mas é como ele não pudesse sair dessa dualidade. Então ele vive sustentado pela dúvida.

Eneatipo 7: A Gula

O guloso, diferente da ideia que é uma gula de comer, na verdade ele tem uma gula de provar, de variedade. Ele precisa estar sempre na experimentação do novo para que ele não aprofunde um contato com a dor. Porque o grande medo dele é o de sentir dor. Ele vai através de uma estratégia de sugestionabilidade de si mesmo e do outro, provando diversos sabores e com isso se distraindo da possibilidade de se aprofundar em algo e perceber que além do sabor, em cada coisa existe algo mais profundo, mais sustentável e que pode levar à dor, mas que também pode levar ao amor e com isso ele vive na superfície.

Eneatipo 8: A Luxúria

A luxúria, diferentemente da ideia da sexualidade simplesmente, é na verdade a paixão por uma intensidade do poder e de prazer. Então a luxuria se sustenta num estado de posse, de satisfazer a tudo que se deseja. Então a luxuria é uma postura frente ao mundo de vingança. De vingança do instituído, daquilo que limita o querer, de tudo o que limita os desejos. _Não pode…eu quero, eu tomo, eu consigo _ Está justamente na vingança do instituído, é onde se assenta a fixação da luxúria.

Eneatipo 9: A Preguiça

A preguiça é um estado de desconexão consigo mesmo, é uma preguiça psico-espiritual. Não é uma preguiça de fazer e sim uma preguiça de ser. Ela se sustenta numa super-acomodação . O quer que tenha está bom! há uma narcotização do eu mais profundo, do desejo, da vontade, para se “simbiotisar” com o que está fora.

Portanto, muito “an passan”, está ai onde se assenta o que chamamos no eneagrama de paixões que são desvios da emoção objetiva para uma subjetividade emocional, uma interpretação pelo olho da experiência da infância. E a fixação é a cognição, sistema de pensamento, que vai sustentar essa ferida emocional. Portanto cada ego corresponde a uma paixão e uma fixação. Ou seja um acometimento de uma emoção e do sistema cognitivo.

Além disso, no fundo, de cada ser, do outro lado da moeda, na porta de entrada da essência estão as Virtudes. a virtude não é algo que você desenvolve, mas é algo que você resgata. A virtude, dentro dessa visão, assim como o amor, os sentimentos dos centros emocionais superiores,e as idéias do centro intelectual superior, estão no divino que habita dentro de cada um, impedidas pelo personagem, pela prisão do personagem. Na medida em que se ganha a liberdade das compulsoes , as virtudes vão brotando. Cláudio Naranjo fala um pouco de que o conhecimento das virtudes coloca o ser em uma linha bastante perigosa. Porque o ego pode lançar mão da sua necessidade e transformar a virtude num virtuosismo.

Por exemplo o ego 2, o orgulho, não tem uma pessoa que você ouvirá falar tanto de humildade como da boca de um orgulhoso. Ele tem comportamentos como o que eu vou relatar agora:

Uma senhora casa-se e tem uma empregada, uma pessoa contratada para cozinhar para ela. Ela não consegue deixar a cozinheira comer na hora dela comer com o marido. Ela fica tão comovida pela empregada ser empregada, que ela tem que colocar a empregada para sentar na mesa junto com ela e o marido. Dai ela tira a intimidade dela e toda a alegação é : “Mas como a moça vai comer em outro lugar?”

Na verdade com um grande estudo sobre si mesma ela chega à conclusão que ela menospreza, acha que é menos a função da empregada e com isso, na falsa humildade, ela tem que salvá-la do próprio sentimento. Assim como, por exemplo, um orgulhoso cumprimenta alguém se sentindo o máximo porque cumprimentou e na verdade é porque ele não sente simplesmente que as pessoas são iguais. Ele tem o prazer de cumprimentar tanto o diretor quanto o porteiro. Então esse prazer faz o que? Ele abafa uma realidade, não é natural. O que está mobilizando, a intenção oculta? Então quando nos conectamos com o personagem estamos mobilizando a intenção oculta. Por onde e o que move um orgulhoso é o desejo inconsciente de se sentir uma pessoa abundante : Olha como eu trato! Ele se alimenta da sensação de: Eu tenho muito. Eu sou muito boa. Isso sustenta a auto-estima, não é algo virtuoso. Quem tem a virtude, já é. Não há colheitas por ser virtuoso. Compreende? Então o ganho secundário do orgulhoso é sentir-se com a auto-estima elevada porque fez o bem.

Léo: E para chegar na virtude?

Dra. Fátima: O trabalho sobre sí mesmo faz com que a pessoa vá desmontando esse personagem .

Léo: Os mecanismos de defesa?

Dra. Fátima: Exatamente! Os mecanismos de defesa, as ideias loucas, todas as coisas que vão sustentando o personagem. Quando a pessoa começa a se dar conta disso…então o orgulhoso, por exemplo, vai começar a se dar conta de como na verdade ele disfarça o desejo de superioridade, a sensação de privilégio, a sensação de abundância, que ele tem e vai entrar naturalmente na simplicidade, começa a perceber a própria carência . Ele se sente muito carente, mas na realidade ele dá para comprar amor, amor de compra. Ao dar ele está sustentando uma ideia de que ele é muito querido, ele é muito bom… Então quando ele entra em contato com a própria carência e percebe que ele é igual aos outros, que também precisa amor, todo mundo é igual, vai entrando na simplicidade, obtém uma visão mais natural dele mesmo e com isso vai percebendo uma confusão que faz entre humilhação e a humildade.

Ser humilde é reconhecer o seu próprio lugar. Que não é melhor nem pior do que de ninguém. Uma cozinheira tem o seu trabalhado tão digno quanto o marido que trabalha numa grande empresa. Todos são trabalhos dignos, é a sensação de superioridade que faz desqualificar a situação. Então, poder olhar para isso com simplicidade é começar a descobrir a humildade.

O orgulhoso confunde humildade com humilhação, como se mostrar um defeito, necessidade, uma carência, fosse humilhação.

Léo: Seria aquela pessoa que diz: “Você viu aquilo lá que precisava? Eu fiz viu?

Dra.Fátima: Sim porque o orgulhoso está sempre num cenário, falando,se mostrando. Ele precisa ser o centro das atenções. Mas ele é um centro das atenções através da doação. Através do agradar o outro, do dar ao outro o que o outro precisa, desde um elogio até presentes, auxílios em momentos difíceis, festas…o que quer que seja. Mas ele se revela através de “dar”. Que é o ponto que mais faz com que ele se sinta superior.

Na verdade, com o trabalho interior, ele vai percebendo que ele é igual, que também sofre, que ele tem necessidades, ressente-se de alguém que possa dar a ele também. Percebe que são comportamento que aparentemente disfarçados dele mesmo, mas que são cobranças. Por exemplo, um orgulhoso é muito exigente. Ele exige pois pedir para ele é humilhação. Então o orgulhoso num trabalho profundo sobre si mesmo, prestando atenção no que ele faz, dando-se conta de todas essas estratégias, vai entrando na simplicidade, no reconhecimento das próprias carências e com isso, a humildade vai emergindo.

Assim como a humildade, a virtude de cada ego, e como se fosse a forma do lado oposto . Somente quem pode experimentar profundamente o orgulho, tem a forma do contraponto: A verdadeira e profunda humildade. É como se fosse o espelho do oposto.

Léo: Há um conceito taoísta que diz que para você chegar ao Yin tem que chegar ao ponto culminante do Yang, como Lua Cheia e Lua Minguante ! Então ele deveria vivenciar o vício?

Dra.Fátima: Nós todos já vivenciamos o vício! Todo o personagem já vivencia o vício, só não tem consciência disso. Tem que vivenciar o vício com a consciência clara do que faz.

Léo: Ele poderia fazer isso teatralmente, psicodramaticamente…como ele faria?

Dra.Fátima: No dia-a-dia, a cada momento, atitude. É onde Gurdjieff fala e também Ouspensky, que é o desenvolvimento da presença, da lembrança de sí.

Léo: Desenvolver um “observador”? Por exemplo, antes de tomar uma atitude, ele verifica qual é a motivação, que virtude está por trás do ato. Pode ser isso?

Dra.Fátima: Seria algo que funcionaria mais ou menos assim. Qual é o processo? O olho interno desenvolvido, é aquele que sabe o que está acontecendo no momento, sem julgamento. Ele olha inclusive o olho que julga. Seria esse “Olho de Deus”. Todas as religiões tem um olho como símbolo de Deus. Esse nosso olho interno, que é capaz de ver até aquele pensamento mais odioso, aquela intenção mais oculta, o movimento mais disfarçado…tem um olho que tudo vê e não julga. Conscientizar-se,desse olho que é a porta de entrada da “essência”. Esse olho é onde nós começamos a nos desidentificar do personagem . O personagem é como se fosse uma segunda pele, nós somos colados nele. Nós não sabemos, em nós, o que não é o personagem. Mas quando a gente começa a desenvolver esse olho, nos começamos a fazer uma desidentificação entre o eu profundo: o eu que olha, e o eu que vive (o personagem). Então quando começamos a fazer essa observação, começa a haver uma desidentificação com o personagem

Fazendo uma correlação, a física quântica hoje coloca que o observador transforma o observado. Foi o que a física quântica descobriu.

Léo: O filme Quem somos nós é um exemplo?

Dra.Fátima: Exato! Por exemplo a moça (protagonista) é um ego 5 (avareza) . Ela vai em toda a trajetória , vendo a vida em fotografias, vê a vida de fora, de infância,repetidas nos relacionamentos afetivos com medo de viver, desacreditando do mundo, do amor. Então quando ela vai olhando para ela mesma, que vai acontecendo de diversas formas, no final acontece dela olhar no próprio espelho. E como símbolo, ela tem um insight profundo e ela muda o ponto de vista. Aquele observador que fica de olho nela dentro do metro é a desidentificação. Quando o observador olha o observado algo se passa,e é justamente desse princípio que Gurdjieff fala. Ele dizia que somos máquinas e não sabemos que somos máquinas. Nós somos programados na infância, nos identificamos com a programação e viramos autônomos. Como se fossemos máquinas programadas vivendo automaticamente. Quando uma máquina começa a dar-se conta que é uma máquina, ela vai começando a deixar de ser uma máquina. Porque o processo não é inibir o comportamento.

A consciência profunda do comportamento, faz com que a atitude vá perdendo a força. É exatamente aquilo que a física quântica fala. Quando o observador olha realmente o elétron, ele muda a trajetória. Então quando começamos a olhar somente um padrão de nosso comportamento, porque a gente não transforma? Porque não conhecemos o funcionamento da máquina! Só olhamos para um defeito dela. Não entendemos como um defeito engancha no outro, que engancha no outro, e que é movido pela função principal de cada personagem. Quando compreendemos o funcionamento profundo dessa máquina, ela vai perdendo a força. Esse é o princípio da atuação da consciência de sí mesmo .

Porque a consciência transforma o homem? Freud, de uma certa maneira, foi um dos primeiros a falar nesse tema. Ele fala em insight ! De alguma maneira é uma “luz dentro”, a heureca. Um heureca não é uma questão matemática com uma solução, é uma experiência. Então a experiência do insight é vivenciada com o corpo todo. O que quer dizer emoção, pensamento, sentimento, sensação…não tem dissociação. Os personagens dissociaram o ser. Nos sentimos no corpo, pensamos no corpo, nosso espírito habita o corpo. É tudo uma coisa só, que nós, por desequilíbrio, fazemos com que haja uma predominância, quer do intelecto, quer da emoção, e ai vai havendo dissociações entre o ser. O ser inteiro vive inteiramente a emoção, pensamento, está tudo de acordo. Não é pensa uma coisa, faz outra coisa e sente outra como os personagens fazem. Cada personagem vive essa loucura de uma determinada maneira. E ainda pensa de sí mesmo que está fazendo uma coisa e faz outra. Quando percebemos verdadeiramente as nossas intenções, sem julgamento, neste processo de auto observação,começamos a desidentificação. Porque cada ego se julga de um jeito Por exemplo:

Um ego 7 (gula) tem um sistema de julgamento para si mesmo muito condescendente. Já o ego 1 (raiva) o julgamento é rígido. O ego 6 (medo) é auto acusação. O ego 4 (inveja) auto-destruição. Tudo isso é sistema de pensamento. O sistema emocional de um ego 7 é prazer sem felicidade. Quer prazer, prazer e não sabe o que é felicidade. Tem a ver com amor, amor tem a ver com profundidade. Quem nunca chegou na dor, também não sabe o que é amor, porque eles moram no mesmo poço. Se não abrir o coração, não entra no amor. Então se existe uma dor, se você não ultrapassar essa dor, não chegará no amor.

Léo: Isso significaria, no mesmo exemplo, que um ego 7 seria assim a vida inteira?

Dra.Fátima: Se ele não trabalhar com ele mesmo, vai viver prazer achando que está vivendo felicidade, e prazer é dos sentidos, emoção do sentimentos é a felicidade. Assim como um ego emocional confunde emoção com sentimento que é muita emocionalidade, em ego 7 confunde prazer com felicidade. Alegria é um estado da alma, não é um estado sensorial. Prazer é um estado de satisfação, precisa de sentidos. Se não entrar na profundidade dos sentimentos , nem percebe a diferença. O que vai apurando no mergulho de cada um é justamente essa percepção sem julgamento de como funciona o meu sistema de crenças, como que eu penso e julgo, como critico, como funciona minha cabeça, sentidos, o processamento da minha ação…Então a observação de tudo isso de uma forma bastante clara, sem julgamento, pois ele obscurece a consciência. Quando você se julga, tem um lado seu que se esconde de você mesmo.

Léo: Aquelas pessoas que vivem se martirizando?

Dra.Fátima: Isso! Ou então aquele que é auto-indulgente ! A maneira de como funciona o intelecto de cada tipo de personagem, também tem que ser observado.

Léo: Lembro-me ao fazer um curso com você e o Alor Passos, acho que em 1999, vocês falavam em sub-tipos. Eu também notei que existem eneatipos muito próximos um do outro. Pessoas falando: _ Eu pareço o 1 e 0 3 ou o 7 e o 2_ e assim vai… Existe uma semelhança entre eneatipos?

Dra.Fátima: Sim! Existem coisas muito próximas. Ao pensarmos que no caleidoscópio as peças são as mesmas, tem muitas coisas parecidas. Suponhamos, tem egos que são hedonistas, buscam o prazer. Então o 2 e o 7 buscam o prazer. Tem egos que são mais da superfície,. Tem egos que são mais da superfície, o 7, 2. 3 Só que o 2 tem emocionalidade forte e o 7 tem racionalidade forte. Portanto há coisas parecidas. Por exemplo, egos intensos, um 8 da luxuria e muito intenso como o 4 . Enquanto a luxuria está atrás do prazer o 4 está atrás da dor. Enquanto o 4 tem uma profundidade e uma sensibilidade enorme um 8 tem uma anestesia, uma narcose, dificuldade de sentir dor.

Léo: Isso tudo são mecanismos inconscientes, não porque o indivíduo queira ser assim. Não é?

Dra.Fátima: Inconsciente. Num ego 4, (a inveja) por exemplo, existe uma identificação com a dor.

Léo: Seria aquela pessoa que acha que ter uma biografia de sofrimento é bacana?

Dra.Fátima: É como se fosse: o sofrimento dignifica o homem. Um ego 4 olha para o sofrimento e fala: Puxa vida que valor! Uma pessoa muito alegre, ele fala: Superficial, fútil As duas coisas são importantes na vida. Há momentos de leveza, de fluidez, de fantasia e há momentos de profundidade. O nosso problema como personagem é que a gente está aprisionado numa maneira de ser. Se nós pudermos rodar toda a roda com liberdade. Então ´esta ai o caminho do iluminado. Dentro da visão do eneagrama existe um caminho de evolução, que é a liberdade de ao olhar para si mesmo, você vai ganhando a liberdade da prisão do personagem. Isso não quer dizer que voce vai para outro personagem , você vai transitar pela roda, dependendo do momento e não de necessidades movidas pelo que foi programado no passado.

Léo: Seria uma característica dos líderes religiosos. A charla?

Dra.Fátima: O que eu sinto na verdade, tem muito a ver com que o TRUNGPA fala no seu livro: Além do Materialismo Espiritual. Cada ego na verdade tem uma tendência de procurar uma determinada religião, que combine mais com aquele ego. Então tem o ser que busca, mas também tem o ego que toma posse da busca.

Léo: Como você classificaria os “ayahuasqueiros, por exemplo?

Dra.Fátima: Depende da igreja! Tem igrejas que são mais ego 1, mas ortodoxas, outras ego 7. Dependendo se ela tem mais rigidez, ou mais flexibilidade.

Nós vamos encontrar nas Grandes Religiões aquelas que tem mais dogmatismo, então os egos que buscam mais dogmatismo irão se identificar mais.

Léo: São 3 subtipos para cada eneatipo? Na verdade 27 tipos?

Dra.Fátima: Sim ! São três subtipos que estão ligados aos instintos. Na verdade são muito mais do que 27, pois dependendo do subtipo que vem em segundo, você tem mais uma tendência do que em terceiro. Por exemplo um 7 com subtipo predominante sexual, menos social, pouco mais auto-preservacional. Se é o contrário, primeiro um e depois o outro, essas variações de 3 jão dão 3 X 3 variações.

Léo: Há alguma relação com a astrologia?

Dra.Fátima: Eu já vi pessoas que conhecem muito bem a astrologia, tentarem fazer uma inter-relação, mas ainda não posso afirmar que existe um estudo profundo onde possamos nos basear.

Léo: Existe um estudo de patologias que são mais incidentes de acordo com os eneatipos? Aspectos psicossomáticos?

Dra.Fátima: Claudio Naranjo descreve em seu livro: Os 9 tipos de personalidade, ele diz que cada ego no extremo de sua neurose tem uma doença psiquiátrica. Tende a! Isso não quer dizer que irá acontecer e nem que ele não possa ter outras. Por exemplo, um ego 2 orgulhoso tende ao histerismo. São histéricos. Uma crise histérica psiquiátrica você vai ver mais no ego 2. O ego 1 uma psicose obsessiva, compulsiva. Um ego 9 uma psicose maníaco-depressiva (transtorno bipolar) . a luxuria (8) tem tendência a psicopatia e assim cada personalidade tem uma tendencia psiquiátrica. Assim como, somatizações, se você for ver , por exemplo um ego 1, ele vai tender a ter problemas de rigidez nas articulações, tensões, coisas que tenham a ver com sustentar aquele personagem. Cada personalidade também sustenta um tipo de corpo. Um tipo de tendencia muscular, você dificilmente vai ver um ego 6 contra-fóbico com pouco músculo. Um medroso contra-fóbico normalmente tem massa muscular abundante para intimidar . Ele tem necessidade inconsciente de desenvolver. Por exemplo aqueles garotos que exibem seus músculos de academia com um pitch bull na mãe. Esse já está fazendo com que o outro se sinta oprimido. Então não corre risco, tem uma agressividade defensiva, uma maneira de reagir ao mundo. Eu acredito que um estudo mais profundo de tipos de doenças de cada orgão, quem vai ter mais surdez,talvez relacione-se a querer escutar pouco. Tem mais tendência a diminuir a audição. Eu posso dizer que já ví pessoas diminuírem a sua audição por estarem ligados energeticamente a ouvir pouco. Como cientista não posso afirmar isso agora, mas existe um estudo elaborado que diz que tais egos tem mais problemas de fígado, rins, pulmão, etc

Algumas coisas a gente pode ver, por exemplo que é muito comum ver um medroso ser assaltado, um ego 4 sofrer um acidente quando ele está numa atitude interna muito auto-destrutiva. Não posso afirmar que há patologias em órgãos específicos.

Léo: Também não podemos afirmar que síndrome do pânico aconteça somente para medrosos?

Dra.Fátima: Em todos os tipos! Na verdade a síndrome do pânico é, na verdade, um medo muito grande de entrar em contato com a entrega. A pessoa pode morrer e tem medo. Medo da dor, medo de morrer!

Léo: Drogas também?

Dra.Fátima: Podemos ver a tendência. Alguns tipos de personalidade ficariam muito dependentes, enquanto outras não. O tipo 8 lucúria tenderia mais a ser um traficante do que um dependente. Já para um 6 é um perigo. Depende! Não dá para ter regras nesse sentido porque tem muitos pontos de conexão entre o ego e o efeito daquela droga. O efeito também não é um só. Mas, com certeza existem egos com maior tendência para drogas do que outros. Para um preguiçoso, por exemplo, é muito comum a narcotização por álcool. Aquele bebedor que come e dorme.

Léo: E o obeso?

Dra.Fátima: O gordo, obeso, flácido, com muita freqüência encontra-se num ego 9. Porque o ego 9 esqueceu de sí, e dedica-se ao outro, então ele cria uma massa física porque ele está muito para o outro. Mas ele não dá para o outro como um ego 3.retirar isto O ego 3, a vaidade, dá para o outro porque ele quer de volta. Ele vai ser o centro do brilho. O 9 não, ele se dissolve no outro. Então você vê o corpo de um ego 9, como um corpo de um bebê. Tem uma barriga flácida, a cara grande de bebe, ele tende a uma obesidade. Mas não é o único.

Léo: Qual é o perigo de se criar um estigma, estereótipo, na relação com o outro, do tipo: Ah! Só poderia ser um 7 para dizer isso?

Dra.Fátima: É óbvio que tudo é possível. Você tem um conhecimento e o uso dele. E pode usá-lo de diversas maneiras. Por exemplo, eu não tenho a menor dúvida de que os astros atuam sobre as pessoas, agora a forma de interpretar isso, pode conter desde as coisas mais absurdas do mundo até as mais sensíveis. Assim como um conhecimento igual ao eneagrama. Ele pode ser usado numa empresa para seleção de pessoal e saber qual é a melhor personalidade para executar ou criar e para ser um líder, pode ter um uso superficial, é uma ferramenta de uso verdadeiro.retiraresta frase Agora a pessoa que tem contato com o eneagrama, e tem a vivência, quando ela conhece o eneagrama de verdade, ela experiência nela a dor e a delícia de seu personagem. Então tende a ter um olhara si e ao outro de forma mais compassivo.

Se a pessoa pega um livro e sai dizendo:_ Ah! Descobri o ego do meu marido, do meu filho e do meu chefe!_ mas ficou com muita dificuldade de ver o próprio, ela só ficou com mais argumento para fazer o que ela já faz. Porque se uma pessoa tem essa tendência egoica, de chegar para o outro e dizer : Ah! Você é assim, você é assado.. ela só tem um pouquinho mais de argumento. uma pessoa que convive com um 7 já sabe como ele é. O vê a toda hora. Ela já fala, só vai saber dar um nome. Só vai poder dizer : Ah! Isso é daquilo! Mas…ela já sabe! Nós sabemos quem convive uns com os outros, a gente enxerga, o olho é para fora. É muito fácil a gente enxergar o outro.

O que acontece com os casais, por exemplo. Eles se encontram geralmente atraídos por diversas coisas. Acredito que não é uma lei só que atrai um ser humano, mas uma das coisas é a diferença. A diferença atrai porque, de alguma maneira, você se atrai por aquilo que não desenvolveu em si mesmo. E ai você atrai, Narciso atrai aquilo que gostaria de ter. refletido em seu espelho.Se você aprendesse com o parceiro, a relação iria se desenvolver. E se você ver as relações que realmente conseguem se desenvolver de uma forma sábia, não de uma forma neurótica, os dois aprenderam um com o outro. Então, ao invés de ser o espelho daquilo que eu não sou, um aprender com o outro. Mas normalmente, o que acontece? Um reforça a personalidade do outro. Se um é quieto e o outro fala muito, cada vez o quieto vai falar menos e o que fala mais, vai falar mais. Aí o quieto vai ficar com mais raiva por não ter espaço e o falador com mais menosprezo pelo outro não fazer presença. E ai começa a briga de ego, que é o que acontece em todas as relações.

E é ai que eu sinto que a força da natureza é uma força evolutiva. Também essa atração entre as pessoas para uma espelhar a outra e com os filhos a espelhar a gente na adolescência, tem as forças da natureza provocando a evolução.

Léo: Existem companheiros de ego mais perfeitos? Uniões mais harmônicas entre os tipos?

Dra.Fátima: O que nós vemos não são tendências em harmonizar,ou o que vai dar mais certo ou menos. Em todas as junções tem vantagens e desvantagens. Por exemplo, 2 egos hedonistas tem vantagens. Os dois são para cima, os dois pensam de forma fantasiosa, mas a desvantagem é que o fundo da relação está falso para os dois. Aí se um é muito superficial e o outro muito profundo eles se complementam, mas também podem tensionar. Tudo tem vantagens e desvantagens. A dualidade fica clara em vantagens e desvantagens.

O que a gente pode perceber é o seguinte, que temos a tendência de procurar egos que tenham coisas opostas. Você estar com uma pessoa do seu mesmo ego é difícil. Precisa muito chão porque você não agüenta se ver. Alguns egos como um 5,avarento por exemplo, como cada um está num quarto, eles se harmonizam. Isto não quer dizer que 2 pessoas de um mesmo ego, já signifiquem um grande trabalho sobre si. Mas o que a gente pode observar é que é bem difícil viver com uma pessoa igual, porque é muito espelho e a gente não dá conta de enxergar tanto espelhamento.

Léo: Teoricamente as pessoas pensariam de forma inversa, ou seja uma pessoa igualzinha a mim, me entende. Não é?

Dra.Fátima: Na verdade encontramos por identificação, então tem coisas obviamente comuns, mas também tem uma segunda camada da atração que tem a ver com o oposto. Com aquilo que a pessoa trás que te atrai , que você projeta que é Narciso, mas também aquilo que está no subsolo, que você tem dentro mas está reprimido pelo ego.

Léo: Isso tem a ver com tipos que te dão segurança?

Dra.Fátima: Alguns autores colocam detalhes , que dentro dessa visão que aprendi com o Claudio, não dá para colocar como uma regra.

Léo: Eles colocam como tipos asa, etc, tem isso?

Dra.Fátima: O que se fala de asa? Você é um 7 e tem um vizinho de 8 e um de 6. O 7 é um ego que a base dele é o medo. è vizinho do 6, mas medo do que? Não é o medo do 6. O 6 tem medo da catástrofe que acaba com a vida. O 7 tem medo é de sentir dor. Doeu! É a dor que ele tem medo. O 7 tem em comum com o 8 que é parceiro dele, prazer. Então você tem sempre algo em comum com a vizinhança. Assim como também tem os movimentos das linhas que saem de você. É como se chegassem vapores, a maioria não esta tão neurótico assim, tão aprisionado. Você pode ser um ego muito neurótico, que está quase na psicose e pode ser um ego com todos os seus padrões de comportamento com um pouco mais de consciência, com mais abertura

Léo: Como a psicologia ou psiquiatria vêem o eneagrama?

Dra.Fátima: A academia, normalmente, é a ultima que chega em qualquer coisa. Nas escolas de psicologia, tem Freud e no máximo behaviorismo . Algumas pouquíssimas conhecem gestalt, trabalham com psicodrama, intrapessoal. Então a academia vem sempre lentamente. Estou dizendo que tudo isso ainda é muito vanguarda. Há 15 anos haviam 3 ou 4 livros sobre eneagrama, agora tem 200.

Léo: Fale um pouco sobre sua escola, os cursos, as etapas que o buscador de sí mesmo deve passar.

Dra.Fátima: O primeiro passo na escola é entrar em contato com o eneagrama. T em um curso de 4 dias, onde a pessoa vai sair tendo encontrado o seu próprio tipo, seu personagem. Então ela vai perceber o personagem dela por ela mesmo.

Ai o segundo trabalho é o SAT 1 (Seeker After Truth= Buscadores da Verdade) , a gente chama de tempo de proto-análise. A pessoa identificou o personagem, começa um trabalho de desenvolvimento desse olho interno, do observador de si. O primeiro SAT é um trabalho profundo com as relações parentais. Ela vai vivenciar emocionalmente a formação do ego na infância, na relação com os pais, no ambiente da infância dela, então ela vai reviver a dor, a mágoa, a raiva, tudo aquilo que estava mobilizando a formação do personagem. Então é um trabalho profundo de limpeza das relações parentais e a pessoa, nesse trabalho, entra mais em contato, ela toca de alguma maneira o amor incondicional. Então ela começa a ter um toque na essência. Um amor incondicional por ela, que ela descobre, e o amor incondicional também pelos próprios pais. Porque depois de toda a infância e perceber toda a dor que tem na formação do personagem ela descobre que os pais também viveram e sofreram pela mesma coisa. Também foram programados. Têm o contato com a compaixão por si mesmo e pelo outros, pela condição humana. Um trabalho de 7 dias onde a pessoa fica imersa, em Hotel Fazenda, ou um grupo fechado, sem um contato assíduo, para ela fazer um mergulho profundo para dentro dela mesmo.

O SAT 2 é feito com, uma equipe internacional, e a pessoa começa um estudo profundo com os estados de meditação, o que não é o ego. Ele pode acontecer em vários lugares. Tem acontecido em Brasília. Ela vai começar a entrar em contato com a meditação, porque dentro dessa escola é fundamental você poder encontrar espaços, depois de uma certa paz interior, que a gente precisa ter com o próprio personagem, para entrar em contato com lugares que não é o personagem, da programação mental. Então começa a pratica de meditação e começa a entrar no que chamamos de teatros de si mesmo, onde a pessoa vai trabalhar o habito de ser daquele jeito. O aqui/agora nas relações, na vida, então é muita gestalt, trabalho de corpo, movimento autêntico, muitos instrumentos são utilizados no sentido da pessoa se perceber no aqui-agora. Então a pessoa já tem um grau de amor de si mesmo menos d defesa, já entende profundamente através de insights, de onde vem toda essa programação e pode se desnudar com mais facilidade e trabalhar o eu no aqui-agora. Ao mesmo tempo vai se criando nos grupos, uma relação muito profunda de amorosidade, fica todo mundo sem máscara, todo mundo exposto, sendo o que é e transparente no que é, sem ter o que esconder. Então tudo isso vai criando um clima de muito respeito, compaixão, auto-aceitação e da aceitação do outro.

O SAT 3 vai trabalhar em profundidade a meditação, o renascimento, estados mais oceânicos da mente, a reparentarização afetiva, essa sensação mais primitiva da criança. Primitiva no sentido de anterior, não de menos. Trabalho com relacionamentos, como que um ego interage com o outro.

O SAT4 também aprofundando o contato, consigo mesmo, com o outro. Aprofundando a capicade de se perceber no mundo, primeiro como você engancha no outro, e como você pode não enganchar e ajudar o mundo, sendo um agente de transformação.

O SAT5 são sats especiais que a gente nunca sabe o que vai acontecer, onde vai acontecer, em que país. São especiais e movidos pela inspiração do Mestre E depois de todos esses processos tem um retiro, onde a pessoa tendo um convite de Claudio Naranjo, por sentir que estão prontas, as pessoas ficam isoladas por 9 dias, numa clausura, meditando sobre orientação dele, momento inesquecível, uma sensação de não querer nunca sair de lá. Então, encontrar dentro de si um lugar que você nunca mais queira sair, realmente é algo que os seres humanos estão precisando. Depois desse retiro, o processo de se tornar uma pessoa que vai trabalhar com ele cem dele mesmo. A pessoa mostra o seu desejo e ele vai acompanhando o trabalho da pessoa, chegando o momento em que ele avaliza a pessoa que irá trabalhar com ele.

Agora foi criada uma OCIP, um instituto para levar SAT para os educadores, um sonho do Cláudio e de todos nós, que a gente possa ter uma ação sobre a educação no educar para aprender a ser. O aprender a ser ainda é algo meio nebuloso para a própria instituição educação e com muito pouca metodologia. Então o SAT vem trazendo uma conceituação experimental do que é ser um ser humano, um ser mais humanizado, onde os valores não vem por imposição ou preconceito mas por um profundo resgate de sí mesmo. Pois quando isso se dá, naturalmente a pessoa se torna mais compassiva, solidária, amorosa, e testemunhamos isso através dos participantes que vão crescendo dentro do processo. Todo mundo tem um desejo, vai aumentando o desejo em trabalhar por um mundo melhor, em contribuir para um mundo onde o valor “ser”, seja maior do que o valor “ter”. Que os significados dos valores se sobreponham as posses, mercantilismo que observamos nesta época. Já começando na fase de decadência, mas… a gente observa.

Léo: E neste espaço, além do eneagrama, você faz outros tipos de trabalhos?

*Dra.Fátima:*temos vários programas que contribuem para o desenvolvimento do ser humano, no sentindo da evolução integral. Estamos com uma metodologia de trabalho, que aparece de forma muito forte atualmente na Europa, chamada: Constelação Familiar. Um trabalho maravilhoso criado por Bert Hellinger, um alemão, teólogo, psicologo, que descobriu, por observação, que existe uma alma nos sistemas. Por exemplo, sistema familiar tem uma alma, como se fosse uma consciência maior, que é a consciência sistêmica, e essa consciência é regida pela ordem do amor. E que as ordens do amor não funcionam do jeito que a gente imagina. Que as ordens do amor sempre incluem, que as gerações vem incluindo os excluídos e que nas gerações que se apresentam tem sempre alguém representando identificado com aquele que foi excluído nas gerações passadas.

Quando colocamos um sistema familiar, formamos o sistema de uma determinada família, nós vamos descobrir o que foi ferido nas ordens do amor e quem está representando os excluídos. Por exemplo, através dessa metodologia, são explicadas coisas que na psicologia não havia ainda, um canal de explicação, por exemplo: Você irá ver diversas gerações. Existe uma saga familiar que é dada por essa ordem de exclusão do amor. Será um trabalho de formação, prepararemos pessoas com esse método. Estamos trazendo um pessoal que convive com o criador, na Europa, para um trabalho de 10 módulos. Esses módulos dão-se a cada 2 meses, 3 dias, tornando-se ao fim um agente de constelação familiar. É aberto a pessoas que trabalham com pessoas, geralmente fazemos uma seleção pessoal para ver a maturidade que as pessoas tem para formar-se nessa linha de trabalho. http://www.fatimacaldas.com.br/constelacao.html

Também realizamos aqui neste espaço um trabalho com Máscaras e os Eneatipos. Um trabalho criado por uma pessoa que vem acompanhando o Claudio Naranjo há muitos anos, feito através de teatro de máscaras dos próprios personagens. é um trabalho de final de semana, bem imprescionante, onde mesmo não ter passado pelo eneagrama, ele sai com seu personagem.

Temos um trabalho de meditação, de uma escola de meditação do Sul. Uma meditação para não meditadores apredenderem a meditar. Então, ele é feito de uma maneira em que as pessoas possam provar o gosto da meditação, através de canais, que os ocidentais possam experimentar.

Temos um trabalho na formação de uma linha mais reichiana, de como as crianças vão se formando na estrutura egóica, nas estruturas, nas couraças e como atuam na formação do personagem. Temos também um trabalho com o feminino profundo, respiração holotrópica e atendo como terapeuta, acompanho grupos de terapia na linha de gestalt e psicodrama. Coordeno Grupos de trabalho de eneatipos e também acompanho em terapia individual.

Léo: O que faltou eu perguntar?

Dra.Fátima: Os egos dentro das suas necessidades de se manterem vivos, enquanto não somos iluminados, eles tomam posse com muita facilidade daquilo que temos que desenvolver como virtude, de uma forma virtuosista mais do que uma virtude real. Por exemplo, o orgulhoso simular humildade, o irado simula serenidade. De alguma maneira nós simulamos as virtudes. Então cuidado, porque a virtude a gente pode ir trabalhando no sentido de descobri-las dentro de nós, mas perceber que a gente está querendo ser virtuoso porque, qual a intenção, de onde vem vindo, o que motiva. A vida integra não tem algo de bom e de correto? Mas você consegue olhar para dentro e ver algo que não é bom em você? Você admite? Consegue ouvir o que te dizem? (O que não é pouco) Como você lida com isso? Depois de percorrer todo esse caminho poderá ver algo que é natural da virtude. Eu acredito que todo trabalho em cima da virtude deve ter a virtude como foco, mas quais são todas as coisas que estão em mim que me impedem de chegar a ela? Que fazem simula-la, Que me fazem de alguma maneira representá-la, todos os meandros que podem haver entre a pessoa, o ego e a virtude em si.

Léo: Qual é alinha que separa a persistência da teimosia?

Dra.Fátima: Tem muito a ver com o tipo de personalidade. Tem alguns egos que tendem a postergar. Se for ele quem está fazendo essa pergunta, essa resposta tem um tônus. Tem egos que são obsessivos em fazer. Se forem eles quem perguntam, tem outro. Não há uma resposta perfeita para um comportamento depende de quem está exercendo. Por exemplo, pensamento persistente, o ego 6 e 1 têm um comportamento obsessivo de persistente. Para eles isso é um problema sério. Já o ego 2 não tem persistência nenhuma. Pensamento parece pulga pulando. Desliga, liga, desliga.

Tem um mestre que fala qual é o eu que fala de onde? Fala para que fala? Eu acho muito importante lidar com isso. O que eu dentro de você está fazendo isso para conseguir essa virtude? Por exemplo, um 7 pode querer ser um São Francisco de Assis social, nato no sentido da programação, mas se ele não se der conta do que é, essa pulsão inconsciente, todo o serviço do ego estará a serviço do ego e não da elevação espiritual.

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Léo: E o ego?

Dra.Fátima: TTodo ego é uma compensação, é uma estratégia da adaptação da carência infantil. Porque toda a criança é carente. Essa é uma realidade humana. Os adultos não podem, não tem condições de corresponderem com todas as necessidades e toda a falta de atendimento de uma necessidade cria um mecanismo de adaptação. Então o que eu sinto é que a nossa grande carência é que nós caímos na Terra. É uma carência profunda da volta ao lar divino. É o que nós vamos projetar nos pais, na relação, até que possamos chegar na nossa essência que é onde está a nossa re-ligação com aquilo que existe em nós de divino e que nutre o que tem de vazio existencial.

Claudio Naranjo tem uma imagem que acho muito bonita de que o mesmo vazio que faz com que a gente busque o personagem para encher o vazio com um balde d’água como se fosse um poço artesiano, e o vazio que faz o buscador mergulhar no fundo do poço e buscar preencher de dentro para fora, numa fonte real, que preenche realmente a fonte da vida interna . Então a ânsia do buscador também pode ser a ânsia do neurótico. O vazio é como se fosse a beira do precipício para dentro de si e para dentro do ego. Cada um está de um lado. Portanto, precisamos buscar dentro de nós o que houve conosco, com nossa infância que fez com que a gente desenvolvesse mecanismos de adaptação. O ego foi necessário, é necessário para a sobrevivência.

Léo: Há pessoas que criticam o ego!

Dra.Fátima: Duramente, profundamente! Nós precisamos ter um ego para sobreviver. Só que depois que crescemos, ficamos prisioneiros dele. Ele deveria ser um burrico no meio das pernas guiado pelo senhor de si. E na verdade é o ego que guia.

Léo: Não é acabar com ego! Não é verdade?

Dra.Fátima: Claro que não! É fazer com que o ego não seja o seu dominador. Tem uma imagem que eu acho muito rica de Hopenhauer : Nós somos como uma carruagem, cujo corpo é nosso corpo, os cavalos são nossas emoções, o cocheiro é o nosso intelecto, e lá dentro tem um amo dormindo. Ou somos, dependendo do ego, desembestados pelos cavalos, que a emoção sobe e desce, o cocheiro não sabe o que faz. Ou nós somos cocheiros histéricos, com os dentes presos que não deixam o cavalo fazer nada, preso na rédea, e o senhor de si dormindo lá dentro. Então trata de acordar o senhor de si, que rege a harmonia entre o cavalo, o cocheiro, o corpo. Acordar algo dentro de nós para estar no comando. Que é esse ser mais essencial e não está identificado com o passado. O ego é uma identificação com a nossa infância. E, é o estado de adaptação com a infância faz com que a gente vá para o mundo como se fosse a nossa casa de infância. E nós reagimos igualzinho, fazemos com papai e mamãe. Com tudo o que a gente aprendeu em casa, estamos agora pondo no mundo.

Precisamos primeiramente perceber que tivemos um nascimento de pai e mãe que criou um personagem. Depois tem um nascimento espiritual que é nascer desse personagem para realmente começar a escrever a história com a própria mão e não com o passado. Sendo reativos ao passado. Quando a gente nasce de toda essa história, é como Fênix saindo das cinzas. Você sai da programação e começa a escrever uma história verdadeira. Ai sim começa a nascer para algo que é seu, que é mais original, fora do mecanismo adaptativo que achamos ser original, mas na verdade está escrito nos livros. Você lê o ego 1 do que ele pensa no banheiro, é igualzinho para todos. A originalidade de cada um não está nesse comportamento e sim em algo muito mais profundo, vivo e que o resgate disso traz experiências inigualáveis para a vida, que é a experiência profunda de si mesmo, aquilo que não é o personagem.

Para saber mais sobre o trabalho da Dra. Fátima Caldas, clicar aqui

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