Celebrando os Solstícios

texto de Richard Heinberg, em Celebrando os Solstícios

“A origem de outra importante lenda do Natal, Santa Claus, é bem conhecida. Novamente brilha um pouco da tradição pagã nos primórdios de um costume moderno. O nome Santa Klaus é derivado (no holandês Sinter Klaas) do alemão, equivalente a São Nicolau. Os fatos históricos sobre o turco São Nicolau, bispo de Myra no século IV, indicam que ele era aparentemente famoso por sua generosidade anônima, especialmente para com os jovens. Provavelmente por essa razão ele se tornou, mais tarde, o santo patrono dos meninos.

De qualquer forma, a lenda diz que em uma noite ele colocou dinheiro nas meias das filhas de um fidalgo pobre. Gradualmente, as festividades de São Nicolau, comemoradas em 6 de dezembro, foram transferidas para o Natal, e nos países germânicos as crianças associava, a figura de barbas brancas com indumentária diferente às festividades das noites de Natal.

A imagem moderna de São Nicolau deriva também de outras fontes: um personagem lendário germânico chamado Knecht Ruprecht viajava de cidade em cidade, no Natal, testando os conhecimentos das crianças sobre orações. Se eles passassem no exame, eram recompensadas com frutas, nozes e pão de gengibre, que ele carregava em um saco, e caso não fossem diligentes, ele brandia um bastão de punição.

Na Inglaterra, por volta do século XIV, era costume de Natal um senhor idoso, de barbas longas e brancas, visitar casas usando uma coroa de azevinho, mas o Papai Noel, ainda muito divertido, não tinha as qualidades mágicas nem o trenó puxado por renas tão adoradora pelas crianças atualmente. Eram personagens da literatura, não do folclore.

Washington Irving reuniu as tradições primitivas compondo a figura do moderno Papai Noel. Em 1809, ele escreveu Falir Knickrbocker’s History of New York, onde descrevia um personagem que viajava em trenó e pousava nos telhados trazendo presentes para as boas crianças.

Ainda que a imagem familiar do Papai Noel tenha origens recentes, a idéia de um homem bondoso, com barbas longas e brancas, que vivia no pólo norte e voando de maneira mágica por todo mundo tem ressonância com tradições culturais mais antigas.

O Natal, esteve associado, desde o princípio, ao começo do solstício de inverno (hem.norte), período no qual os xamãs e sacerdotes de todo mundo, realizavam os rituais de renovação. O tema renovação, inevitavelmente, retomava a idéia de celebração do paraíso original ou Era do Ouro, na qual a natureza, o Cosmo e a humanidade estavam em perfeita harmonia. Estas associações são claras na crença sérvia de que na noite de Natal, exatamente à meia-noite, o mundo é subordinado ao paraíso, e na tradição bretã, que os animais falam (poder que tinham na Era do Ouro segundo relato de muitas culturas). De acordo com os antigos gregos, Cronos, o rei do mundo, durante a Era do Ouro, tinham vivido no Polo Norte.

As crenças sobre os xamãs de praticamente o mundo inteiro, da Austrália à África, da Ásia às Américas, informam que estes são capazes de voar e de mover-se de acordo com sua vontade entre vários reinos espirituais e materiais da existência. ”

Reunindo os elementos, observa-se que, embora seja importante traçar uma conexão direta entre a tradição xamanística e Papai Noel, a idéia, entretanto, pode trer sido formulada utilizando-se memórias e crenças coletivas, talvez até mesmo provenientes do período paleolítico. Segundo E.C.Krupp:

“Se a árvore cósmica nos aponta o caminho para o Céu todo o Natal, Papai Noel compreende em si a idéia do vôo mágico de um xamã.

Algumas vêzes é dito que o próprio xamã é responsável por levantar uma árvore de Natal que chega ao céu do Polo Norte. O Papai Noel desce pela chaminé e depois volta pelo mesmo caminho. Nossas chaminés, como um eixo cósmico, o levam de um reino para o outro.

Deve haver também alguma coisa mágica relacionada ao saco de presente que ele carrega para distribuir às crianças do mundo. O saco é como um moinho mágico que podia moer o suprimento ilimitado de alimento, dinheiro, sal, e estava associado ao eixo do mundo. Além do mais, como os deuses e espíritos, Papai Noel é imortal. Sua atividade concentrava-se na noite crítica que antigamente era o solstício de inverno (hem.norte)”.

A maior parte dos elementos da moderna celebração de Natal (exceto as poucas que abordam especificamente as histórias bíblicas do nascimento de Jesus) deriva dos festivais antigos, de tradições e de crenças relacionadas às árvores sagradas, à renovação do mundo, ao êxtase xamânico e à dança sazonal do Sol e da Terra. A comemoração de Natal suplantou a de solstício, absorvendo seus emblemas superficiais, ignorando ou suprimindo muitos de seus significados centrais.

Atualmente, como há mais conhecimentos disponíveis sobre tradições de povos antigos, muitos cristãos estão compreendendo que o conteúdo das antigas celebrações não contradiz o espírito de sua fé. Afinal, Jesus não disse absolutamente nada sobre erradicar os festivasis antigos; amava a natureza e pedia para seus discípulos procederem como crianças, imitarem as flores e aos pássaros sem se importar com o amanhã e abandonarem os tesouros terrenos. Na verdade, doi dos mais sensíveis da teologia cristã moderna Mattthew Fox e Thomas Berry, estão defendendo o retorno aos valo9res inerentes das religiões naturais anmtigas como modo de salvar a ecologia do planeta Terra e destacar a instituição eclesiástica.

Talvez haverá um tempo em que a paranóia religiosa e a ética da conquista erá, ao menos, dar espaço à humildade ante a vida – atitude fundamentada e apoiada por todos os mestres espirituais da história. Quando chegar este dia, acharemos muito o que celebrar na simples e profunda mensagem que as plantas, os animais, a Terra e o Céu têm a oferecer.

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