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Meditar é ver se erguerem os sóis do espírito, depois das provas noturnas, as tempestades e os tormentos da alma. Aprende a meditar se queres ver o mundo com olhos novos.
Tradição Índigena Norte Americana, Ed. Nova Era



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Tradições Cristãs e Budistas

Extraido do Livro Emoções Que Curam - Org, Daniel Goleman - Ed. Rocco
LEE YEARLEY compara as características das virtudes e dos vícios no interior das tradições cristã e confucionista. Algumas dessas virtudes também fazem parte da tradição budista. Ele se concentra em uma concepção particular da virtude e do vício, a de Tomás de Aquino, um filósofo do século XIII. O Dr. Yearley indica que a lista de virtudes e vícios de Tomás de Aquino em muitos aspectos lembra listas semelhantes concebidas pelos pensadores budistas e confucionistas. Após essa apresentação, o Dalai Lama debate a concepção budista da virtude, que evolui para um diálogo no qual é considerada a motivação da ação,j unto com a ação em si. Dilemas morais são discutidos, como quando a violência é justificada e quando uma ação é não-virtuosa.

Existem várias características gerais da virtude dentro das tradições cristã e confucionista, características essas que também fazem parte da tradição budista. Quase todas as tradições consideram as virtudes exemplos da excelência humana, do florescimento humano. Elas são acréscimos permanentes ao eu, partes fundamentais do caráter das pessoas, aspectos que fazem as pessoas serem quem são. Além disso, as virtudes se manifestam não apenas no que a pessoa faz, como também no que ela sente e deseja. Um aspecto muito importante das virtudes são as emoções.

As virtudes também são corretivas. Ou seja, as virtudes corrigem uma dificuldade considerada natural nos seres humanos, uma tentação à qual é preciso resistir ou uma motivação que precisa ser tornada boa. A coragem, por exemplo, corrige a inclinação de sermos impedidos pelo medo de fazer o que deve ser feito. De forma análoga, a compaixão corrige a tendência de sermos egoístas.

Outra característica das virtudes é que elas são expressivas.

Ou seja, elas mostram uma concepção pessoal de uma boa vida. A pessoa virtuosa, por exemplo, tenta interromper o perigoso assaltante prestes a ferir uma criança inocente apenas porque a pessoa acredita que a coragem e a compaixão demonstradas naquele ato expressam o que uma boa vida humana é. Essa característica das virtudes significa que a atividade virtuosa e a saúde física podem às vezes estar em conflito. Por exemplo, expressar compaixão e coragem nessa situação descrita pode causar um dano físico, ou até mesmo a morte. Tendo em conta essas características gerais, voltemo-nos agora para as virtudes e vícios relacionados por Tomás de Aquino. Começarei com os vícios. Eles possuem todas as características das virtudes exceto que estão voltados para o mal em vez de para o bem. Eles reforçam em vez de corrigir as más tendências e expressam uma concepção defeituosa da vida correta. Aquino considera que sete vícios ou pecados especialmente importantes são particularmente perigosos e produzem outros pecados. Eles são os chamados sete pecados capitais.

Volto-me agora para a apresentação que Tomás de Aquino faz das virtudes. Ele as divide em dois grupos. Em um deles estão as quatro virtudes cardeais; a palavra cardeal vem do latim "dobradiça". Elas são as qualidades básicas que todos precisamos para viver uma vida decente e normal. A sabedoria prática está relacionada com o bom discernimento, o discernimento que é sensível aos diferentes tipos de situação que enfrentamos, guiando nossas ações. Ele nos diria, por exemplo, quando é melhor ficarmos zangados e quando é melhor perdoar. A justiça se ocupa dos relacionamentos das pessoas com os outros seres e está especialmente preocupada em ser justa para com eles, em dar a eles o que lhes é devido. A ação em si e não a intenção que está por trás é que é mais importante: devo pagar o dinheiro que devo, mesmo que não tenha vontade de fazê-lo.

A coragem e a moderação dizem respeito ao relacionamento das pessoas com suas emoções. A coragem supera, ou corrige, o medo, para que possamos fazer o que devemos fazer. Não deixo, por exemplo, o medo que sinto da reação das outras pessoas me impedir de enfrentar comentários racistas. A moderação envolve harmonizarmos nossos desejos e emoções, especialmente nossos desejos mais animalescos, de modo que a equanimidade e a bondade ética possam ser mantidas. Por exemplo, controlo meu desejo sexual para poder tratar a mulher atraente, porém perturbada, que me procurou em busca de ajuda. Essas quatro virtudes são fundamentais para qualquer vida digna e estável dentro da sociedade e da família. Elas não garantem necessariamente que a pessoa será um indivíduo ilustre, mas pelo menos a ajudam a ser um bom cidadão e um bom pai ou uma boa mãe.

O grupo seguinte de virtudes encerra as chamadas virtudes infusas- infusas porque procedem da ação direta de Deus. Trata-se de virtudes religiosas; ou seja, elas levam as pessoas além das aspirações e padrões humanos ordinários e incluem as pessoas estarem em contato direto com as forças sagradas. As mais importantes delas são chamadas de virtudes teológicas. Teo vem de (theo) , palavra grega que quer dizer deus, e lógica vem da palavra grega (logos) que significa razão ou "pensando a respeito". As três virtudes teológicas são a fé, a esperança e a caridade.

A fé se manifesta na crença religiosa, mas ao contrário das operações mais intelectuais que produzem a crença, a fé é animada pelo amor a Deus e pelo contato com Ele. A fé não pode provar cientificamente em que acredita, mas a certeza oriunda de um relacionamento de amor em Deus sustenta a crença. A marca característica da esperança é a confiança que surge da fé e do amor em Deus. A esperança possibilita que as pessoas vençam o desespero e ainda permaneçam realistas. Além disso, as pessoas esperançosas reconhecem que seu estado não é causado pelas suas aptidões pessoais e sim pelo poder de Deus. É claro que Tomás de Aquino trata tanto a fé quanto a esperança em um contexto cristão, mas ambas se referem a maneiras de viver que vemos na maioria das religiões: a tipos de convicções e confiança que superam o que as pessoas normalmente têm.

A caridade é a mais elevada das virtudes teológicas e é subjacente tanto à fé quanto à esperança. Ela se aproxima, creio eu, à verdadeira compaixão ou bondade amorosa do budismo. Para Tomás de Aquino, essa virtude permite que a pessoa efetivamente participe da vida de Deus e, por conseguinte, comparti lhe os atributos de Deus como a alegria e a equanimidade. Além disso, a caridade possibilita que a pessoa veja todos os outros seres como criaturas semelhantes a ela e, portanto, reconheça que tudo que as pessoas queiram fazer para si mesmas, elas também devem querer fazer para os outros. Ela serve de base, então, para a capacidade de servir os outros, e de se sacrificar por eles, que é fundamental no cristianismo. A caridade também é a meta suprema tanto da fé quanto da esperança. Ou seja, precisamos acreditar em certas coisas para podermos ser caridosos e devemos sempre ter esperança, particularmente nos momentos sombrios, para sermos capazes de amar.

Vossa Santidade, estamos muito interessados na sua visão dos mais importantes vícios ou virtudes da tradição budista.

Dalai Lama: é minha perspectiva. Começo a partir de um sentido do eu, e um sentido do que eu desejo como felicidade. Desejo ficar livre do sofrimento, e eu mereço experimentar a felicidade que eu busco, mereço ficar livre do sofrimento. Tanto a felicidade que eu busco quanto o sofrimento do qual eu quero me livrar são resultados. Ao reconhecer isso, procuro as causas que conduzem a esses resultados: ao bem-estar ou à dor e ao sofrimento. Busco as causas que levam à felicidade e evito aquelas que conduzem ao sofrimento e à perturbação mental. Os vícios se encaixam nessa última categoria, enquanto as virtudes se encaixam na primeira.

É dentro desse contexto que falamos do carma, ou das ações e seus resultados. A essência do carma não é simplesmente que não devemos cometer maus atos e sim que os maus atos são uma ação não edificante. Nós não aceitamos as coisas simplesmente como elas são, mas perguntamos: "De onde isso veio, e por que está aqui?" Se procurarmos as causas que dão origem às ações não edificantes, encontraremos perturbações mentais. A idéia não é simplesmente olhar para as perturbações mentais e dizer:

"Oh, elas são más", e deixá-Ias como estão, e sim notar que as perturbações mentais são resultados, e indagar: "Quais são as suas causas?" Também podemos perguntar: "É possível dissipar essas perturbações mentais? Se for possível, de que maneira? Que tipo de antídoto ou remédios precisa ser aplicado?" E é aí que entra o vazio. O vazio é a maneira pela qual os fenômenos surgem como eventos que estão relacionados de forma dependente. Ele é a inter-relação.

Os principais vícios, ou, mais precisamente, as principais perturbações mentais, são o apego e o ódio. Existem inúmeras variações sutis de diferentes formas de apego e de ódio, mas todas se originam principalmente dessas duas perturbações mentais básicas. Vocês podem perguntar: "Existe algo mais primário do que essas duas?" E a resposta é: sim. A partir da perspectiva do Madhyamika Prasangika, diríamos que a perturbação mental primária é a ignorância que se agarra à existência inerente dos fenômenos.

A compaixão é um exemplo disso. Em The Guide to the Bodhisattva Way of Life, Shantideva salienta que cultivar a compaixão pode ser perturbador. Pode dar origem à ansiedade com relação a outros seres sencientes. Ele pondera consigo mesmo: Não é este o caso de que se cultivarmos a compaixão sentiremos o sofrimento? E a resposta dele é a seguinte: é, mas cultivar essa intranqüilidade ou infelicidade temporária encerra um grande propósito, por causa do grande benefício que se seguirá. Se voltarmos então à definição da perturbação mentalum fator mental que perturba o equilíbrio da mente - percebemos que isso não é simplesmente algo que temporariamente causa um distúrbio, ansiedade ou infelicidade. Uma perturbação mental é uma distorção que não apenas cria esse distúrbio, como também, com o decorrer do tempo, produz ainda mais problemas. No caso da compaixão, ocorre um distúrbio temporário e um benefício a longo prazo.

Assim, o fato de um evento mental criar ou não a infelicidade não é o critério adequado para determinar se ele é ou não uma perturbação mental. O apego, por exemplo, é uma perturbação mental, mas ele pode surgir junto com uma sensação de prazer. Analogamente a raiva pode surgir junto com uma sensação de satisfação, caso você tenha se vingado de alguém. Um evento mental é uma aflição se ele perturba a tranqüilidade da mente e cria outros problemas a longo prazo, como distúrbios constantes que levam à perpetuação de um comportamento não-saudável. Se os efeitos a longo prazo do evento mental forem uma diminuição do problema, não se trata de uma perturbação mental. Ele pode, na verdade, ser até saudável

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