Você jà comeu a Amazônia hoje?
Texto de João Meirelles
João Meirelles vive em Belém, Pará, na região do estuário do rio Amazonas.
Trabalha numa entidade sem fins lucrativos, o Instituto Peabiru –
http://www.peabiru.org.br e se dedica ao fortalecimento
institucional de organizações sem fins lucrativos da Amazônia. É autor do Livro de Ouro da Amazônia (3a edição, Ediouro, Rio de Janeiro 2.004).
Décima geração de pecuaristas que abriram as fronteiras pioneiras do Brasil, deixou de comer carne bovina em 2.000
Você e eu somos bois-de-presépio ou cidadãos do planeta? Você acredita que a
sua forma de viver, alimentar-se, comportar-se, construir a sua casa, presentear seus
amigos, visitar os lugares ou votar possua relação direta com a Amazônia?
Caso afirmativo, você aceitaria avaliar se está comendo ou não a Amazônia? A
cada dia as pesquisas científicas e os relatórios ambientalistas são mais taxativos: não
podemos nos dar ao luxo de esperar que as pessoas se convençam sobre a gravidade da
situação da Amazônia. Será tarde demais quando fazendeiros, garimpeiros, madeireiros,
funcionários públicos, representantes do poder público e a população em geral ,
despertarem para o fato. Teremos perdido a maior parte da Amazônia.
Os fatos
Em cinco séculos 95% das populações indígenas desapareceram. Nações inteiras
foram extintas pelas doenças, pela escravidão e pelas armas trazidas pelos europeus. As
Nações que sobreviveram, cerca de 180, com mais de 200 mil indivíduos (1% da
população da região), contam com poucos aliados entre os funcionários públicos e
organizações da sociedade civil para se defenderem de garimpeiros, caçadores, ladrões
de madeira e grileiros.
Em
termos sociais a Amazônia é uma das regiões de maiores desigualdades
econômicas e sociais do planeta. Esta é, de longe, a mais violenta do país, respondendo
pela maioria dos casos de morte em conflitos pela terra, número de trabalhadores
escravizados em fazendas de pecuária e pela grande insegurança das áreas urbanas. Os
23 milhões de habitantes estão longe de se beneficiar da biodiversidade, da
etnodiversidade, de suas riquezas culturais e da produção de madeira e minerais. O IDH
(Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU) da região equivale ao dos paises mais
pobres do planeta.
Em
termos ambientais oferecemos, ano apos ano, o maior espetáculo de
pirotécnica ao queimarmos mais florestas para virarem pasto. O desmatamento e as
queimadas da Amazônia tornam o Brasil um dos principais paises emissores de gases que
contribuem para o efeito estufa. As mudanças climáticas são irreversíveis.
Em
termos de biodiversidade, em apenas 4% da superfície terrestre a Amazônia
continental deve abrigar mais de 1/5 da biodiversidade do planeta. Nas áreas mais
comprometidas, como no entorno de Belém, por exemplo, . das aves estão ameaçadas
de extinção. Uma vez extinta uma espécie, esta extinção é para sempre.
Em
termos ambientais, de 1.500 a 1.964 desmatamos menos de 1% da Amazônia.
Nos últimos 40 anos desmatamos cerca de 16% da região. uma área equivalente a duas
vezes a Alemanha (ou três estados de São Paulo) em pasto. Esta área de 750 mil km2 é
duas vezes maior que a área agrícola do pais. Pior, 1/4 desta área encontra-se
abandonada porque o objetivo de derrubar o mato foi o de tomar a posse da terra, para
dizer: aqui tem dono.
No momento estamos perdendo cerca de
24 mil km2 de cobertura nativa ao ano.
Isto significa que a cada ano estamos desmatando uma área equivalente a 2/3 da Bélgica
(ou do estado de Sergipe).
A cada ano perdemos cerca de 1% do que resta da floresta amazônica. Se nada for
feito teremos perdido mais da metade da floresta nos próximos 30 anos. Eu não autorizei.
Você autorizou?
Estamos apenas medindo a febre e não combatendo as causas da doença. A febre
em um doente alerta que algo vai errado, é apenas um índice. Há grande comoção quando
os índices de desmatamento são expostos ao vexame público, e pouco interesse em
discutir as verdadeiras razões de seu crescimento.
São os grandes fazendeiros! - apontam uns! É a expansão da soja! - sugerem
outros. É a abertura de estradas, a ineficácia e ausência do poder público, o aumento das
fazendas, os madeireiros, os garimpos, e assim por diante... Será que não continuamos na
periferia do problema? Será que estamos apontando apenas as conseqüências de atos
que praticamos em nosso dia-a-dia, de forma relapsa, impensada e, digamos,
irresponsável?
Os responsáveis somos nós!
Será que estamos fazendo as perguntas certas? Quem é responsável pela maior
parte dos desmatamentos? Não será difícil responder: as propriedades rurais dedicadas à
pecuária. Trata-se apenas das grandes fazendas? Não, as pequenas e médias têm na
pecuária bovina e bubalina (de búfalos) sua principal atividade.
E por que expande a pecuária na Amazônia? Certamente um fazendeiro tradicional
irá comentar: “porque é mais barato produzir carne na região, a terra tem pouco valor, a
mão de obra é barata, há pouca fiscalização dos órgãos ambientais, trabalhistas e da
receita federal”.
Esta, no entanto é uma resposta insatisfatória. Afinal, esta carne vai para algum
lugar. Alguém consome este produto. Os dados são claros: mais de
noventa por cento da
carne produzida na Amazônia é consumida no próprio Brasil, a maior parte nas regiões de
maior poder econômico –
Sul e Sudeste. O crescimento do consumo de carne bovina é
significativo. A cada dia mais e mais pessoas querem a sua picanhazinha e a sua
maminha.
Em quarenta anos, de 1964 a 2004, o rebanho bovino da Amazônia saltou de 1,5
para 60 milhões de cabeças. Parte deste rebanho é clandestino. Este lote de animais
prontos para morrer para saciar o desejo de comer carne bovina representa 1/3 do
rebanho brasileiro. Três cabeças de boi para cada habitante da Amazônia. No Brasil já há
mais bois que gente!
A pecuária é a principal atividade econômica rural da Amazônia. Não se trata
apenas de grandes e médios propriedades (estes são 25 mil famílias com áreas acima de
500 hectares). A maior parte dos 400 mil pequenos proprietários rurais da Amazônia tem
na pecuária a sua principal fonte de renda (seja pelo fracasso das demais atividades
econômicas, seja pela completa incompreensão do que seja a natureza amazônica ou
impaciência com a Natureza, preferindo carboniza-la a conduzir a dança da
sustentabilidade).
Lembremos que estamos em um país onde a maioria vive em grande carestia. Se
não fosse devido o baixo poder aquisitivo do brasileiro o consumo de carne seria pelo
menos o dobro. O brasileiro come, em média, um bife pequeno por dia (100 gramas) - 36
kg de carne/ano.
Um boi de 16 arrobas tem em média 240 kg de carne. Se você comer carne bovina
durante sua vida (72 anos – a idade média do brasileiro), isto significa um boi a cada 6,6
anos,
11 bois inteiros durante a vida –
2,6 toneladas de carne! Destes 11 bois, pelo menos
4 terão vindo da Amazônia, ou seja, a cada três dias o brasileiro come um bife da
Amazônia.
Sabe-se que este é um índice médio. O consumidor da classe alta e média chegam
a comer mais de 3 vezes esta cifra - 108 kg/carne bovina/ano. Ou seja, um caminhão com
32 bois, mais de 7,5 toneladas de carne em sua vida!
Quanto custa para a Humanidade este bife?
A insistência do modelo mundial de ocupação do solo, que privilegia a pecuária é o
principal responsável pela fome e desigualdade na área rural do Planeta. A quantidade de
água, solos e recursos utilizados para produzir um quilo de carne seria suficiente para
alimentar pelo menos 50 pessoas.
A expansão da pecuária é responsável por pelo menos 2/3 dos desmatamentos das
florestas tropicais do planeta. Estas já ocuparam 16% do planeta. Hoje ocupam menos de
9%. Da II Guerra Mundial até hoje perdemos mais de 3% das florestas tropicais do
planeta. Por quê? Principalmente porque há gente querendo comer carne bovina.
A pergunta que fazem os fazendeiros é: quanto o bife custa no seu prato? A
pergunta que deve inquietar o cidadão deste planeta é: “quanto custa de esforço à
Humanidade para você ter o luxo de um bife em seu prato?”
A pecuária é o pior empregador que existe no planeta. A miséria brasileira no
campo pode ser resumida a uma frase: a pecuária bovina expulsou o homem do campo.
Numa grande fazenda na Amazônia, emprega-se diretamente uma pessoa a cada
setecentos bois, que ocupa uma área de 1 mil hectares. A mesma área com agricultura
familiar empregaria pelo menos 100 vezes mais, com agro-floresta em permacultura
empregaria 250 pessoas!
A pecuária gera pouca renda e esta é praticamente transferida para fora das regiões
produtoras. A ilha do Marajó, uma área do tamanho da Suíça, após duzentos anos de
pecuária (bovina e bubalina), tornou-se uma das áreas mais pobres da Amazônia - e do
planeta – com índices de desenvolvimento humano (IDH) equivalentes aos de Bangladesh.
Em Chaves, no Marajó, um quarto das crianças está fora da escola e 77% das crianças
não tem luz em suas escolas!
A pecuária é altamente concentradora de renda. Inexiste uma única região do Brasil
onde a pecuária promoveu o desenvolvimento com justiça social. Pior, a maior parte dos
fazendeiros perde dinheiro com a atividade. Como não sabem fazer contas não percebem
que estão ficando mais pobres a cada dia e que pouco poderão oferecer a seus filhos e
netos. Os estudos científicos do Imazon apontam que a pecuária é tão ineficiente que, em
média, não oferece uma renda superior à da caderneta de poupança. Ou seja, seria mais
negocio ao pecuarista vender tudo o que tem e viver do dinheiro aplicado.
Por quê, então, optamos pelo boi? Porque não pensamos, somos tão bovinos
quanto a ilustre e inocente criatura. Não medimos conseqüências. Pautamo-nos pelo
passado. Não questionamos se o que nossos pais e avós fizeram seria o melhor para nós,
para nossas famílias e para a Humanidade.
Nem sempre a Humanidade fez escolhas certas. Em sua maioria são escolhas
cômodas. Não medimos as conseqüências. No entanto, estamos diante de uma
encruzilhada – ou transformamos a Amazônia em um imenso pasto ou iremos entregar às
futuras gerações a mais diversa e bela floresta tropical do planeta. A escolha é sua. E de
mais ninguém.
Quinhentos anos de atraso
Não há por que se assustar com esta responsabilidade. O Brasil é o campeão da
falta de percepção ambiental e social. A pecuária bovina é sinônimo da história da
ocupação do Brasil. Desde que o primeiro europeu colocou seus pés no Brasil, foi seguido
pela pata do boi. O vírus da gripe, o boi, a bíblia e a arma de fogo modificaram este
continente – difícil saber o que causou mais danos.
O boi é uma fonte de proteínas de baixíssima eficiência energética (converte em
carne meros 7% do que come). Com sua pata compacta o solo, causa erosão e destrói as
micro-bacias e o seu consumo traz sérias conseqüências à saúde.
O boi é um trator funcionando 24 horas. E por quê? Para saciar a vontade de comer
picadinho, hambúrguer e estrogonofe. Para transformar o Brasil no maior pasto do planeta
foi preciso “abrir” espaço para este animal. “Mato” (leia-se: floresta tropical com grande
diversidade biológica) não alimenta boi. As florestas tem que ceder lugar ao pasto.
Poderíamos resumir a história do desaparecimento da Natureza do Brasil em uma única
lápide: “virou bife”. Em 500 anos reduzimos os 1,5 milhões de hectares da Mata Atlântica
(floresta tropical atlântica) a meros 7% de sua área original, a Caatinga para menos de
20% e o Cerrado para menos de 25% de sua área. Pior: a degradação continua, de
maneira acelerada.
Insistimos em ocupar novos pastos na Amazônia ao invés de melhor a
produtividade do que já se transformou em pasto no Sul, Centro-Oeste e Sudeste. O Brasil
continua um país irresponsável em termos de produtividade na pecuária. Dos 850 milhões
de hectares do Brasil, há no país cerca de 250 milhões de hectares de pasto(cerca de 30%
do pais). Deste total, cerca de 30% está na Amazônia - 75 milhões de hectares. A
produtividade na Amazônia é pífia – 0,7 cabeças/hectare - símbolo da incompetência em
compreender e tratar o meio físico amazônico. Vamos lembrar que o Brasil todo possui
cerca de 50 milhões de hectares em área plantada!
Neste ritmo, em duas décadas teremos mais bois na Amazônia do que a totalidade
do rebanho brasileiro atual (170 milhões de cabeças). No Brasil já há mais bois que
brasileiros.
Resumo de nossa história: o Brasil virou pasto e nossa grande contribuição à
humanidade foi substituir a maior floresta tropical do planeta em churrasquinho. Carne com
gosto de fumaça, violência e extinção de espécies. Apesar da ditadura militar ter se
desmilinguido nos anos 1980 a Amazônia continua sob o domínio do medo, da lei do mais
forte, do coronelismo, da grilagem de terra, da corrupção e do incentivo fiscal a quem dele
não necessita. Quem manda é o revólver e a motoserra. Um boi vale mais que uma vida.
Por quê?
Porquê insistimos em incorrer nos mesmos erros que nossos antepassados
europeus, para quem a “pata de vaca” era sinônimo de progresso. O boi é celestial. O
mato é o demônio. O arame farpado é progresso. A floresta calcinada é progresso. O
mugido do boi é progresso. O pasto, que pode ser medido e contabilizado é celestial.
O país continua a tratar a Amazônia como uma área ainda não conquistada, um
imenso estoque de terra pronto para virar pasto. E mais, a Amazônia como fonte
inesgotável de madeira, peixe, ouro, alumínio, energia elétrica etc.
As políticas públicas e a maior parte das empresas despreza os 10.000 anos de
convivência com a floresta tropical. Desta aprendizado passo a passo, de descoberta do
ser e viver. O Brasil trata as comunidades indígenas e a caboclas como culturas
“primitivas”, “bárbaras” e “demoníacas”. O mato, o espaço do desconhecido, do que não
pode ser controlado, é o antro do medo, da escuridão. É no mato que estão os piores
horrores.
Não haverá aqui uma inversão de valores? Estamos prontos a reconhecer este
erro? Ou continuaremos a nos ufanar que temos o maior rebanho comercial do planeta?
Que nossos bois são “bois verdes”, comem só capim?
Vamos continuar a nos enganar? Seremos honestos com as futuras gerações?
Quem está disposto a pensar um novo Brasil? Seremos os bois-de-presépio da vez, que
sentam-se na lanchonete e devoram silenciosos seus hambúrgueres?
O desafio
Cabe a nós, e tão somente a nós todos, sermos diligentes e eficientes em propor
um novo pacto civilizatório para a Amazônia, capaz de diminuir a pressão sobre as
populações nativas e o meio ambiente. Seus 23 milhões de habitantes, com amplas
necessidades de consumo, inclusive de proteínas, demandam respostas rápidas. Afinal,
come-se a Amazônia três vezes ao dia, no café-da-manhã, no almoço e no jantar.
Deste total há 7 milhões de habitantes na zona rural, dos quais cerca de 2 milhões
vivem em trinta mil comunidades tradicionais, em sua maioria com acesso precário a
serviços públicos de educação, saúde, água, esgotos, energia, segurança e assistência
técnica agrícola.
Não estará na hora de nos transformarmos de destruidores em enriquecedores da
natureza. Será que não bastam os 75 milhões de hectares já desmatados da Amazônia
(área superior a toda área agrícola do país) para revolucionarmos nossa compreensão de
floresta tropical produtiva?
Não será a hora de formarmos agricultores da sustentabilidade (permacultores),
criadores de peixe, guarda-parques, guias de ecoturismo, artesãos, madeireiros
cuidadosos, cientistas e estudiosos do saber local?
E nós, continuaremos a ser meros telespectadores? Corrigindo, na verdade, somos
mais que telespectadores, somos os que financiam este processo, silenciosamente, nas
gôndolas de supermercado, nos espetinhos, nos pastéis de carne...Mais do que rebanhos
de consumidores, de cabeça baixa, nossa ignorância alimenta a injustiça e a destruição.
Aceitamos, silenciosamente, que as coisas continuem como estão.
Medidas praticas para o dia de hoje
Você pode mudar a Amazônia a partir de agora. A sua decisão de consumo afetará
profundamente o que se produz na Amazônia.
Ao nível individual:
- se você come carne, pergunte a quem lhe vende, de onde vem a carne para saber
se você está comendo ou não a Amazónia?
- Se você mora fora do Brasil – pergunte se é mesmo imprescindível vir carne da
Amazónia e das outras florestas tropicais (muitas vezes você come a Amazónia na
forma de soja, que ao invés de alimentar pessoas é dado a porcos, galinhas e
vacas)?
- Que medidas o poder público pode tomar agora por meio de decreto: aumentar a
taxa do imposto territorial rural das áreas de pastagens, modificar a fórmula de
cálculo do imposto de renda dos fazendeiros, fiscalizar com seriedade as questões
ambientais, trabalhistas e tributárias da cadeia produtiva da carne na Amazônia.
Ao nível coletivo nacional:
- Não seria oportuno discutir uma moratória de alguns anos, digamos, quatro anos,
onde nenhuma autorização de desmatamento fosse concedida. Não seria este um
tipo de compromisso que um novo presidente da República deveria assumir?
- Não seria oportuno organizar um amplo programa de reeducação para fazendeiros
e suas famílias, permitindo que fossem capacitados em técnicas sustentáveis de
convivência com a floresta? Afinal, eles são pessoas como nós, que só querem ter
uma vida digna para si e seus familiares. A pecuária é apenas o meio de vida que
se lhes coube e que sabem trabalhar.
Ao nível coletivo internacional:
- Não está na hora de efetivamente discutir a relação entre a destruição das florestas
tropicais do globo e a pecuária e o consumo de madeiras tropicais?
Teremos que olhar a Amazônia de outra forma, não através dos olhos bovinos que
esmagaram o futuro nos últimos cinco séculos. É preciso que aceitemos que não somos
bois-de-presépio nem bois-de-piranha. Somos seres capazes de decidir o que queremos.
E queremos justiça social, ambiente saudável, emprego e renda com equidade.
Queremos entregar às futuras gerações a Amazônia com a etnodiversidade, a biodiversidade e a diversidade cultural melhor ou igual àquela que recebemos.
maio de 2006