História e Arqueologia dos Cogumelos Mágicos

História e Arqueologia dos Cogumelos Mágicos alucinógenos

Lu Gomes / Roberto Navarro

Esse Cogumelo provavelmente pertence ao Gênero Psilocybe, embora também posssa ser relacionada a duas outras variedades: Conocybe ou Stropharia. O primeiro registro histórico do consumo do cogumelo Psilocybe data de 1502, durante a coroação do imperador Montezuma. Despreparados e assustados pelos efeitos da droga, os conquistadores espanhóis tomaram a decisão de proibir a religião nativa e o uso dos fungos psicoativos.

Albert Hofmann, o químico suiço descobridor do LSD, foi o primeiro a extrair psilocibina e psilocina dos cogumelos mágicos das espécies Psilocybe Mexicana e Psilocybe Cubensis. A psilocibina assemelha-se quimicamente ao LSD e é conhecida cientificamente como orthophosphoryl -4 – hidroxy – N – di – methyltryptamine. Os cogumelos secos tem ação mais forte que os cogumelos frescos. assim, de 8 a 10 mg de psilocibina são obtidos em 2 a 6g de cogumelos secos ou em 13 a 40g de cogumelos frescos.

Alguns pesquisadores acreditam que a psilocibina abre uma porta para o subconsciente, permitindo que o mundo consciente seja encarado de uma perspectiva o de percepção sensorial ampliada: as cores se destacam, detalhes minúsculos dos objetos são revelados e estruturas coloridas cruzam o campo de visão. O efeito pode degenerar em desorientação, reações paranóicas, inabilidade para distinguir entre fantasia e e realidade, pânico e depressão.

Do site www.cogumelosmágicos.com – Retirado do livro : Mandala – A experiência alucinógena. ed. civilização brasileira s.a. 1972 (original: Essai sur L’experience Hallucinogène – 1969).

 

História da descoberta dos cogumelos alucinógenos do México

Roger Heim

cogumelos-magicos

O culto antigo

As relacöes dos primeiros viajantes espanhóis e as reliquias pré-cortesienses, os afrescos, as estatuetas e as cerâmicas, certamente anteriores a era cristã, ensinam-nos que o culto dos cogumelos sagrados do Mexico remonta a um passado longínquo, Desde o século XVI, alguns frades espanhois nos dão as primeiras indicações, aliás muito fragmentãrias, sôbre o uso, pelas tribos indias do Mexico meridional, dos cogumelos cujos efeitos singulares eram utilizados pelos adivinhos, durante as cerimônias rituais. F. Bernardino de Sahagün, Francisco Hernandez, Jacinto de la Serna tinharn assinalado o efeito narcótico e embriagador produzido pela absorc do teonanacatl, ou “carne de Deus”, e as alucinaçoes estranhas, os sonhos coloridos, as vêzes acompanhados de visôes demoníacas, de acessos de hilaridade, de excitação erotica, ou, ao contrário, por fases de torpor, ate mesmo de bem-estar, que a ingestão dêsses agáricos produzia; o partido, enfim, que tiravam desse estado, durante as ágapes que faziam parte da vida comunitária, os curandeiros, aptos então a revelar aos assistentes o futuro e, às vítimas vindas para consultas, o esconderijo dos objetos desaparecidos ou das esposas que haviam fugido.

Entre os dados que nos deixou a literatura antiga, os que Diego Duran apresenta em sun História de las Indias de Nueva España são particularmente preciosos. Dizem respeito as cerimônias que acompanharam e seguiram a sagracão de Montezuma II. Vejamos a tradução de linhas muito instrutivas a êste respeito:

“… Aos estrangeiros foram dados cogumelos silvestres, para que se embriagassem; depois disso, eles entraram na danca. Terminado o sacrifIcio e estando os degraus do templo e o patio banhados de sangue humano, todos foram comer cogumelos crus, alimento que fazia com que perdessem a razão, deixando-os num estado pior do que se tivessem tornado muito vinho: achavam-se a tal ponto bebedos e privados da razão que muitos se suicidavam e gracas ao poder dësses cogumelos tinharn visões e o futuro lhes era revelado, o Diabo falando com eles, enquanto estavam em estado de embriaguez”,

Sahagun, celebre historiador do Mexico, dedicou várias passagens de seu livro fundamental a comparar as propriedades dos teonanacatls empregados pelos astecas corn Os efeitos do cacto chamado peyote, descoberto provavelrnente pelos otomis e utilizado ainda hoje no norte do vale do Mexico e ate no Sul dos Estados Unidos, planta que os botãnicos chamam Lophophora Williamsii e da qual foi isolado o alcaloide hoje bem conhecido, a mescalina, de surpreendentes efeitos alucinatorios. “Os Chichimecas”, diz-nos Sahugun, “usavam o peyote em lugar de vinho ou de cogumelos”. Esta afimrnacao nos mostra a importância que então havia adquirido o uso dêstes ultimos na vida dos astecas. “Eles se reuniam em terreno plano, cantavam, dancavam a noite e o dia inteiros, E, no dia seguinte, choravam copiosamente, enxugando as lagrimas dos olhos”. O mesmo autor acrescenta que êsses cogumelos “nascem sob a grama nos campos ou nos brejos e são usados contra as febres e a gota. Aqueles que comem tem visões e sentem palpitacöes no coracão; tais visóes são as vëzes assustadoras e as vêzes risiveis. Os cogumelos excitam o desejo sexual”.

Destas relacoes e de outras resulta a constatação de que, na época pré-colombiana, os cogumelos sagrados eram consumidos em publico, que êsses costumes estavam muito difundidos e se aplicava em cerimõnias abertas, e não a portas fechadas, como se processaram depois que os monges espanhóis se entregaram a essas práticas profanas. E principalmente nas regiôes zapoteca, nahuatl, otomi, que êles eram usados de longa data, mas sabemos, graças a investigacôes recentes, que as regioes mazateca, chinanteca, chatina, mixe, mixteca, totonaca, e, provàvelmente, houasteca e tarasca devem ser acrescentadas a esta lista; sabemos que êsses cogumelos so deviam ser consumidos frescos — crus — ou secos, mas jamais cozidos ou depois de terem ficado em água fervente, Estas precaucôes se explicam pela natureza dos corpos quimicos responsâveis, solúveis na água.

As provas arqueológicas

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Foram estas precedentes indicacöes fragmentárias que, em 1953, colocaram na pista fecunda da etnomicologia nossos amigos R. Gordon e Valentina P. Wasson, aos quais nos associamos em exploracoes comuns, R. G. Wasson dedicou-se especialmente a procurar as próprias origens dos conhecimentos antigos, tais como os que as obras pós-cortesienses lhe forneciam, e a encontrar provas arqueologicas. Os afrescos de Teotihuacan, no vale alto da cidade do Mexico, lhe revelaram, no célebre local de Tepantilla, as figuraçöes murais próprias ao culto de Tlaloc, divindade do raio e das águas, onde chapeus de cogumelos se sucedem, esquematizados ate a extrema simplificacão de dois círculos concêntricos, alterando-se com conchas ao longo de um riacho

Essa proximidade pictórica com a aqua e o fato de serem esses cogumelos sagrados ligados ao Deus das Chuvas, pois são chamados “filhos das águas” — apipiltzin — pelos descendentes diretos e atuais dos astecas, correspondem a sua localização geografica e climãtica. São, na maioria, espécies higrófilas, digamos mesmo aquãticas (o psilocybe Zapotecorum cresce na agua) cruzando no limite das terras quentes e das terras frias, entre 900 — 1800 metros de altitude, nas zonas abundantemente molhadas pelas precipitaçöes atmosféricas, Wasson encontrou, em relacão ao período de Teotihuacan III, num afrésco de Teopancalco evocando os ritos da ernbriaguez, uma alternância sugestiva de conchas e de cogumelos. Mas são os cogumelos de Vera Cruz que fornecem a estas pesquisas as provas mais suqestivas.

Ha meio seculo mais ou menos, o Dr. C. Sapper foi primeiro a chamar a atencão para curiosos objetos arqueologicos encontrados principalmente na Guatemala, espécies de ídolos em forma de cogumelos, nos quais se julgou ver, a principio, representacôes fãlicas, Essas estatuetas de pedra foram estudadas pelo Dr. St. F. Borhegyi, que publicou uma monografia recentemente completada por suas observacôes sobre as cerâmicas e as microcerâmicas pintadas, do Sul e do Leste do Mexico. Os Wasson sugerem que essas esculturas “poderiam ser a expressão surpreendente de uma fase de um culto dos mayas das montanhas, culto desaparecido muito antes da chegada dos espanhóis”. Esta explica cão, com a qual concordamos plenamente, poderia estar ligada a própria origem das cerimônias anteriores, das quais Sahagún nos transmitiu o eco. R. G. e P. Wasson, no capitulo que dedicaram a êsses ornamentos pre-colombianos, em seu prirneiro trabalho de conjunto sôbre os problemas de etnomicologia estenderam-se sôbre esta extraordinãria interpretacão. Depois, o Dr. St. F. Borhegyi, com quem os Wasson tinham percorrido a Guatemala em 1953, atribuiu os mais antigos dêsses cogumelos de pedra ao século X, ate mesmo ao século XIII antes de Cristo, e os mais recentes a 800 e 900 anos depois de Cristo. Tais esculturas, de 20 a 35 centímetros de altura, constam de um chapeu grosso e abaulado sustentado par um estipe sôbre o qual frequentemente são representadas figuras de animais, sapo, jaguar, quati e, a vêzes, um rosto humano. E principalmente nas montanhas da Guatemala que ainda se encontram semelhantes reliquias mayas — ha espécimes no Museu Rietberg, em, Zurique, e também em Washington, no Museu do Homem, e alhures — mas nenhuma lembrança do culto do qual os cogumelos sagrados foram antigamente o objeto subsiste nas regiôes de origern. O Dr. Borhegyi, no entanto, descobriu duas narracôes indígenas muito antigas e muito sugestivas que fazem alusão a sacrifícios — cujo desenrolar as pedras suportavam — aos quais estavam associados os cogumelos. Wasson acredita que o culto hierático maya, muito antigo, era o apanágio de uma aristocracia de padres, que passou para o povo devido a perturbaçoes politicas e depois foi para o Norte, para os paises mexicanos onde se popularizou e onde persistiu ate nossos dias, ao passo que, pouco a pouco, todos os vestígios a seu respeito perdiam-se nos paises mayas.

A descoberta de cerâmicas pintadas é mais recente e nao menos digna de interesse. A mais espetacular, a mais demonstrativa também, a que dá a prova definitiva da propria natureza desses objetos, pertence hoje a coleção de Wasson, que a adquiriu no Mexico; provem dos arredores de Vera Cruz. Representa uma mulher sentada, tendo na cabeca uma espécie de turbante, o braco esquerdo erguido para invocar o poder divino, a mao direita pousada num cogumelo, sendo que a parte inferior do chapeu do cogumelo se funde como que para simular o himen partido. A feitura desta peca única é indiscutivelmente totonaca (pode-se encontrar no Museu do Homem uma estatueta de mulher totonaca que tem uma grande semelhanca com a que acabamos de descrever sucintamente).

O culto do cogumelo no século XX

Após os primeiros escritos dos viajantes espanhóis, fez-se um silêncio integral de três séculos sobre os cogumelos sagrados do Mexico, e ao botânico Richard Evans Schultes e ao etnologo Robert Weitlander que cabe o mérito de terem assinalado, ha uns trinta anos a persistência das cerimônias rituais associadas aos cogumelos sagrados no país mazateca. R. Ev. Schultes publicou duas notas a ésse respeito, em 1939 e 1940, falando do pretenso cogumelo utilizado, o panaeolus sphinctrinus, especie cuja identidade especifica pude confirmar depois, mas que não era a que os indios utilizavam, tendo estes dado ao botanico americano especimes de um cogumelo estranho ao uso. Os Wasson, vivamente interessados por essas indicacoes, tiveram a sorte de, em 1953, conseguir de uma missionãria americana, Miss Eunice V. Pike, informacoes ineditas sôbre o emprëgo, pelos mazatecas da região de Huautla de Jirnenez, dos cogumelos alucinogenos e divinatórios, utilizados nas cerimônias que, evidentemente, lembrarm aquelas de que Sahagun nos fala, mas que o rito católico havia modificado notàvelmente.

Estas primeiras informações abriram ao Sr. e a Sra. Wasson, desde o mês de agosto de 1953, o caminho de Huautla, onde suas investigacoes foram frutiferas. Puderam reunir uma documentacão sôbre os nomes vernáculos apropriados aos cogumelos sagrados, recolher quatro espécimes déles, que me entregaram e as quais pude estudar, descrever e maioria, cultivar no laboratório de Criptogamia do Museu, a partir de seus esporos: uma, nova para a ciéncia, era frequentemente usada para fins divinatorios: relativamente comum, nativa nos pastos e campos de milho, foi chamada psilocybe mexicana Helm; outra, comum no estrume de vaca, identificava-se corno a stropharia cubensis Earle; uma terceira, parecida com o psilocybe do Sul dos Estados Unidos descrito por Murril com o nome de caerulescens chama-se var. Mazatecorum; a quarta, lignicola, pertencia ao género conocybe (C. siligineoides Helm). Melhor ainda, R. G. Wasson, sua mulher e sua filha tiveram a possibilidade de assistir as estranhas cerimônias noturnas, durante as quais o curandeiro Aurelio Carreras consumiu quatorze pares de psilocybe mexicana e trés de stropharia cubensis. O rito, do qual participam numerosos acessorios, foi depois descrito munuciosamente em inglês pelos Wasson, em seu primeiro trabalho, depois em lingua francesa por Wasson em nosso livro, publicado em colaboracão com êle, em 1958.

Mas foi em 1955 que os Wasson participaram pessoal mente dos ágapes mazatecas noturnos, presididos pela extraordinaria Maria Sabina. Tiveram alucinacões das quais nos deram as primeiras relacoes nos volumes acima citados: “formas geométricas ricamente coloridas, depois colunatas, patios de esplendor real, edifícios de cores brilhantes, visões em seqüências infinitas, nascendo umas das outras, cada qual emergindo do centro da precedente”. A noção do tempo é perturbada. “Todas as impressões visuais e auditivas ficam gravadas na memória como que por um buril”. Depois, Wasson repetiu a experiência em sua casa, em New York, ficando toda a cena então animada pela intensidade anormal das cores aparecidas, “Vi os céus de Greco girarem acima de New York”.

Antes, em maio de 1954, Wasson explorou a região mixe, aí encontrando vestígios de cerimonias análogas, embora diferentes nos detalhes, ao passo que em julho de 1955, em companhia de Robert Weitlaner, percorreu a região de San Agustin Loxicha, em território zapoteca, onde anteriormente o Dr. Bl. Pablo Reko em 1953 e o Dr. Pedro Carrasco em 1949 haviam constatado, durante uma viagem de investigação etnológica, que os cogumelos sagrados, assim como outras substãncias vegetais alucinógenas, ainda estavam em uso. Precisamente nesta região, pude estabelecer que duas espécies utilizadas pelos zapotecas eram ainda o psilocybe mexicana e o psilocybe a que chamei Zapotecorum, encontrado êste nos charcos e lugares ümidos abandonados.

Mas os ensaios culturais empreendidos no Museu de Paris, depois de 1955, com a ajuda de meu assistente Roger Cailleux, deveriam com o tempo mostrar-se proveitosos. A stropharia proveniente das primeiras coiheitas de Wasson frutificava perfeitamente sobre estrume, em condiçoes nao estéreis. Graças a êsses materiais vivos, eu deveria realizar pessoalmente em Paris uma primeira experiência de ingestão, em 18 de maio de 1956, poucas semanas antes da expedicäo que realizamos corn M.R.G. Wasson, a qual se juntou o etnologo frances Guy Stresser-Péan. Fiz um relato pormenorizado deste primeiro ensaio realizado a partir de 120 gramas de stropharia fresca, dose que hoje sabemos ser excessiva, pois correspondia, provàvelmente, a absorcão de mais ou menos 40 miligramas de substância ativa, ou seja, quatro vêzes mais que a quantidade considerada como eficaz e não perigosa, como revelaram estudos posteriores. Não falarei aqui sobre os fenomenos experimentados, que se aplicavam principalmente a modificacões óticas profundas, propicias a intensificacões fulgurantes e surpreendentes das cores, a uma excitacäo alegre, a uma duplicacao movel dos objetos. Os ensaios feitos em nós mesmos, independentemente, por Wasson e por mim, apesar das diferenças ligadas as particularidades genéticas de nossas respectivas individualidades, traziam a confirmacão dos experimentadores do século XX.

Nossas expediçoes de julho de 1956 vieram a princípio ampliar os conhecimentos reunidos anteriormente sabre os ritos em zona mazateca, na região de Huautla de Jimenez, centro de estudos para o qual Wasson havia anteriormente voltado sua atencäo. Novos documentos sobre as cerimonias presididas por Maria Sabina e dois outros curandeiros de Huautla juntaram-se aos precedentes. Participei, com G. Stresser-Péan, dos ágapes mexicanos e experimentamos todos os seus efeitos; registros sonoros de sessoes noturnas haviam sido realizados por R. G. Wasson e seu fotografo Al. Richardson. Sucediam-se inúmeras coiheitas de cogumelos alucinógenos na própria terra onde cresciam, Depois fomos ao território chatino, ao norte do istmo de Tehuantepec, na região de Jochila, onde três especies de cogumelos sagrados eram colhidos: o psilocybe Zapotecorum, que cresce nos charcos, e a var. nigripes do ps. caerulescens e, de novo, o ps. mexicana, Outra cerimonia abria-se a nossas investigacoes. Conduzida pelo curandeiro Balthazar, realizada durante o dia, tinha por objeto descobrir, sob a acao dos cogumelos, o diagnostico e o remêdio de uma afeccao que afligia um menino da aldeia a êle levado por sua avó.

Finalmente, duas excursões a região asteca, uma nos flancos do Popocatepetl, outra no vale do México revelaram-me ou confirmaram respectivamente a existência de dois psilocybes — anteriormente comunicados também por Wasson — utilizados pelos Nahua — aos quais eu atribuia as denominaçoes de Ps. Aztecoruin e Ps. Wassonii. Em 1956, eu havia também percorrido os Chiapas, aonde já fôra sozinho em 1952. G. Stresser-Péan acompanhou-me, da segunda vez, mas não pudemos encontrar nenhum psilocybe alucinógeno, nem percebemos vestigios de sobrevivência das cerimônias das quais os cogumelos pudessem ter sido o objeto. Logo se juntaram três grupos de documentos üteis: Teófilo Herrera, da Universidade do Mexico, ainda em 1956, depois Stresser-Péan e Weitlaner em 1957 me deram amostras e indicacöes sôbre o uso ao qual se prestava o psilocybe Wassonii. O ano de 1958 foi igualmente proveitoso: R. G. Wasson atingiu em julho a antiga região florestal do Rio Santiago, em território mazateca, e trouxe a espécie lignícola que identifiquei como o psilocybe yungensis Sting. e Sm., cogumelo achado anteriormente na floresta boliviana, por Rolf Singer, ao passo que Searle Hoogshagen me comunicava, no mesmo mës, da região mixe, a existência de inümeros espécimes de duas outras espécies que eu descrevia respectivamente pelos nomes de Ps. mixaensis e Hoogshagenii, e das quais fizemos a cultura, juntamente com R. Cailleux, obtendo da primeira, no laboratório, frutificaçoes espetaculares.

Depois, duas novas series de expedicoes ao Mexico foram feitas por Wasson e por mim mesmo, em 1959 e em 1961. Delas participaram igualmente Roger Cailleux e, das primeiras, Guy Stresser-Péan.

Em 1959, a região mazateca foi de novo o centro de nossas investigaçöes e por três vêzes pudemos explorar a magnifica floresta do Rio Santiago (onde as colheitas do psilocybe yungensis foram abundantes), assim como toda uma flora micológica silvestre. Os prados da região de Huautla ainda nos indicaram a presenca do psilocybe (principalmente mexicano), Hoogshageni Heim e aí encontramos o semperviva selvagem, descrito anteriormente em cultura, por mutacão do primeiro — problema genético que merecerá novos estudos. Aproveitei para explorar mais completamente a flora micologica da região mazateca. A segunda expedicao levou-nos de Mitla a Zacatepec, em territãrio mixe, onde as colheitas foram menos abundantes, mas onde colhemos o psilocybe mexicana e várias formas de caerulescens cujo uso ainda subsiste, embora enfraquecido. Durante êsse tempo, R. G. Wasson atingia, nesta mesma região, Cotzocon e San Pedrito Ayacaxtepec, onde os índios lhe entregaram espécimes de uma variedade clara — albida [creio q seja albina] — desta ültima espécie, que daí em diante consideramos como reunindo formas estáveis ligadas a microclimas diferentes e perfeitamente distintos, Depois exploramos a floresta de fagus mexicana de Zacatlamaya, ao sul de Zacualtipan, nos confins das regioes houasteca e totonaca, que nos deu uma especie inédita de psilocybe (Ps. fagicola Heim e Cailleux) brotando no humus dessa árvore, a mais meridional das faias americanas. Finalmente, a região totonaca de Villa Juarez e Necaxa nos deu os psilocybe mexicana semperviva e caerulescens, mas a sobrevivencia desses usos estava mais ou menos perdida nesta região. Em 1961, enfim, levei ao Mexico Roger Cailleux e um excelente operador cinematográfico, M. Pierre Ancrenaz, colaborador do Dr. Pierre Thevenard, com quem pudemos preparar, após esta data, um filme de longa metragem (mais ou menos duas horas e meia) em 35 milímetros, colorido, sôbre os cogumelos alucinogenos do Mexico e os diversos prolongamentos, cultural, quimico, psicofisiologico, aos quais seu estudo pôde conduzir, realizacão levada a efeito gracas a generosa contribuiçao financeira da Fundacão Singer-Polignac. Pudemos assim trabaihar no local, filmando e, ao mesmo tempo, fazendo a exploracào micológica, Após algumas dificuldades, pudemos, em Huautla de Jimenez, tornar as providencias necessàrias ao registro das manifestacoes provocadas pela absorcão dos cogumelos em casa de Maria Sabina, sua irma, suas filhas e seu cunhado, sessão noturna que será uma das mais espetaculares cenas do fume. Após térmos recolhido, apesar da séca, os psilocybes mexicana e semperviva e depois explorado a floresta de San Bernardino, atingimos a região mixteca; na sua parte central e elevada, perto da vila de San Miguel Progreso, travamos conhecimento corn o indio Agapito, que nos conduziu aos lugares onde crescem as duas espécies de Lycoperdons, conhecidas por sua acão sedativa, sendo uma delas o L. cruciatum (de segunda qualidade), Apesar da experiência pretensamente positiva a qual Agapito e o etnólogo americano Robert Ravicz se submeteram durante nossa estada ali, em San Miguel Progreso, ficamos um pouco céticos, M. Wasson e eu, quanto a ação real désses cogumelos que, segundo os indios, provocariam sonhos coloridos, durante os quais seriam dadas respostas a perguntas feitas em estado de vigilia. Por seu lado, R. G. Wasson foi para a região de Juxtlahuca (1,500 ms, de altitude), na Mixteca ocidental, dedicando-se ainda ao uso do psilocybe mexicana, principalmente em San Pedro Chayko.

Nesse meio tempo, Guy Stresser-Péan tinha percorrido, em novembro de 1959, o municipio de Misantla, que depende do Estado de Vera Cruz, nos vales da vertente setentrional da Sierra de Chiconquiaco, onde o uso divinatório de diversas drogas alucinógenas e, portanto, também do cogumelo, era difundido na ocasião. Hoje, o uso dos psilocybes restringe-se a alguns velhos curandeiros e a lembranca que dele guardam alguns informantes que se lembram do perigo decorrente da ingestâo em alta dose. Parece realmente que empregavam estas espécies na região totonaca para tratar de casos de espanto, doenca devida a perda da alma. Visões agradáveis e revelacoes relacionadas com os problemas que preocupam o sujeito acompanham esta consumacão com imersão na água onde se macerou uma pequena labiada aromâtica. A dose ideal désse psilocybe zapotecorum Heim var. elongata correspondente a sete exemplares em estado seco. As duas outras especies utilizadas, determinadas igualmente por nós mesmos, são uma forma de psilocybe yungensis — ou talvez cordispora Heim — e ps. caerulescens Murr.

Em setembro de 1960, Stresser-Péan dedicou-se a novas investigacôes nesta mesma região totonaca, onde encontrou uma grande espécie, o ps. Zapotecorum (assirn como, ao que parece, também no Municipio de Tenochtitlan) e os ps. caerulescens e ps. mexicana. Os relatos feitos pelos indios confirmaram o que tínhamos sabido por outro lado; uns, sob esta influência riem, outros ficam amedrontados, “Um doente pode chegar a saber (gracas a presenca de um parente que registre suas palavras) onde, quando e em que circunstâncias foi atingido pelo espanto. Pode então tomar as providéncias necessarias para que sua alma se reintegre ao corpo do qual saira, o que estabelece o bom equilIbrio do organismo”

Nossa ültima viagem realizou-se em meados de agosto de 1961, na região de Pahuatlan (1050 m de alt,), de onde atingimos Xolotla (1190 m) ao norte de Tulancongo (ao sul do limite entre as provincias de Vera Cruz e de Hidalgo), onde as informacoes pareciam indicar que ali era mantido o culto dos cogumelos sagrados. Mas esta excursão, através de um país suntuosamente belo, foi um fracasso. O encarregado das cerimônias omitiu-se, a sêca era terrlvel e não colhemos nenhurna espécie de alucinogeno. Pudemos, pelo menos, voltar a Villa Juarez e Necaxa e colhêr, numa época muito chuvosa, em companhia de Roger Cailleux, assim como haviamos feito dois anos antes, os psilocybes mexicana e semperviva, nos campos úmidos e nas matas de pinheiros e carvalhos vizinhos; pudemos, enfim, registrar várias seqüências de nosso filme sôbre a própria coiheita dos psilocybes alucinógenos.

A essas novas aquisicôes, poderiamos ainda acrescentar as de uma viagem de Henry K. Puharich, nos anos de 1960 e 1961, território chatino, de onde êsse colecionador me enviou os psilocybes zapotecoruin e caerulescens.

A cultura nos “psilocybes” alucionógenos realizada em Paris

Nesse meio-tempo, tinhamos abordado no Museu de Paris os problemas propostos pela cultura dos cogumelos alucinatôrios e vimo-nos forçados, a partir de 1953, a obter carpóforos, metôdicamente, com o auxIlio de nosso colaborador Roger Cailleux. Desde as primeiras tentativas, a cultura da stropharia sôbre estrume parecia viável e relativamente fácil, e foi por esse processo que os resultados apareceram desde 1955, levando-me a uma experiência positiva de ingestão. Após a expedicão de 1956, várias tentativas feitas corn algumas espécies de psilocybes pouco a pouco se revelariam proveitosas. Registramos suas etapas e, numa nota feita corn Roger Cailleux, mencionamos desde 1957 os resultados promissores, que experiências ulteriores confirmaram. O conjunto destas pesquisas permitiu-nos atingir os trés objetivos que nos tinhamos proposto: primeiramente, obter culturas puras, a partir da carne e dos espórios, de espécies alucinógenas (hoje, entre quatorze espécies ou variedades selvagens, onze são cultivadas em laboratórios), e estudar comparativamente seus micélios; em seguida, realizar a cultura de carpóforos sôbre estrume ou em Erlenmeyer, segundo as condicoes precisas do meio fisico-químico e da ambiência, procurando frutificacoes nas condiçoes rnais aptas a um estudo descritivo completo das formas; enfim, a partir destes resultados, reunir a quantidade de material necessário as investigaçães de ordem química e, depois, fisiológica.

Esses tres objetivos puderam ser completamente atingidos. Sucessivamente, os psilocybes mexicana, caerulescëns (variedades mazatecarum e nigripes), zapotecorum mixaeensis e, bem entendido, a stropharia cubensis e a espécie menor ps. yungensis, além da extraordinãria espécie “mutante” psilocybe semperviva, puderam, não somente frutificar, mas serem obtidas em abundãncia, o que permitlu precisar as particularidades fisionômicas, anatômicas e biologicas désses cogumelos. Melhor ainda, os sucessos excepcionais a que conduziu, nestas condiçoes, o psilocybe mexicana nos autorizaram a dar a esta cultura uma significacão restrita que o Dr. Albert Hofrnann, de Basiléia, iria explorar numa escala mais ampla.

Encontrei, realmente, uma colaboracão essencial por parte désse sábio químico, cujos trabalhos sôbre as substâncias indolicas e principalmente os alcalóides do fungo merecem fé, e também de Arthur Brack e Hans Kobel. Em primeiro lugar, era-nos permitido desenvolver as culturas do psilocybe mexicana do qual tinhamos notado, com R. Cailleux, em Paris, a segregacão, segundo várias origens de caracteres distintos, mas mantidos constantemente. Por outro lado, este cogumelo pequeno podia produzir, em cultura, escleródios, cujo peso variava de 5 a 10 gramas, mas podendo atingir ate 22 gramas para um tubérculo de 5 centírnetros de comprimento por 3,5 centímetros de largura. No laboratório de Criptogamia do Museu, 650 terrinas foram sucessivamente semeadas numa primeira série de ensaios, a partir de trés origens distintas de psil. mexicana, produzindo 1.070 gramas de cárpoforos secos. Logo em seguida, obtinham-se, na Basiléia, 2,350 kg de escleródios e micélios secos. Esses ensaios tinham posto em evidéncia as influéncias respectivas, de um lado, do teor do meio de cultura em substância nutritiva (mosto de cerveja, malte); do outro lado, o fluxo luminoso sôbre a formacão dos carpóforos e os escleródios e o contraste notável entre as condiçoes propícias a uma ou a outra das colheitas para uma mesma temperatura (20 a 24 graus C): os escleródios apareciam difícilmente a luz e, sem düvida, mais abundantemente na obscuridade, e para teores em mosto de cerveja relativarnente elevados (1,7 a 7%); os carpóforos, ao contrârio, so se formavam a luz, jamais na obscuridade, e para taxas rnuito fracas em matéria nutritiva (1 a 0,15%, o máximo correspondente a um teor de 0,3 a 0,4%). Sôbre éstes resultados, sobre os processos de cultura em estrume e as precaucöes tomadas neste sentido, ja antes nos estendemos longamente, principalmente em nosso trabalho de conjunto.

Outro bom resultado iria, enfim, charnar nossa atencão: independentemente das origens diferentes as quais a cultura do psilocybe mexicana levava, conforme as frutificacôes constantemente reproduzidas, de caracteres varietaux fixos, a partir de semeaduras de exemplares selvagens aparentemente idénticos, obtivemos um mutant, de origem aparentemente ainda própria ao psilocybe mexicana lato sensu e cujas particularidades fisionômicas, esporíferas, biológicas deveriam precisar-se pela cultura, conduzindo a um tipo específico estavel e surpreendentemente distinto dos exemplares selvagens primitivos. Esta espécie, mais poderosa, de teor mais alto era princípio ativo de frutificacoes dotadas de uma duracão de vida excepcionalmente longa — quatro a cinco semanas foi chamada psilocybe semperviva. Mais tarde tornaremos a falar do extraordinãrio interésse desta especiação.

Mas os ensaios e seus resultados deveriam levar a outro objetivo, que nos parecia essencial: o estudo qulrnico dos cogurnelos alucinógenos, a procura da natureza e da estrutura dos corpos responsáveis pelos efeitos provocados.

É este o histórico das contribuiçoes trazidas ao conhecimento, antigo e moderno, dos teonanacatls. Conviria acrescentarmos as notas descritas de R. Singer e Al. H. Smith, que acompanharam nossas primeiras publicacöes e as de nossos amigos mexicanos, Teof, Herreda e M. Zenteno e, enfim, as de Gaston Guzman, que estudou principalmente a divisão dos psilocybes alucinógenos e suas caracteristicas ecologicas.

O aspecto químico: Psilocibina e Psilocina

 

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