Deuses andinos: A criação Viracocha Pachacaiachi

Deuses andinos: O mito da criação para os peruanos nativos

 

Rosane Volpatto

Foi as margens do Titicaca, o lago mais alto do mundo, a quase 4.000 metros de altitude, que tomaram forma os mitos extraordinários do Alto Peru. Tal é a região onde, o deus Viracocha terminou sua obra de criação, depois do “Uno Pachacuti”, a grande inundação que assolou o mundo. Algumas lendas relatadas pelos sacerdotes incas, contam que o deus desceu sobre a terra neste lago e apiedando-se dos homens que erravam sem pastor, deu-lhes como soberanos e mentores os seus filhos, Manco Capac e sua irmã Mama Oclo, o Adão e a Eva incas.

Após ter criado um mundo sinistro sem Sol, nem Lua ou Estrelas, Viracocha Pachacaiachi, o “Criador de todas as coisas”, deu origem a uma raça de gigantes, pesados e grosseiros que fez surgir das pedras pintadas. Observou os monstros e achou-os muito grandes.

-“É preferível que tenham o meu porte”, pensou ele.

Eis que então, Viracocha criou os homens à sua semelhança, tais como nos nossos dias. Mas, eles viviam na escuridão. Para alguns historiadores este fato ocorreu na ilha de Titicaca, mas outros o localizam em Tiahuanaco.

Viracocha queria que suas criaturas vivessem em completa harmonia, respeitassem a moral e o honrassem. Entretanto, uma boa parte deles sucumbiu ao orgulho e violaram as leis divinas. Furioso, o deus os dispersou e até transformou alguns em pedras ou animais. Muitos desapareceram nas entranhas da terra e outros foram afogados pelas ondas do mar. Viracocha enviou então o “Uno Pachacuti”, o dilúvio que matou todos os homens e animais.

Nos informa a lenda de canhari, que um mês antes de se iniciar a grande inundação, os ilhamas ficaram tristes e perderam o apetite. Ao cair da tarde, elas ficavam cheias de medo e apertavam-se umas as outras. O pastor que as cuidava perguntou-lhes a razão da inquietação e elas responderam que a resposta estava no céu, especialmente em duas estrelas e, quando elas se encontrassem, o mundo seria engolido pelas águas. O pastor apressou-se em contar a novidade para seus filhos. Decidiram então, reunir o rebanho e buscar refúgio na mais elevada montanha, a Ancasmara. Então, o dilúvio iniciou-se e a água subiu durante sessenta dias e cobriu toda a terra, somente a montanha flutuava acima das ondas. Quando as águas baixaram, o pastor e seus filhos foram os ancestrais dos habitantes dos planaltos andinos.

Outros sábios incas, asseguram que o dilúvio fez com que a raça humana desaparecesse inteiramente, com exceção de três fiéis do deus. Viracocha procedeu então a segunda criação

Segunda Criação

O deus punira os homens ímpios, com exceção de apenas três que iriam ajudá-lo a recriar o gênero humano. Um deles chamava-se Taguapacac.

Na região de Colla havia um lago e uma ilha chamada Titicaca. Viracocha e os três homens dirigiram-se para lá. O deus deu ordem então, ao Sol para brilhar e à Lua e às Estrelas para tomarem o seu lugar no céu e iluminarem o mundo até o final dos tempos.

Conta-se que a Lua tinha maior claridade que o Sol e enquanto ambos subiam para o firmamento, o Sol lançou um punhado de cinzas à face da Lua. Eis o que justifica sua cor cinérea.

Outro mito inédito dá como companheira de Viracocha uma mulher chamada de Kollawa, criada a partir de um punhado de lama vital. Quando esta Eva Kolla morreu, voou e tornou-se a Lua para iluminar a noite de seus filhos.

Ao terminar sua criação, Viracocha construiu na ilha uma Huaca, um lugar de oração, para imortalizar os acontecimentos que ali se verificaram. A seguir, o deus deixou Titicaca, com seus dois companheiros, o terceiro, Taguapacac, caíra em desgraça e fora abandonada no meio do lago.

Viracocha aportou no local da atual Tiahuanaco e ali gravou numa grande pedra os nomes dos povos que pretendia criar, desenhando também, numerosas pessoas, pequenas e grandes. Ao terminar o desenho, deu-lhes vida e alma, enviando ao mundo os novos homens, com a missão de povoarem a terra. Antes de se separarem, todos falavam a mesma língua e edificaram em honra a Viracocha, a cidade de Tiahuanaco, cujas as ruínas ainda existem.

Representação do tempo histórico

Uma lenda nos fala que houve quatro períodos sucessivos, correspondentes à dominação de quatros povos criados por Viracocha, identificando Quatro Idades.

Havia inicialmente os Huari Viracocha Ruma, “os homens de Viracocha” e seu fim veio com a peste, a guerra e, sintomaticamente, com a rebelião dos objetos contra os senhores.

Depois os Huari-Ruma, cujo nome significa “povo primitivo”(Segunda Idade) e seu fim foi arderem com o Sol. O terceiro povo foi o dos Purun-Ruma (Terceira Idade), que habitava as margens do lago Titicaca, que chegaram ao fim com o dilúvio universal e o quarto foram os Auca-Ruma (Quarta Idade), “os guerreiros”, que edificaram os “pucaras” (fortalezas), mas que terminariam, paradoxalmente,com a decadência completa. Por fim (Quinta Idade), estabeleceu-se a dominação pacífica dos Incas, os filhos do Sol e seria o templo cíclico da etnia que veio regenerar os homens e o corolário e cumprimento das quatro idades precedentes.

Viracocha era um deus errante, que um pássaro acompanhava. Este, Inti, conhecia todas as coisas, inclusive o futuro. Mais tarde, o primeiro inca, Manco Capac, recebeu o Inti encerrado numa gaiola, mas seu sucessor, Maita Capac, restituiu-lhe a liberdade. Desde então, a ave informou-lhe tudo o que se passava em seu reino.

O deus Viracocha, gostava de percorrer montanhas e pampas, para assegurar-se que os homens lhes prestavam as devidas homenagens. Viajando para o norte, fundou a cidade imperial de Cuzco. Por toda a parte, ensinava às tribos suas leis e preceitos. Anunciou que viriam muitos falsos Viracochas e que deles os homens deveriam desconfiar. No devido tempo, disse ele, enviaria suas mensageiros, homens de pele branca e barbados, para dissipar equívocos e proteger todas as criaturas. Após terminar, entrou no mar, com seus dois servidores. Caminhando sobre as águas, afastou-se e desapareceu no horizonte.

Viracocha e o Sol: os deuses de baixo e do alto

Dos vários deuses do panteão inca, Viracocha e o Sol eram os principais por representarem o próprio universo de ação do Império Inca. Num prisma geográfico, os Andes Centrais caracterizam-se por três áreas distintas: o litoral do Pacífico, nua faixa de 3.200 Km de comprimento na direção norte-sul, por 1,5 a 40 Km de largura; as cordilheiras temperadas e frias; e a região amazônica, parcialmente integrada ao Império. As duas primeiras, por serem o eixo central das culturas existentes desde 1.500 a.C. e integradas efetivamente ao Império Inca, refletem o plano de ação destas duas entidades.

Viracocha era o deus criador e civilizador do universo. Terminada sua obra de gênese material e humana, partiu andando pelo mar em direção ao oeste, mas tarde Francisco Pizarro seria confundido com este deus que prometera voltar. O Sol, personagem sagrado, deus principal e fonte de toda a vida, teve seu culto difundido e imposto a todas as comunidades conquistadas nos Andes Centrais por razões de ordem política.

Viracocha e o Sol (Apu Inti) são deuses complementares: o Sol refere-se ao céu, ao fogo, à serra e ao alto, enquanto Viracocha aponta para a terra, a água, a costa, o baixo. No arcabouço do período, Viracocha e o Sol refletiam as duas culturas e os dois modos diferentes da vida pelas variáveis geográficas: a costa do Pacífico e as cordilheiras andinas.

A correlação Sol-serra e Viracocha-costa não deve supor um mero determinismo geográfico. As diferenças entre as duas zonas são tão delineadas que as culturas formadas nestas regiões agiam sobre este espaço geográfico e dele sofriam influência, além da não-integração destas duas zonas durante séculos.

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