Conferência de Amsterdã – 2.003

Matéria da Revista Planeta /Julho 2.003

PSYCHOACTIVITY III

A Ayahuasca em Debate

Em novembro de 2002, cientistas e pessoas provenientes de vários continentes se encontraram em Amsterdã (Holanda) para participar de uma conferência sobre a ayahuasca, ou “chá misterioso”, utilizado em rituais religiosos do Santo Daime e da União do Vegetal. Neste artigo, mostramos os principais pontos levantados durante o encontro.

Por Govert Derix

A ayahuasca (yagé, daime, vegetal, natem) é um chá psicoativo que desde tempos imemoráveis é preparado e tomado pelos índios da Floresta Amazônica. Desde o século passado, ela é fundamental nos rituais das religiões sincretistas Santo Daime e União do Vegetal, que surgiram entre seringueiros de Rondônia e do Acre. Aos poucos, o chá está ficando conhecido e acessível a um público cada vez maior fora da America Latina, sobretudo através da Internet. Não é de estranhar que esse público, num primeiro momento, fosse composto principalmente por pessoas que tinham afinidade com substâncias psicodélicas e convicções típicas da nova era. Isso, aliás, pode ter um aspecto ameaçador, pois o caráter da experiência com a ayahuasca e a possível significação do chá para a ciência e a cultura do século 21 vai muito além dessas estigmatizações superficiais. Durante a “Psychoactivity III”, a primeira conferência européia sobre a ayahuasca, muitos ayahuasqueiros se sentiram aliviados ao descobrir que o chá é um tema bastante sério para cientistas renomados. A ayahuasca, na verdade, é o eixo de um movimento multidisciplinar que está nascendo.

Legalização e legitimação – Um bom exemplo disso é o livro The Antipodes of the Mind, de Benny Shanon, um dos participantes da conferência. Shanon lecionou na Universidade Stanford, na Califórnia, e atualmente é professor de psicologia cognitiva na Universidade Hebraica, em Jerusalém. Em seu livro ele escreveu:

“O impacto afetivo e espiritual da ayahuasca pode ser muito profundo. Freqüentemente as pessoas que a experimentaram relatam a experiência como uma mudança radical de suas vidas, reconhecendo que após essa experiência ‘não são mais a mesma pessoa’. Mas, mesmo quando o impacto do efeito não foi tão radical, ficou uma experiência maravilhosa para aqueles que a tomaram e a descreveram como algo nunca antes vivido.”

A divulgação de que a ciência oficial está se envolvendo com a ayahuasca foi um dos grandes lucros dessa conferência. No Brasil, o uso ritualístico da ayahuasca foi legalizado nos anos 80; na Holanda sua utilização dentro do ritual do Santo Daime foi aceito em 2001, e se deu principalmente por causa do apoio e do testemunho de muitos cientistas. A expectativa é que essa conferência ajude a legitimar a ayahuasca como tema importante em várias dimensões da ciência e da cultura atual.

A pequena morte em um lampejo – O que é ayahuasca? Algumas informações gerais:

  • A ayahuasca é o veículo psicoativo mais usado pelos índios da Amazônia. A palavra vem do idioma quéchua e significa “vinho da alma”, “cipó dos mortos” ou “cipó da pequena morte”. Também é chamada “madrecita de todasplantas” e “professor dos professores”.
  • A ayahuasca é um chá amarelo-amarronzado de sabor amargo. Seu efeito psicoativo nem sempre é sentido de imediato. Algumas pessoas necessitam bebê-lo algumas vezes para atingir um estado alterado de consciência. A princípio, porém, o efeito pode dar-se instantaneamente, ou depois de uma ou duas horas; em geral, ele começa após meia hora e dura de três a quatro horas. O processo do efeito foi comparado com a imagem de um dinossauro: primeiro vem o pescoço longo e fino (início lento dos efeitos físicos e psíquicos), depois a barriga (período de meditação, visões, luz) e finalmente um rabo extenso (clareza mental, sensação de bem-estar), que pode durar até dois dias. O efeito físico pode ser extremamen-te forte e acompanhado de diarréia, calafrio ou vômito.
  • A maneira mais conhecida de preparar o chá é cozinhar as fibras do cipó jagube (Banisteriopsis caapi) com as folhas da chacrona (Psychotria viridis).
  • Os componentes mais importantes do Banisteriopsis caapi são harmine e harmaline, inibidores de monoamina-oxidase (MAO)(2); as folhas da Psychotria viridis contém dimetil-triptamina (DMT). Acredita-se que os inibidores de MAO tornam o DMT oralmente ativo. Usadas com medicamento antidepressivo, essas substâncias podem ser perigosas.
  • O efeito pode surgir em ondas; a melhor maneira de aproveitá-lo é não oferecer resistência a elas e entregar-se. O chá fornece “luz” (entendimento do mundo e autoconhecimento) e também a “força” para usar essa luz no dia-a-dia. Como espelho da consciência e catalizador da memória pode ter um grande valor terapêutico.
  • A ayahuasca mostra-se um remédio efetivo para diversos vícios. Pesquisando o assunto no Brasil, conversei com muitas pessoas que, graças ao chá, livraram-se do álcool e de outras drogas.

Uma temática rica – A conferência “Psychoactivity III” foi a primeira sobre a ayahuasca na Europa (outras foram organizadas no Brasil, Estados Unidos e na Jamaica). Em Amsterdã, o público internacional foi notável; além dos cientistas, havia cerca de 150 ayahuasqueiros da América, da Europa e do Japão.

Antropologia, psicologia, etnobotânica, farmacologia, a situação jurídica e uma breve história da “arte ayahuasqueira” foram temas das palestras de cientistas conhecidos, como o antropólogo Luis Eduardo Luna, o psicólogo Benny Shanon, o farmacologista Jace Callaway, o toxicólogo Laurent Rivier e o botânico Christian Raetsch. Xamãs da Amazônia fizeram um ritual de abertura. Foram mostradas reportagens sobre o Santo Daime no Brasil (Rio de Janeiro, Céu do Mapiá, no Acre) e os rituais indígenas no Amazonas.

Para ilustrar a conquista da conferência, reduzirei a grande quantidade de informações ali apresentada a alguns campos de importância:

A importância para a antropologia cultural – Muito conhecimento indígena sobre a ayahuasca está se perdendo rapidamente. A variedade de uso em mais de 400 tribos e suas farmacopéias são somente dois aspectos desse conhecimento. Por outro lado, nem sempre sabemos por que os índios bebem ayahuasca. “Para um melhor entendimento é preciso proteger as culturas indígenas”, afirmou Ri-vier, um grande adversário do “turismo-aya-huasca”, variação do ecoturismo que tem a finalidade específica de provar a bebida com xamãs da Amazônia e está rapidamente crescendo. A grande ironia é que, em breve, os próprios índios acabarão indo buscar informações (erradas!) sobre o chá na Internet, e não mais com o próprio xamã. Segundo Rivier, provalmente “estamos atrasados demais para salvar o conhecimento indígena

Ficou claro que, até pouco tempo, fora da Amazônia, principalmente nos Estados de Pernambuco e do Maranhão, havia rituais baseados em substâncias semelhantes à ayahuasca, os chamados “análogos da ayahuasca”, como a jurema. Conclui-se, portanto, que o nosso conhecimento sobre o uso ritual do chá (e rituais semelhantes) é somente uma pequena parcela do conhecimento original. O enfoque existencial – O xamã Hilario Chiriap falou sobre o ritual Natemamu (“Dormir nos braços do espírito”) da tribo Shuar (Equador): bebe-se ayahuasca durante três dias e aprende-se tudo sobre a vida e a morte. A historiadora Claudia Mueller-Ebeling mostrou que o motivo de “morrer para aprender a viver” é comum na arte folclórica inspirada pela ayahuasca.

Quase todos os participantes falaram explicitamente sobre a importância existencial da experiência com o chá. Aparentemente, não é possível envolver-se com a bebida amazônica sem ficar impressionado com o maravilhoso território aberto pela “força estranha”.

A importância química e médica — O farmacologista Jace Callaway explicou que a experiência com a ayahuasca é causada por ao menos três mecanismos químicos diferentes. Ele sugeriu que talvez o DMT seja bem menos importante do que se pensava e que os mecanismos principais devem ser algo “muito sutil”. Também não ficou claro para o farmacologista qual é o efeito mais importante do chá, se as visões ou o efeito purgatório.

Nos anos 90, Callaway fez parte de uma equipe internacional que pesquisou o uso de ayahuasca na União do Vegetal, em Manaus. A pesquisa mostrou que ayahuasqueiros desenvolvem mais receptores de serotonina no cérebro, um sinal importante do efeito positivo da ayahuasca para a saúde. Porém, ainda não está comprovado se isso significa que o chá pode curar doenças como o mal de Parkinson ou o câncer, apesar de rumores favoráveis sobre isso entre ayahuasqueiros. “Curar é algo misterioso”, afirma o antropólogo Luna, da Universidade de Helsinque, enquanto o neurofisiologista Charles Kaplan, da Universidade de Maastricht (Holanda), disse que o chá “poderia se mostrar benéfico para o sistema de saúde”.

A dimensão psicológica – O chá também pode nos dar um insight sobre a maneira como funciona a mente humana. Segundo Benny Shanon, a consciência se constrói como uma dança (um pas-de-deux) com a realidade, dentro de um campo de significações. A ayahuasca pode mudar as regras da dança e assim modificar a relação entre a consciência e o mundo. É exatamente durante o estado alterado de consciência que a sua natureza e a relação com o mundo podem ser reveladas. Conclusão preliminar: através da experiência com a ayahuasca, a psicologia cognitiva pode aprender mais sobre as regras do “pas- de-deux”.

A questão jurídica – O uso ritual de ayahuasca foi legalizado no Brasil, na Holanda e no Estado do Novo Mexico (EUA). O chá, porém, nos coloca diante da questão de como uma sociedade deve regular o uso de substâncias psicoativas. A ayahuasca não tem só a ver com a liberdade de religião (o principal argumento usado no tribunal para a legalização na Holanda), mas também com o direito à liberdade da mente e da privacidade do ser humano.

A importância antiglobalista – É possível “mcdonaldizar” a ayahuasca? Talvez. Já se pode obter os seus ingredientes pela Internet e nos smart shops da Holanda, lojas que vendem, entre outras coisas, substâncias psicodélicas. Evidentemente, a ayahuasca não serve como party drug (droga para se consumir em festas) e seu uso, mesmo fora de um ritual religioso, é acompanhado de uma carga espiritual. O caráter específico da ayahuasca e os rituais indígenas nos mostram a importância da Floresta Amazônica como tesouro de muitas outras plantas com grande valor para a humanidade. Nesse sentido, o chá é um símbolo da importância da diversidade biológica e cultural, e da complexa relação entre ambas.

O início de um movimento – A ayahuasca caminha em pelo menos dois sentidos. A experiência do chá em si propicia um movimento existencial, que é capaz de mudar e melhorar vidas humanas. Por outro lado, a ayahuasca é o eixo de um movimento multidisciplinar em que pessoas de várias universidades, religiões, raças e culturas se reúnem para pesquisá-la.

A ayahuasca em si é puro movimento: chegada e partida de ondas visionárias e insights. Talvez a idéia da ayahuasca como movimento social seja muito pretensiosa. Isso não impediu, porém, que às vezes a conferência ganhasse a qualidade de um transe ondulado. A grande questão para o futuro é com qual intensidade e qualidade as ondas da ayahuasca vão se desenvolver na ciência e na cultura, não só da América Latina, mas também de outras partes do mundo.

A primeira versão deste artigo foi publicada pela revista Bres, editada na Holanda. Govert Derix é filósofo e escritor. Conheceu a ayahuasca através da União do Vegetal, em 1990. Escreveu o livro In Het Licht van Ayahuasca. Een Openbaring uit Amazonië (“Na Luz da Ayahuasca – Uma Revelação da Amazônia”), com enfoque filosófico e jornalístico sobre o chá. A obra será lançada na Holanda em outubro.

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