Estiva Básica
Panelas avantajadas fervem em bocas cavadas no chão, sobre uma potente fornalha. assim é preparada a bebida sacramental, com tod compenetração e higiene em um complexo e rigoroso ritual chamado feitio - realizado pela primeira vez no Céu do Mapiá em 1985, quando foi tirada esta foto
Durante um bom tempo, a principal fonte de renda da comunidade era a extração de borracha. todo mês, uma quantidade entre 1,5 e 2 toneladas era levada para âser vendida em boca do Acre e o dinheiro arrecadado ficava ali mesmo, emtroca do que os seringueiros chamam "estiva básica" - uma modesta feira mensal que resultava para cada família, em 3 ou 4 quilos de açucar, 2 ou 3 latas de óleo, uma poucas barras de sabão, querosene e diesel para as lamparinas, mais chumbo e pólvora para os encarregados da caça.
O aspecto mais impresionante - e revolucionário - desse modelo comunitário era, sem duvida, que, durante mais de uma década, praticamente não circulava dinheiro dentro da vila. quando aparecia algumas notas ou moedas, o Padrinho as guardava numa velha caixa de sapato, até chegar o dia de fazer uma feira na cidade.
A feira, por sua vez, era trazida na Ariramba, a última grande canoa fabricada pelo Padrinho Sebastião, feita de um imenso tronco de pequi. o único motor da comunidade chamava-se Cascata. por motivo de economia, o Padrinho exigia que a canoa descesse o igarapé de bubuia - palavra típica do caboclês amazônico, que quer dizer "flutuar ao sabor da corrente". ou seja, o motor só era ligado na subida.
Porém, apesar de todo o seu esforço na batalha pela sobrevivência , a comunidade via suas dívidas crescerem a até o ponto em que seu velho caminhão, herói da mudança da Colônia Cinco mil para o Rio do Ouro e deste para o Mapía, teve que ser vendido para saldá-las.
Nesse momento crítico, fopi fundamental o apoio da irmandade do Sul do país, que aumentava a cada dia. Novas igrejas se formavam apartir do trio inicial e todas assumiam de bom grado o compromisso de ajudar os irmãos da floresta. Consideravam, de fato, uma obrigação sua dar apoio ao povo - com isso, a prosperidade aos poucos foi aparecendo no horizonte.
Os novos raminhos gerados nas cidades pela raiz florestal daimista também faziam crescer cada vez mais a visitação aos festivais. os primeiros peregrinos vinham, em sua grande maioria, das duas igrejas do estado do rio, cuja delegação em 1985 somava dezenas de adeptos, incluindo atores da TV Globo que não passaram despercebidos pela imprensa de Rio Branco.
Nesse movimento, uma das experiências mais importantes para os novos daimistas é poder participar dos feitios, ritual de preparo da bebida, tão complexo, rigoroso e exigente que demorou até novembro de 1987 para ser realizado fora da Amazônia, na igreja de Mauá. Mesmo no Céu do Mapiá, o primeiro feitio só ocorreu em fevereiro de 85, na fornalha do engenho - depois de uma primeira experiência na casa do Sr. Chagas, outro veterano seguidor do Padrinho.
Logo em seguida, vieram outras iniciativas importantíssimas para a formação da Vila: a cozinha Geral, para refeições comunitárias, uma escola pra a criançada, o ccentro de Saúde de Sebastião Mota de Melo - e a lendária Casinha de Estrela, espécie de micro-igreja especificamente destinada a trabalhos de cura e banca espírita, onde a atuação mediúnica do Padrinho falando em línguas desconhecidas jamais será esquecida pelos que tiveram o privilégio de presenciá-la.
Em 1986, a galopante inflação dos preços mergulhava o brasil em uma de suas maiores crises econõmicas no país. Na Amazônia, o reflexo estava nos seringgais e castanhais falidos e as populações que ainda viviam de um extrativismo rudimentar, cada vez mais miseráveis, nas mãos dos marreteiros.
Já no pequenino povoado do igarapé Mapiá, acontecia o contrário: a comunidade melhorava as condições de vida de suas famílias com donativos da irmandade ao sul. Os primeiros investimentos foram em agricultura e transporte: a compra da Prainha, terreno à margem do Purus mais adequado para a agricultura 9e administrado com alta produtividade pelo padrinho Nel), mais um barco de 20 toneladas, batizado de Canarinho, que melhorou muito a situação de carga e passageiros na rota entre o porto de Boca do Acre e a Fazenda São Sebastião.
A comunidade vicejava como uma planta regada com amor - mas a situação dos daimistas e outros adeptos da bebida, como a União do Vegetal e a Barquinha, não era só flores e céu azul. Em 1985, a dimed (Divisão Nacional de Vigilância Sanitária de Medicamentos) orgão do Ministério da Saúde, abruptamente resolveu baixar uma portaria proibindo sua bebida sacramental. iniciou-se uma nova fase de mobilização e reunião com as autoridades na busca de garantir o direito de seu uso ritual.
A questão passou, então, para o ministério da Justiça, que designou seu Conselho Federal de Entorpecentes (Confen) para inspecionar usuários. p próprio vice-presidente do órgão, o eminente jurísta Domingos Bernardo, visitou pessoalmente os centros das diferentes linhas, chefiando uma comissão e psiquiatras das universidades do Rio e de Campinas, psicólogos respecializados em reabilitação de drogados, representantes da divisão de narcóticos da polícia federal, mais teólogos e sociólogos.
depois de dois anos de estudos, o Confen revogou a portaria da Dimed concluindo que o uso ritual da bebida não constituía risco para a saúde e não gerava dependência física ou psíquica. No caso do céu do mapiá, constatou um padrão de vida e indicadores sociais muito mais elevados que a média das demais comunidades ribeirinhas. vale a pena detalhar esses indicadores:ausência de alcoolismo, desnutrição, mortalidade infantil e delinqüência, mais padrões dignos de moradia, alimentação e trabalho.
A visita do CONFEN à vila terminou em festa, com o hinário de antonio gomes (contemporâneo do Mestre irineu) cantado à beira da fornalha de um grande Feitio, destinado a abastecer as igrejas do Sul. Nessa época, o Cefluris lançava as bases dom projeto Dai9me Eterno, justamente para garantir o plantio suficiente das espécies utilizadas na produção do chá sacramental - podendo assim, antecipar a expans~~ao ainda maior que ocorreria na década de 90. hoje, a produção envolve uma organização de porte considerável, unindo diversas Casas de Feitio e plantações ns principais igrejs do país. tudo como manda o figurino: trabalhando em planos de manejo e reposição junto ao Ibanma (Instituto Brasileiro de Meio ambiente e dos recursos Naturais Renováveis), orgão do Ministério do Meio Ambiente e cumprindo a burocracia das ATPFs (Autorização de Transporte de Produtos Florestais).
Continua....