Comunidade na Amazônia

A experiência de uma comunidade espiritual na Amazônia

Alex Polari de Alverga

I – Um Pouco de História Geral e das Américas

A nossa história começa quando as grandes civilizações que já viviam no Novo Continente desde há muitos séculos foram descobertas pelos países que estavam iniciando a empresa colonialista, na virada do século XV para o século XVI. Havia sido dado a partida para a formação dos grandes capitais coloniais e mercantis. Uma grande necessidade de matérias primas, escravos, rotas comerciais e novos mercados mobilizou esses países para empreenderem a conquista das novas terras. Em pleno renascimento artístico e cultural, depois do período obscuro e enfadonho da Idade Média, os principais reinos da época tinham iniciado uma revolução técnica e científico sem precedentes, principalmente na navegação transoceânica.

Tudo isso constituiu-se no preâmbulo para que, dois ou três séculos mais tarde, acontecesse a Grande Revolução Industrial, responsável pela inauguração da tensão cada vez mais extremada entre progresso e desenvolvimento de um lado e danos aos ecossistemas e ao meio-ambiente do outro. Até então, a preocupação do homem com o meio-ambiente se resumia a problemas que, se comparados com a gravidade dos fatos que nos afligem nos dias de hoje, parecem até brincadeira.

Mesmo assim, o problema já vem de longe. Com a exceção do período do Neolítico Superior, onde floresceram as culturas sob égide dos cultos da fertilidade e da devoção da Grande Deusa, as civilizações posteriores, formadas pelas sucessivas ondas de migrações, principalmente dos povos ários, foram invertendo pouco a pouco essa situação. Em vez dos valores solidários do culto à fertildade e veneração à Mãe Terra, das divindades femininas e do calendário lunar, se impuseram os novos valores do domínio patriarcalista e das divindades solares.

Nessa nova concepção dominante não havia mais lugar para o homem se sentir parte do organismo vivo de Gaia. O processo de individualização avançava de forma inexorável até chegar a presente noção do eu cartesiano, que se encontra subjacente ainda hoje em nossa cultura. Foi essa concepção de eu individual, empreendedor e em luta crescente contra a matéria inanimada e a sua própria alteridade, que possibilitou o enorme progresso e desenvolvimento do mundo antigo na sua transição para o mundo moderno. Um mundo que perdia cada vez mais a sua conexão com o Sagrado, sua preocupação em refletir sobre os mistérios da vida e da morte. Um mundo que perdia cada vez mais rápido as lembranças da sua Idade de Ouro. Um mundo que gerou sociedades organizadas em estados nacionais beligerantes entre si, em eterna busca de hegemonia econômia e política uns sobre os outros. Um mundo que não via mais sentido em decifrar espiritualmente a Natureza. Que não se contentava mais em vê-la como uma dádiva de Deus e sim como meros recursos que podiam ser apropriados sem qualquer limite ou escrúpulos pelo homem, o rei dos primatas.

Já no século XVII, no início desse processo, a maior parte das florestas de carvalhos da Europa, principalmente nos Países Baixos, estavam virtualmente dizimadas em função das necessidades dos grandes armadores que trabalhavam para as grandes potências navais da época. Dedicavam-se eles à construção das frotas comerciais usadas para a exploração das suas colônias e as esquadras de guerra usadas para disputar a sua posse. Depois de algumas escaramuças pelo Oriente e pela Ásia constatou-se a dificuldade de submeter esses povos que tinham uma tradição e uma cultura ainda mais antiga do que a dos bárbaros cristianizados da Europa. As expectativas se voltaram para o Novo Mundo, com as notícias que já tinham chegado sobre a existência de muitas terras a ocidente dos rochedos de Hércules.

Descobertas as Américas, enquanto os portugueses procuravam o Eldorado pela nossa Amazônia e se contentavam com o pau-brasil, os espanhóis foram melhor aquinhoados. Quando Jerônimo de Aguillar naufragou nas costas da América Central e teve informação da existência de muitos povos em adiantado estado de civilização e, principalmente, de muito ouro, rapidamente esses indícios despertaram a cobiça de muitos.

Aventureiros, bandidos, piratas e degredados foram contratados pelos reis e imperadores para empreenderem a conquista. Tudo devidamente mascarado por um verniz de evangelização dos bárbaros indígenas. Essa foi sem dúvida uma triste página da cristandade. Que diferença enorme entre as peregrinações do apóstolo Paulo pelo mundo helênico e romano e as tristes figuras de Pizarro, Cortez, Diego Almagro e seus séquitos de frades submissos! A Igreja abençoou a empresa colonialista, legitimou e deu carta branca à verdadeira rapinagem que os estados católicos passaram a executar sistematicamente em suas colônias. As grandes companhias comerciais e de navegação foram ampliando seu poder, detendo poderes similares aos grandes trustes e corporações multinacionais em nossos dias.

Em certa medida, tudo isso aconteceu porque as classes abastadas da Europa estavam se tornando um mercado cada vez maior para o consumo de especiarias, produtos exóticos, estimulantes e narcóticos. Uma verdadeira febre de consumo desses artigos tomou conta dos salões da nobreza e da burguesia ascendente. Podemos até afirmar que a especulação financeira e comercial ligada a esses novos hábitos de consumo (como o açúcar,o chocolate,o tabaco, o café, o chá, o ópio e etc) foram os verdadeiros causadores da escravidão, do etnocídio e de toda sorte de barbaridades perpetradas com toda naturalidade pelos colonizadores. Ao ponto dos primeiros cronistas e testemunhas indígenas da Conquista, mesmo bem impressionados com o Deus-Homem dos cristãos, denunciarem, escandalizados, a hipocrisia dos seus enviados: Diziam eles: Então tudo era bom / Não havia então o pecado / Não havia então enfermidade. Mas quando chegaram os forasteiros / Eles nos ensinaram o medo / Vieram fazer nossas flores murchar / Para que sua flor vivesse, / danificaram e engoliram a nossa flor… Cristianizaram-nos / mas nos fazem passar de uns a outros / como animais. / Deus está ofendido com eles. É difícil para nós hoje avaliar a extensão do trauma e da dor que ainda ecoa no coração e na alma dos povos conquistados, ultilizados que eles foram na construção de um desenvolvimento e de um progresso que, além de não beneficiá-los em nada, foi feito ao arrepio de sua própria vontade, custando-lhe a dignidade, a cultura e a própria vida.

As profecias dos livros sagrados dos maias, aztecas e quechuas já alertavam para esses sombrios presságios. É incrível que Francisco Pizarro tenha marchado com apenas 160 homens montados em pangarés e armados de arcabuzes e tenha conseguido vencer mais de cem mil nativos. Isso se deveu ao fato de que os nativos confundiram os estrangeiros com seus próprios deuses que, segundo eles, teriam vindo à Terra no cumprimento das velhas profecias. Cedo eles descobriram o erro que tinham incorrido. Os estrangeiros não passavam de gente muito gananciosa e ávida de ouro. Gumán Poma, cronista indígena da Conquista relata o célebre dialógo que ocorreu entre Frei Vicente, capelão das tropas de Pizarro e Atahualpa: Frei Vicente, levando na mão direita a cruz e na esquerda o Breviário, diz ao Atahualpa Inca que é também embaixador e mensageiro de outro Senhor, grande amigo de Deus e que ele também fosse seu amigo, que adorasse a cruz, cresse no Evangelho de Deus e não adorasse nada mais. Responde Atahualpa Inca que não tem que adorar a nada mais do que o Sol que nunca morre. E pergunta a frei Vicente quem lhe havia dito aquilo. Frei Vicente responde que havia sido o Evangelho, o livro que tem em mãos. Atahualpa pede que lhe dêem o livro. Começa a folheá-lo e como livro não lhe diz nada, permanecendo mudo, com grande majestade o arremessa ao chão, exclamando: ”Ele não me falou nada!”

A partir desse momento começou uma nova era para o mundo. Lançou-se a base do sistema capitalista e iniciou-se o ecocídio em larga escala.

II – A Questão Ambiental

A depredação progressiva dos recursos naturais não foi um fenômeno exclusivo da exploração nas colônias. Mesmo nas metrópoles surgiram vários problemas de deterioração ambiental que começaram a influir na qualidade de vida da população. Já no começo do século XIX temas como a poluição da chuva ácida, os efeitos da acumulação de detritos industriais e da queima de combustíveis fósseis pelas indústrias já causavam problemas de saúde e consequências sociais cada vez mais sérias nos países em crescente industrialização. Por outro lado, os primeiros grupos preservacionistas e conservacionistas começaram a constatar os perigos que a ação destrutiva do homem causava sobre os ecossistemas, ameaçando inclusive várias espécies de extinção. Isso sem falar da desertificação por superpastoreio, envenamento das águas e o espectro malthusiano da super-população e da fome.

Todas essas sequelas foram se agravando e a reflexão sobre elas fez surgir um novo tipo de pensamento e de ação política. A verdade é que, desde que os ventos insurreicionais que varreram o Quartier Latin em 68 arrefeceram, ficou evidenciado que a velha forma de fazer política tinha esgotado sua eficácia. De lá para cá a causa ambientalista cresceu muito. Inicialmente um movimento circunscrito aos círculos conservacionistas, clube de amantes da natureza ou de proteção à fauna e à flora, evoluiu rapidamente ganhando cada vez mais característicasde um discurso crítico dos mais penetrantes e de uma prática social cada vez mais profunda e consequente. Em um certo sentido, o novo ambientalismo, como viria a ser chamado, se tornou um sucedâneo tanto para o gasto discurso da esquerda num extremo, como para velho discurso neo-liberal no outro. Ambos incapazes de apresentar uma direção programática mais consequente para a praxis humana.

Essa nova concepção de fazer política mudou o eixo do macro para o micro, do vertical para o horizontal. Para aumentar sua eficácia e criatividade, diminuiu a antiga pretensão de tomar o céu e o aparelho de estado de assalto. Ao invés disso, teve o bom senso de limitar seu campo de ação para poucos quilômetros quadrados, alvos mais modestos e definidos e uma ênfase na atuação ao nível local. Foi essa simplicidade e re-direcionamento do nosso olhar para o mundo que fez com que comprendéssemos a gravidade da situação. E a necessidade de buscar um novo paradigma para a saga humana sobre esse planeta. Para se chegar a ele é preciso retroceder no tempo e resgatar as valiosas contribuições dos nossos antepassados. Compreender a necessidade de uma opção ética e espiritual para resolver o antagonismo hoje existente entre o homem e a natureza. Já ao nível da política institucional, os problemas a serem enfrentados também são complexos. Houve uma mudança de mentalidade na opinião pública que obriga o sistema a orientar melhor suas estratégias econômicas em função da importância dos temas ambientais. Apesar disso, a lógica dos grandes capitais é a mesma. Portanto, a tendência continua sendo a de onerar, ainda hoje, os países em desenvolvimento e que tiveram seus recursos dilapidados por séculos inteiros de dominação. Esses países, no afã de compensar o seu atraso histórico e melhor se posicionarem no ranking da economia global são impelidos a exercer uma pressão danosa contra seu próprio meio-ambiente.

III – A Floresta e seus Povos Originários

Entre os muitos ecossistemas que durante milênios tanto maravilharam os homens dotados de sensibilidade, a floresta tropical úmida talvez seja um dos mais belos, misteriosos e inexplorados. Soma-se a isso a importância dela ser o principal celeiro da bio-diversidade em nosso planeta. Seus segredos, impressos na existência de tantos seres, constitui-se em um patrimônio universal que, uma vez preservado, poderá ensinar ao homem os mistérios da vida, essa engenhosa e inimitável engenharia genética da divindade. Os rigores da seleção natural fazem com que os mais fracos sejam a base da cadeia alimentar do mais forte e assim sucessivamente. Até todos ficarem à mercê daquele que, mesmo não sendo o mais forte, foi o mais inteligente: o homem. Infelizmente, no reino humano, onde deveríamos esperar um pouco mais de benevolência no relacionamento entre seres dotados de uma consciência, impera a mesma lei da selva. Podemos dizer que nos reinos da Natureza impera uma ordem e uma harmonia de qualidade muito superior a do reino humano. Como descrever a graça e a determinação com que cada espécie da floresta louva o Criador, num ciciar ininterrupto de vozes e cantos que vão desde o anoitecer até o amanhecer do dia seguinte? E que em alguns momentos alcança a modulação de um poema sinfônico, regido por um maestro invisível ?

Toda essa infinita cadeia de seres são as diversas variáveis que a vida adotou em suas recombinações evolutivas. E elas apontam para um ideal de perfeição que deveria se cumprir no próprio homem. Caso contrário ele não poderá representar mais o ápice da evolução em nosso planeta. Por isso, a floresta não é apenas um cenário inanimado. Ela é um templo. Nossos ancestrais souberam compreender esse fato e foram capazes de desenvolver um íntimo e amoroso relacionamento com ela.

Os sistemas cosmológicos dessas antigas civilizações se confundem com o seu próprio tecido social e nele se interpenetram, de maneira literal. Há uma complementariedade e uma simetria perfeita entre a ordem espiritual e a ordem material, entre o céu e a terra, o sagrado e o profano. O mundo dos homens tem suas fronteiras com o mundo espiritual e divino através das hierofanias, que vêm a ser porções do mundo material e da natureza física ou vegetal dotados de sacralidade. Por um lado o mundo espiritual pede emprestado a natureza algo que o represente ou simbolize. Enquanto que por outro são os próprios deuses que agem através de uma lógica impiedosamente humana. Através do mito sabemos como os heróis fundadores lançaram as bases da cultura e inauguraram a História. A mitologia é a saga da psique. É algo tão verdadeiramente real quanto a história e os heróis concretos que aprendemos nos bancos da escola ou conhecemos pessoalmente. São abstrações e grandes sínteses psicológicas que registram a saga humana desde os seus primeiros passos. De uma certa forma, a consciência humana é uma consciência reflexa do planeta Terra e também de toda a Criação. E o mito é a linguagem coletiva da psique, capaz de enunciar as leis mais essenciais do Universo com tamanha carga emocional e poética que ainda hoje comove o mais empedernido coração humano.

As grandes civilizações que aqui viviam -aztecas, maias, quéchuas e outras não menos notáveis – não existem mais. Elas tiveram momentos de esplendor, de refinamento e foram, ao seu modo, experiências bem sucedidas de desenvolvimento auto-sustentável. Foram povos que praticaram uma agricultura ecológica muito avançada e desenvolveram sementes de alimentos maravilhosos como a quinua, a chia e o amaranto, cujo plantio chegou a ser proibido pelos espanhóis por estarem associados aos cultos sacrificiais; que desenvolveram um intrigante sistema astronômico e astrológico; e que conheceram os mistérios das plantas enteógenas e as utilizaram para obter estados alterados de consciência.

Hoje, os herdeiros da floresta são povos mestiços que estão longe de possuírem o antigo esplendor de seus avós. São populações isoladas, marginalizadas e carentes, composta dessa parte da espécie humana denominada de pobres e miseráveis, cujo risco de extinção é bem mais preocupante do que a dos mognos, baleias, araras, micos ou das focas. O que termina não acontecendo apenas pelo fato da miséria e da pobreza humana (ao contrário de outras espécies ameaçadas de extinção) terem esta “incômoda” propriedade de se multiplicar em vez de diminuir, sempre que atinge seu ponto limite.

Nos ermos dos igarapés da Amazônia se encontram os remanescentes dos imigrantes vindos do Nordeste Brasileiro nos finais do século passado. Vieram fugidos de uma grande sêca e trabalharam nos seringais em seus dias de glória e opulência, quando a Ópera de Manaus trazia Caruso, Sarah Bernard e outras estrelas da época para récitas patrocinadas pelos barões da borracha. A segunda migração de nordestinos para os seringais da Amazônia se deu durante a Segunda Grande Guerra Mundial.

Nesse ínterim, os ingleses tinham plantado na Malásia imensas extensões de seringueiras brasileiras contrabandeadas, desenvolvendo técnicas de seringal de cultivo que levaram à ruína o sistema dos seringais nativos, onde áreas imensas de florestas eram exploradas de maneira primitiva,com grande sacrifício humano e altos custos. Na década de vinte, a situação da borracha já era de decadência e os preços tinham caído vertiginosamente com a concorrência asiática. Quando os japoneses invadiram a Malásia durante a Guerra, a solução dos aliados foi incentivar e injetar recursos para a re-abertura dos seringais nativos do Brasil, medida estratégica para o esforço de guerra de então. Novas levas de nordestinos foram convocados, com status de combatentes militares, e a Amazônia foi re-colonizada. Os soldados da borracha, como eram chamados esses combatentes sem farda, chegavam no porto de Belém em navios perseguidos e as vezes torpedeados por submarinos alemães. Depois eram embarcados pelo Rio Amazonas até os distantes seringais a que era destinados. Pelo caminho, encontravam os remanescentes das primeiras gerações de nordestinos miscigenados com as populações índias e mestiças.

O produto dessa mistura é o caboclo amazonense, que vive ainda hoje de forma semelhante aos seus pais e avós, depois que com o fim da guerra,a velha e conhecida decadência voltou a reinar nos seringais da Amazônia.

IV – A Floresta e seus Mistérios

Desde o Neolítico Superior que nossos ancestrais já utilizam certas plantas para fins medicinais e como meio de acesso ao reino dos espíritos. O impacto do seu uso na estruturação da psique e da cultura humana é muito maior do que se pode imaginar. Hoje em dia essas plantas são chamadas enteógenas, que significa: capaz de suscitar a experiência de Deus em si mesmo. Seus compostos psico-ativos produzem um estado de expansão de consciência. Num contexto espiritual apropriado geram experiências de êxtase místico. Nesses estados de consciência é que os santos, os avatares e os profetas lançaram o alicerce para muitas das grandes religiões de massa dos nossos dias.

Dizem que, periodicamente, a força espiritual que assiste e modela este planeta muda de lugar, o que explicaria os súbitos ciclos de decadência e de florescimento de culturas e tradições religiosas. Foi assim que se sucederam os cultos do Soma no início do período Védico, os Mistérios de Eleusis na Grécia Antiga, as tradições cristãs gnósticas e esotéricas, os iogues da Índia e do Tibet, a Cabala da Espanha Islâmica, os Incas e Aztecas até chegarmos aos povos e culturas remanescentes do Éden original. Situadas na selva sul-americana, foi lá onde Deus parece ter semeado grande parte da sua farmacopéia enteógena. A intensidade da experiência mística desencadeada a partir destas plantas, usadas desde milênios, tem sido relatada e estudada com cada vez maior frequência. O seu uso desperta na consciência a sensação inefável de fazer parte da Totalidade. Esta não é uma abstração e sim uma verdade que se encontra nas camadas mais profundas do nosso ser. Vista através desse tipo de experiência, a Natureza não é apenas um conjunto de solo, paisagens, flora e fauna e sim a forma visível de Gaia, o ser biológico espiritual planetário.

A forma pela qual essa compreensão ficou mais preservada é o xamanismo. Ele é, segundo a já clássica definição de Eliade, aquelas técnicas arcaicas do êxtase, a primeira forma sistematizada pelo homem para acessar o desconhecido mundo dos espíritos. É profundamente excitante que este mesmo xamanismo esteja novamente em destaque em nossos dias. Desde as incursões às selvas sul-americanas de alguns botânicos e etnógrafos do século passado, que a comunidade científica vem demonstrando um crescente interesse pela contribuição que as plantas psico-ativas podem dar, tanto para estabelecer uma cartografia da consciência, quanto para a solução dos grandes enigmas da espécie humana.

Em torno dessa indagação sobre os efeitos dessas plantas no sistema nervoso central e seu papel como fator estruturador da auto-consciência do homem e na criação do próprio pensamento religioso está se criando um campo de estudos comum entre o saber científico e a experiência mística. Se estas técnicas, xamânicas, principalmente as que se servem das plantas sagradas, foram responsáveis no passado pelas visões que deram origem às grandes revelações espirituais, certamente ainda hoje, elas nos estarão transmitindo a mesma mensagem. E a nossa consciência é ao mesmo tempo o aparelho receptor e o cenário onde essa mensagem nos é revelada.

Isso é válido tanto para as técnicas xamânicas tradicionais quanto para as religiões enteógenas, fenômeno recente, dos quais a Religião do Santo Daime no Brasil, da Iboga no Gabão e do Peiote nos Eua são os maiores expoentes. Todos esses cultos utilizam um sacramento enteógeno, uma planta psico-ativa que produz uma expansão de consciência e uma experiência de cunho eminentemente místico. Na Amazônia Ocidental Brasileira o xamanismo religioso dos pajés sempre esteve associado ao uso das plantas enteógenas. Uma das mais importantes delas é a Ayahuasca, em torno da qual convergem muitas tradições dos índios e caboclos da região.

Quando os imigrantes nordestinos trouxeram para a Amazônia seus mitos e suas crenças religiosas, bastante influenciadas por um catolicismo de raízes populares, aqui encontraram os povos nativos dessas matas, conhecedores dos seus múltiplos mistérios e dos segredos das plantas ultilizadas nos seus rituais xamânicos. Foi nesse cenário, ao mesmo tempo féerico e mágico, que floresceu o culto do Santo Daime, um típico exemplo desta nova forma de fenômeno espiritual cada vez mais presente nos dias de hoje. Nas florestas da América do Sul, o Mestre Raimundo Irineu Serra cristianizou as tradições caboclas e xamânicas da bebida sacramental Ayahuasca, que em idioma quechua significa liana dos espíritos, conhecida desde o tempo dos incas e rebatizou-a com o nome de “Daime”, significando com isso o rogativo que deveria ser feito pelo fiel ao comungar com a bebida.

Raimundo Irineu Serra foi um maranhense de cor negra e elevada estatura física e espiritual. Com sua humildade e determinação, granjeou o respeito de todos quanto o conheceram. Depois de entrar em contacto com a bebida na fronteira com o Peru, foi para a cidade de Rio Branco, onde começou a trabalhar com um pequeno círculo de discípulos. Obteve uma revelação da própria Virgem Maria, que lhe apareceu sob a forma da Rainha da Floresta. A partir deste momento, estava nascendo o Terceiro Testamento, uma Nova Anunciação Visionária, através dos hinos que o Mestre Irineu foi recebendo e que re-interpretava a cosmologia cristã pela lente e pelas luzes da Ayahuasca.

Mais uma vez, longe dos saberes eruditos e dogmáticos, da pompa dos cortesões eclesiásticos, um ensinamento espiritual de grande profundidade foi tecido por humildes seringueiros, no contexto de um cristianismo popular, durante o boom da borracha no final do século passado. Neste cenário ímpar foi que o Mestre Irineu reuniu em seu cadinho alquímico esse mesmo cristianismo com tradições pré-colombianas, esoterismo europeu, crenças africanas e xamanismo enteógeno. O resultado dessa mistura é um sistema que consegue aliar a extrema simplicidade de sua formulação a uma profundidade espiritual raras vezes lograda por outras correntes que se dedicam a batalha e a investigação do auto-conhecimento. As visões, que são chamadas também de mirações, mostram tudo que a nossa fé precisa acreditar. Considerando que no passado os cristãos eram glorificados por crer naquilo que não tinham visto, a revelação enteógena promove um avanço substancial. Mata a cobra e mostra o pau.

A cristianização da Ayahuasca é o fecho de um longo processo de resgate cultural e espiritual. Quis o Criador, que escreve certo por linhas tortas, unir a fé dos conquistadores cristãos (protagonistas da empresa colonialista que, sob a benção da Igreja, submetiam povos inteiros a escravidão e ao genocídio), com o sacramento destes povos subjugados e oprimidos. Com o Mestre Irineu, o vinho das almas se converte no novo sangue do Cristo, o Consolador Prometido, o Paráclito Vegetal, o Logos-Cipó. Através dele assimilou-se a espiritualidade dos nativos pré-colombianos ao mesmo tempo que se resgatava o carma desta página sombria da expansão da cristandade no novo continente. Isso sem falar na restauração do papel da experiência visionária como o centro da revelação espiritual, descrucificando assim o Ser Crístico da cruz dos dogmas a que foi reduzido.

O principal responsável pela expansão e continuação da obra do Mestre Irineu foi Sebastião Mota, seringueiro, mateiro e construtor de canoas. Na década de 70 ele fundou uma comunidade nas proximidades de Rio Branco. Entendemos que a experiência espiritual, social e ecológica de nossa comunidade, por reunir uma síntese bastante original de todas essas influências, pode nos ajudar na construção de um novo paradigma para a Amazônia.

V – Uma Comunidade Espiritual na Floresta

a. Histórico

Nossa comunidade, com mais de vinte anos de existência, é integrada por diversos segmentos sociais, desde as populações tradicionais da área, até todo o tipo de profissionais liberais e trabalhadores, oriundos dos grandes centros urbanos. Por isso ela pôde ser, até hoje, um campo fértil de interação entre o conhecimento empírico dos povos da floresta e as modernas abordagens de manejo florestal e desenvolvimento sustentável. No final da década de 70, a comunidade, contando então com aproximadamente 300 pesoas, lideradas por Sebastião Mota, retirou-se dos arredores da cidade de Rio Branco, capital do Acre e instalou-se no local denominado Rio do Ouro, próximo ao Rio Indimari. Uma questão fundiária fez com que a comunidade, atendendo à sugestão das autoridades do Incra-Instituto de Reforma Agrária, abandonasse a área, deixando para trás casas, roçados e fruteiras, sem qualquer tipo de indenização.

Em janeiro de 1983 foi aberta a primeira clareira no local onde hoje se ergue a Vila Florestal Céu do Mapiá, próximo ao igarapé do mesmo nome, afluente da margem esquerda do Rio Purus. Além da Vila, a comunidade compreende também outros assentamentos na beira do rio Purus e no curso médio do Igarapé Mapiá. Em 1989, no meio a grande repercursão causada pela morte de Chico Mendes, foi obtida a transformação da área em Floresta Nacional. Em 1996 firmamos um convênio com o Ibama, a agência governamental do Meio Ambiente.

Durante todos estes anos temos trabalhado com recursos próprios e doações para a realização de vários projetos, a saber: de saneamento, secagem de frutas, extração de óleos vegetais, produção de alimentos; educação ambiental, produção de medicamentos fitoterápicos da floresta, etc. Foi com esse esforço que pudemos manter ativa a nossa comunidade de aproximadamente mil pessoas e ainda prestar um valioso trabalho de atendimento médico e assistênia social à população dos arredores, uma das mais pobres e carentes da Amazônia, sem qualquer apoio da esfera pública. Apesar das enormes dificuldades que enfrentamos, numa região que se caracteriza por uma incidência grande de malária, hepatite, lechimoniose, hanseníase e outras doenças tropicais. Nossa comunidade gera trabalho e tem contribuído para fixar os seus habitantes na região, impedindo o êxodo rural que gera tantos problemas sociais. Temos também uma escola que atende a quase duzentas crianças e jovens.

b. Nossa tradição religiosa e a luda do dia a dia

O que trouxe tantas pessoas até a floresta, vinda de muitas partes do globo, foi, como já dissemos, uma opção espiritual. O nosso trabalho espiritual se resume em comungarmos o sacramento dos nossos ancestrais e nos reunirmos em determinadas datas para cantar hinos em louvor ao Céu, a Lua , as Estrelas e a toda a Criação Divina. E dedicar o tempo restante a cumprir nossas obrigações e afazeres, que não são poucos. Durante muitos anos, enquanto o padrinho Sebastião era vivo, a comunidade era organizada em termos bastante igualitários. Havia um paiol comum e imperava uma espécie de socialismo cristão primitivo. De uns anos para cá o progresso da nossa Vila exigiu uma espécie de globalização cabocla. O progresso dos últimos anos trouxe para nós muitas mudanças e demandas sociais para resolver. O sistema original tornou-se mais flexível. Mas o ideal de comunidade contina sendo uma realidade e um poderoso símbolo mobilizador. Para consagrar esse compromisso, além das festas do Calendário Religioso, todos se reúnem às segundas-feiras para realizar o Mutirão Comunitário. Esse dia de trabalho é dedicado às tarefas comunitárias. Existe uma administração interna, organizada na forma de uma Associação de Moradores, uma diretoria para o centro que cuida da parte espiritual. Criamos recentemente um Instituto de Desenvolvimento Ambiental para gerir nossos projetos. Nos últimos anos temos sido objeto de uma intensa visitação de membros de nossa irmandade, amigos e simpatizantes de nosso movimento, procedentes de todas as partes do mundo.

Em termos sociais, nossa pretensão é a de sermos um povo trabalhador e ordeiro, bons cidadãos desse país em que vivemos e que tem a graça de possuir em seu território esta vasta região amazônica, única em todo o planeta. E cuja natureza sagrada reverenciamos. Pretendemos que a nossa experiência se torne, cada vez mais, um modelo de assentamento humano para outras regiões da Amazônia. Em termos espirituais, a sabedoria que nos é comunicada através do nosso trabalho com as plantas sagradas nos aconselha a procurar uma ligação cada vez maior com nossa Mãe, da mesma forma que os nossos ancestrais. Elas também nos alertam para os perigos que o homem está correndo enquanto espécie. Aconselham-nos a encarar seriamente o desafio de levarmos uma vida auto-suficiente. Para que essa luta pela auto-suficiência não seja apenas um slogan político e sim um tipo de sadhana, de prática espiritual que nos habilite a ser mais conscientes do nosso papel aqui no Planeta Terra.

Devemos aprender a viver em comunidade, porque nela todos compensam o que falta em cada um. Fica mais fácil dominar os processos básicos da vida. Aprender a plantar e colher um alimento mais integral e sadio; construir o próprio abrigo; fiar e tecer a própria roupa; se curar com a própria medicina que a floresta fornece e, principalmente, aprender a viver como irmãos, que é o mais difícil. Esse é o programa que nos une e em função do qual sempre procuramos superar as fraquezas e imperfeições que têm nos impedido de realizá-lo plenamente.

VI – Conclusões

Falamos aqui um pouco de História Geral, das Américas e da espiritualidade que nos foi legada pelos primitivos habitantes dessa terra. Falamos da floresta, do seu povo e dos seus mistérios. Explicamos um pouco do trabalho espiritual e material da nossa comunidade e de nossa esperança de sermos uma boa semente para esta Nova Era. Acreditamos, como representantes de uma tradição cultural e religiosa e pela dimensão do trabalho espiritual e social que empreendemos, que somos parte da aliança que une os povos da floresta, juntamente com nossos irmãos caboclos, índios e seringueiros. Entendemos que para decifrar o enigma da Amazônia e não ser por ele devorado é preciso aceitar o tamanho do desafio e da responsabilidade que ele nos remete. E isso só é possível mediante uma compreensão espiritual que nos permita ver e sentir a necessidade deste compromisso com a floresta e com a retomada deste diálogo entre as culturas.

Não podemos esquecer que tudo é sagrado. E nos lembrar sempre das famosas frases do cacique duwamish em Seatle, Washington, quando foi chamado pelo governador do Estado que queria negociar suas terras. São do cacique essas palavras: Cada torrão de terra é sagrado. O homem branco esquece a sua terra natal, quando depois de morto vai vagar pelas estrelas. Mas os nossos mortos nunca se esquecem desta formosa terra, porque ela é nossa mãe. Cada torrão de terra é sagrado para o meu povo. Cada folha reluzente das árvores, cada praia arenosa, cada véu de neblina na floresta escura, são sagrados na tradição e na consciência do nosso povo. De uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem. É o homem que pertence à terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo o que fizer à trama a si mesmo fará.

Dificilmente ainda se conseguirá formular princípios mais sábios, justos e poéticos como esses. Eles sintetizam muito bem o enfoque espiritual, cosmológico e ecológico que desenvolvemos aqui. E, para terminar, voltaremos ao começo deste texto, quando, comentando os fatos da conquista do novo continente, nos referimos à famosa passagem da prisão de Atahualpa. Vocês se lembram onde interrompemos a narrativa? O Rei Inca arremessa a Bíblia no chão, porque segundo ele ela não lhe falou nada. Então Frei Vicente, tomado de zelo apostólico e missionário grita a seguinte frase: Acudam cavaleiros, que estes índios gentios são contra a nossa fé! Em seguida, doze mil pagãos entre homens, mulheres e crianças foram chacinados em praça pública. Sem dúvida, a face do mundo de hoje poderia ser outra se tivéssemos aceitado conviver com as grandes civilizações que aqui encontramos. A misteriosa e virgem Amazônia, as tradições espirituais milenares que lá se encontram nos convidam novamente a reiniciar esse diálogo. Interrompido desde este fatídico dia da prisão de Atahualpa, o Inca.

Alex Polari de Alverga

Líder comunitário da Comunidade Céu do Mapiá, na Floresta Nacional do Purus, Município de Pauini, Acre, é escritor, conferencista e membro do Conselho da Igreja do Santo Daime.

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